O Pantanal mato-grossense enfrentou uma das 10 maiores secas do mundo em 40 anos, de acordo com uma pesquisa publicada na revista Science, no último mês. As mega secas, alvos do estudo, têm pelo menos dois anos de duração.

O autor da pesquisa “Aumento global da ocorrência e do impacto de secas plurianuais“ (traduzida), Simone Fatichi, pesquisador da Universidade Nacional de Singapura (EUA), constatou que essas grande secas estão se tornando cada vez mais quentes e devastadoras. Entre 13 mil eventos pesquisados no período de 1980 a 2018, o Pantanal aparece na 7º posição das mais grave.
A professora Giseli Dalla Nora, que trabalha na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e realiza pesquisas nas áreas do Pantanal, afirmou que além da diminuição da água e chuvas no estado, os prejuízos das secas afetam a vida e saúde humana, a economia turística e alimentícia, animais e plantas da região, incluindo os que só são encontrados no bioma.
“Quanto mais seco, maiores os problemas de saúde temos. Quando tem os grandes incêndios florestais, causados pela seca, por exemplo, há prejuízo à saúde das pessoas, porque a fumaça chega na cidade”, disse ela ao MidiaNews.
“Nós vivemos nas cidades, mas a gente depende de todo esse ambiente natural que está ao nosso redor. Então, o Cerrado, a Amazônia e o Pantanal precisam ser cuidados. E não é apenas cuidado para dizer que está cuidando. É o cuidado para a manutenção da vida humana. Se a gente não cuidar agora, essa água não vai ficar circulando na atmosfera. Quanto mais seco, maiores os problemas de saúde”, acrescentou.
A professora alertou, ainda, que a sociedade também é afetada economicamente com as secas, por meio do turismo e plantações.
De acordo com a geóloga, sem a biodiversidade, os turistas deixam de movimentar a economia local.
Já no caso das plantações, há um prejuízo com as altas temperaturas, gerando escassez de alimentos e remédios nas comunidades.

“A gente perde economicamente quando deixa de ter esses espaços de beleza cênica e perde quando as pessoas deixam de visitar o Pantanal. Por exemplo, o turismo de pesca é muito atrativo para Mato Grosso, principalmente, por conta da biodiversidade. Então, as pessoas querem vir ver água. Onde tem água, você consegue pescar”, disse.
Menos superfície
A diminuição da lâmina d’água também é um fator recorrente no Pantanal mato-grossense. Conforme a água diminui, a área do próprio bioma também, e toda a biodiversidade da região é colocada em risco.
O Pantanal foi o bioma que mais perdeu superfície de água no último ano, com a perda de 61%, de acordo com o MapBiomas, rede colaborativa de preservação ambiental.
“A diminuição dessas áreas de inundação diminui a biodiversidade e as áreas que poderiam ser de passagens naturais, por exemplo”, afirmou a professora.
Há regiões que contavam com o Pantanal, mas que deixaram de ser parte do bioma, como a comunidade quilombola de Campo Alegre de Baixo, que era uma região em que existia muita água antes e agora não.
“A escassez de água prejudica a sociedade de todas as formas. Então, há uma crise hídrica nas comunidades, e as pessoas que vivem nas comunidades do Pantanal, as pessoas que vivem próximas, são prejudicadas”.
Ainda, espécies em extinção correm riscos no Pantanal. “Elas precisam de muita água. Precisam de água para conseguir viver os ciclos. E aí, associado a seca, também tem os grandes incêndios florestais, que atingem essas espécies”, disse a professora.
Segundo ela, as secas são parte dos eventos climáticos extremos que ocorrem por conta das alterações climáticas de um modo geral.

Mato Grosso, juntamente com Acre, Amazonas, Bolívia e Peru, enfrentaram uma seca grave entre 2012 e 2018, de acordo com a pesquisa de Simone Fatichi.
“A superfície terrestre está sendo duramente impactada pelas ondas humanas, desmatamento, queimadas, mineração, alagamentos, que estão mudando muito a paisagem terrestre. Consequentemente, todo ciclo natural que envolve temperatura, umidade do ar, chuvas, aumenta com isso. Resultado: a gente vai tendo uma série de eventos climáticos extremos”, resume a geóloga.
Barraginhas
Ações para atenuar as secas no Pantanal são feitas por meio de projetos de gestão de água, como as Barraginhas.
Elas são pequenas bacias escavadas que recebem água de enxurradas e chuvas irregulares e intensas. Elas são implantadas em áreas de pastagens, lavouras e beiras de estradas, e retêm água da chuva, auxiliando a agricultura familiar.
As barraginhas possibilitam o plantio de hortas ao seu redor, o suficiente para ajudar a pequena produção e garantir o sustento familiar.
Giseli Dalla ainda destacou que a criação de centrais e usinas hidrelétricas e implantação de barragens para pastagens e cidades também drenam água de locais que deveriam ser alagados.
“Nós vivemos agora um momento onde as cabeceiras dos rios, em especial a cabeceira do rio Cuiabá, tem áreas de drenagem, ou seja, áreas que deveriam ser alagadas e que são drenadas para a instalação de empresas, para pastagens... Então, você tem um monte de áreas de nascentes que são soterradas para produções agrícolas e econômicas. E isso impacta também o Pantanal", completou.
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