Rafael Jonnier
Aos 19 anos, o artista plástico Rafael Jonnier deixou Cáceres decidido a romper com a própria estagnação. Queria novos ambientes para alcançar resultados diferentes. Treze anos depois, está consolidado em Cuiabá, com passagens por Amsterdã, Paris e Londres no currículo e uma galeria própria onde arte e fé caminham juntas.

Antes do reconhecimento, houve dúvida. Ainda em Cáceres, na Praça Barão, ouviu de clientes que pagariam apenas cinco reais por uma caricatura. Saiu desapontado. “Prefiro vender picolé, vou ganhar mais dinheiro”, pensou.
A convicção sobre o propósito só viria anos depois, já com carreira consolidada. Uma cliente relatou que um muro pintado por ele a ajudou a superar uma depressão profunda.
Ela contou que, ao sair de casa, olhava para a pintura e sentia alívio. Passou a segui-lo nas redes sociais e se conectou com as histórias bíblicas que acompanham suas obras.
Victor Ostetti/MidiaNews
O artista plástico Rafael Jonnier em seu atêlie, em Cuiabá
O relato o emocionou. “Naquele dia eu entendi: você é resposta de oração. Meu propósito é conectar pessoas. A arte é uma grande arma para isso”, afirmou.
Hoje, o ateliê de Jonnier funciona ao lado do apartamento onde mora, no bairro Quilombo, em Cuiabá, em uma estrutura que emprega mais de cinco funcionários, entre eles outros artistas.
A produção mensal gira em torno de dez telas e quinze esculturas, além de peças de design e luminárias, ampliando a atuação para além da pintura tradicional.
Da incubadora ao salto
Antes de viver exclusivamente da arte, Jonnier trabalhou como promotor de eventos, fez decoração de festas, atuou em feiras, cuidou de bicicletas e carros.
Para ele, essas experiências foram decisivas na formação empreendedora. Aprendeu sobre networking, relacionamento e posicionamento.
“Cáceres foi literalmente uma incubadora para mim. Foi lá que aprendi muitas coisas e de onde vem a minha essência como artista. ‘Pescador de Sonhos’ e ‘Princesinha do Rio’ têm essa origem cacerense".
A decisão de migrar para Cuiabá ocorreu quando o artista tinha entre 19 e 20 anos, motivada pela percepção de que a estagnação exigia uma ruptura.
“Eu estava em evolução e pensei: se continuar no mesmo ambiente, vou ter o mesmo resultado. Então entendi que precisava criar novos hábitos, mudar de ambiente para alcançar resultados diferentes”, explicou.
“Coloquei na minha cabeça que precisava tentar algo novo naquele momento, quando ainda não tinha filhos, não era casado e só respondia por mim. Foi assim que passei a aproveitar todas as oportunidades que surgiram na minha vida".
O acidente que virou chave

O divisor de águas veio após um acidente de carro. Ao observar o cenário de caos, associou a cena à própria vida e descreveu o momento como o primeiro contato direto com o que considera a voz de Deus. A partir dali, decidiu reorganizar prioridades e aprofundar a fé, que hoje orienta sua produção e gestão.
Ele relatou que, naquele período, percebeu que o “deus” que seguia era o próprio ego, movido por orgulho e vaidade. Buscava reconhecimento e fama.
“Deus falou: você vive os meus sonhos ou vive os seus? Naquele momento, eu me perguntei: mas quais são os meus sonhos? Então olhei para a cena do carro batido, as pessoas saindo, todo aquele caos e percebi que, literalmente, a minha vida estava daquele jeito”, relatou.
“Foi ali que decidi seguir os planos de Deus. Passei a ler o que chamo de manual da vida, a entender como funciona o campo espiritual, e a minha vida começou a se transformar naquele momento".
Pop art com o cultura regional
Victor Ostetti/MidiaNews
O artista plátisco Rafael Jonnier finalizando mais uma pintura
A virada internacional veio em 2018, com uma temporada de quatro meses em Amsterdã. A cidade holandesa, que ele conhecera por meio de uma novela e onde sonhava morar, tornou-se o berço de sua expansão artística.
"Eu tive várias oportunidades em Paris, em Portugal, em Londres, mas Amsterdã foi o berço. Foi ali que eu convivi e onde a minha mente se abriu, porque tive acesso às áreas de Rembrandt", recordou.
Rembrandt Harmenszoon van Rijn foi um pintor e gravurista holandês. É geralmente considerado um dos maiores nomes da história da arte europeia e o mais importante da história holandesa.
"Eu morava numa casa perto de onde foi a casa de Rembrandt e passava por lá todos os dias. Praticamente toda semana eu ia lá, visitava, via como eles fabricavam as tintas, os pincéis, até as telas. Eu falei: meu Deus, se naquela época eles davam a vida pela arte... Aí pensei: não, eu preciso entender que a arte é o ar que eu respiro".
Em sua trajetória, Jonnier experimentou diferentes linguagens, começou na pop art, passou pelo grafite nas ruas e hoje incorpora realidade aumentada às obras. A pop art, influenciada por Andy Warhol, foi fundamental nos primeiros cinco anos de carreira.
"Andy Warhol, que foi o pai da pop art, sempre usou a tecnologia, a fotografia; sempre explorou esse lado conceitual para produzir esse estilo", explicou.
"Ele era publicitário e trouxe isso. Eu fiquei apaixonado por aquela arte. Quando iniciei na arte, falei: cara, eu quero isso. Então transformei a pop art com um lado regional. Foi a forma que usei para entrar no mundo da arte em Mato Grosso".
O artista plástico norte-americano Jean-Michel Basquiat também aparece como referência importante, especialmente pela relação com a rua e pela espontaneidade da expressão artística. Mas o artista americano traz também uma memória familiar delicada.
"Eu sempre tive o mesmo medo que minha mãe teve quando eu disse que ia ser artista. Quando falei para ela: vou ser artista, minha mãe ficou com muito medo de eu me perder no mundo das artes, como Andy Warhol se perdeu, como Basquiat se perdeu e morreu com trinta e poucos anos. O medo da minha mãe era esse".
Victor Ostetti/MidiaNews
Telas expostas na galeria do Rafael Jonnier
Uma galeria cristocêntrica
Hoje, ele define o espaço que comanda como cristocêntrico. “Eu falo cristocêntrica exatamente para não falar religiosa. Porque a religião divide muito o público. Quando a gente traz o lado cristocêntrico, ele une e cria curiosidade. É colocar Cristo no centro".
Na galeria, acontecem encontros regulares, como células, além de momentos de oração. “Todos os dias nós chegamos e começamos com uma oração. Oramos pela criatividade, pela harmonia do ambiente. O dia que não fazemos isso parece que falta algo".
Segundo ele, a conexão espiritual é essencial para o processo criativo. “Qualquer profissional da área criativa chega uma hora em que fala: estou sem inspiração. E isso é horrível. Quando acessamos o lado espiritual em Cristo, conseguimos ir além da nossa capacidade humana".
O mercado e os mentores

Sobre o mercado de arte em Mato Grosso, Jonnier afirmou que o artista local não precisa necessariamente sair do estado para ser reconhecido, mas precisa de posicionamento e intencionalidade.
"Depende do posicionamento e depende da intencionalidade de cada artista. Quando o artista entende a importância do foco, ele consegue romper. Mas quando o artista não sabe o que ele quer, ele fica com medo de tantas coisas que perde essa relevância", analisou.
Ele reconhece as dificuldades da profissão que exige persistência. "Eu creio que o mercado da arte não é um bicho de sete cabeças, porém, não é fácil. Não é uma profissão que, ah, uhul, eu sei como que é, eu vou lá, vou ser artista", ponderou.
"Existe todo um processo de construção de uma identidade", acrescentou.
Para Jonnier, a autenticidade é o que conecta obra e comprador. “Cada pessoa tem uma história. Hoje, o que eu pinto são, literalmente, histórias que eu vivo e isso é prazeroso. Quando eu conto, o cliente sente essa verdade. É aí que ele diz: ‘eu quero isso na minha casa’".
Referências do MT
No início da trajetória, buscou orientação de nomes consolidados no Estado, como Adir Sodré, João Sebastião e Irigaray.
“Eu tive a audácia de ir na casa deles perguntar. O Adir me recebeu, o João Sebastião me direcionou, explicou muita coisa, e eu cheguei a expor com o Irigaray".
Uma orientação específica de João Sebastião marcou sua visão sobre tecnologia: “Você pode usar a ferramenta que quiser. Você é artista, é livre. Não pode se limitar".
Outro mentor citado é Carlinhos Viana, também de Cáceres. “Foi o primeiro ateliê que conheci. Muitas decisões que tomo hoje começaram com as orientações que recebi dele aos 16 anos".
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