Bolsões de lixo, descarte irregular de resíduos e pontos de lançamento de esgoto têm sido registrados com frequência nos rios Cuiabá e Coxipó, principalmente nas áreas urbanas da Capital. Parte dessas situações vem sendo documentada pelo policial penal e pescador esportivo Hemerson Rodrigues, que utiliza as redes sociais para mostrar o que encontra durante navegações nos rios.

Na semana passada, um vídeo publicado por Hemerson viralizou na plataforma de rede social Tiktok, ao mostrar um trecho nas proximidades do São Gonçalo Beira Rio tomado pelo lixo.
Segundo ele, a área fica logo abaixo do local onde o Rio Coxipó deságua no Rio Cuiabá, e grande parte da poluição provém de descarte irregular de lixo pela própria população.
“Não adianta colocar a culpa no Governo, porque isso aqui é a população, que jogou esse lixo nas ruas, veio a chuva e trouxe para o rio. A gente também tem que ter consciência. É triste”, disse ele no registro.
Praticante da pesca esportiva há mais de 10 anos, Hemerson passou a percorrer trechos menos acessíveis após adotar o caiaque como modalidade, o que ampliou o contato com regiões onde o acúmulo de resíduos é recorrente.
Segundo ele, entre os materiais já encontrados estão móveis, entulho doméstico e até eletrodomésticos descartados às margens.
Os vídeos, inicialmente voltados apenas à pesca, passaram a chamar atenção ao expor a situação ambiental dos rios urbanos e geraram grande repercussão entre seguidores.
“Foi de brincadeira. Apareceu um peixe grande lá na linha, alguém filmou e eu falei: vamos colocar na rede social”, afirmou.
Yasmin Silva/MidiaNews
Lixo trazido pela chuva se acumula no Rio Cuiabá
A pesca esportiva em caiaque permite acessar pontos onde a presença humana é menor e o monitoramento público é mais difícil, contou Hemeson. Segundo ele, foi justamente essa mobilidade que possibilitou observar com mais frequência o acúmulo de resíduos levados pelas chuvas.
De acordo com o policial, a situação se agrava principalmente durante o período chuvoso, quando o lixo descartado nas ruas é arrastado até os cursos d’água.
“Assim que chove forte, desce muito lixo. Esse material vem das ruas e acaba parando no rio”, relatou.
Na avaliação do pescador, embora ações públicas de limpeza sejam necessárias, o problema também está ligado ao descarte irregular feito pela própria população.
Além do impacto visual, a poluição interfere diretamente na fauna aquática. Espécies mais sensíveis à qualidade da água, como piraputanga e dourado, tendem a migrar para regiões menos poluídas, o que altera a dinâmica da pesca local.
Hemerson afirmou que os trechos mais críticos estão dentro da área urbana, especialmente as regiões tradicionalmente utilizadas para lazer.
Segundo ele, até a Passagem da Conceição ainda há áreas próprias para banho, mas a qualidade da água se deteriora ao longo do percurso urbano devido ao lançamento de esgoto.
A situação, afirmou, afeta não apenas o lazer da população, mas também pescadores profissionais que dependem do rio para subsistência.
O órgão responsável pela fiscalização dos rios é a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), que foi procurada pelo MidiaNews para sanar dúvidas a respeito, também de quantas pessoas foram multadas por descarte irregular de lixo na região, e o valor do montante. Porém, não houve retorno.
Dados da Prefeitura de Cuiabá indicam que o recolhimento de resíduos ocorre de fo

ma contínua. A Empresa Cuiabana de Zeladoria e Serviços Urbanos (Limpurb) retira, em média, cerca de 20 toneladas de lixo por mês do leito e das margens do Rio Cuiabá.
O trabalho é realizado com apoio de uma balsa ecológica, que opera de segunda a sexta-feira entre a Marina Goiana, na região da Beira Rio, e a Ponte Sarita Baracat de Arruda, no bairro Parque Atalaia, recolhendo aproximadamente uma tonelada de resíduos por dia.
Além da limpeza rotineira, ações específicas também são realizadas. Em março de 2025, uma operação da Prefeitura removeu 180 toneladas de detritos descartados irregularmente em um bolsão de lixo localizado no bairro Altos do Coxipó, na região sul da Capital.
Manifestação chegou ao Poder público
Conforme o policial, o Tribunal de Contas do Estado (TCE), por intermédio do conselheiro Sérgio Ricardo, o contatou para realizar um mutirão de limpeza nos rios. Entretanto, não definiu uma data para o ato. A reportagem entrou em contato com assessoria do TCE, mas não houve retorno até a publicação desta matéria.
Outro ponto recorrente nos registros feitos pelo pescador é o lançamento de esgoto nos rios urbanos. Um dos vídeos publicados por ele motivou manifestações e discussões sobre o nível de tratamento sanitário na cidade.
Embora dados oficiais apontem alto índice de tratamento de esgoto, Hemerson afirmou que a realidade observada durante as navegações ainda levanta questionamentos.
Yasmin Silva/MidiaNews
Capacete e bola de futebol que foram descartados irregularmente, boiando no rio Cuiabá
“Sem resolver a questão do esgoto, fica difícil imaginar o rio voltando totalmente a ser um espaço de lazer”, avaliou.
Para ele, a recuperação plena dos rios depende principalmente do avanço das políticas de saneamento.
Sem consciência ambiental, sem futuro
Apesar do cenário preocupante, o pescador afirmou acreditar que a exposição do problema pode contribuir para mudanças. Segundo ele, a intenção ao publicar os vídeos nunca foi obter retorno financeiro, mas chamar atenção para a necessidade de preservação.
“A gente precisa cuidar agora para que as próximas gerações tenham a mesma oportunidade que nós temos hoje”, disse.
A expectativa, segundo ele, é que ações públicas e maior conscientização da população ajudem a reduzir o impacto ambiental e preservem a atividade pesqueira ao longo dos próximos anos.
Entre registros de pescarias e denúncias ambientais, Hemerson segue navegando pelos mesmos trajetos, agora acompanhado por milhares de pessoas que passaram a enxergar, pelas telas do celular, uma realidade que muitas vezes permanece invisível às margens da cidade.
Veja:
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