Moradores de rua na praça do porto
Dados do último levantamento do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) indicam que ao menos 1.783 pessoas vivem nas ruas de Cuiabá, em 2025. O número representa um aumento de mais de 2.775% em comparação a 2013, quando 62 pessoas foram contabilizadas no sistema.

Com o crescimento da população em situação de vulnerabilidade, pontos públicos da Capital passaram a servir de moradia para quem não tem onde ficar. Entre eles, a Praça Luís de Albuquerque, conhecida como Praça do Porto, onde empresários relatam aumento do fluxo de pessoas e maior sensação de insegurança na região.
Com um ponto de venda de artigos para pesca próximo à praça há 42 anos, o empresário Valdevino Leão acompanha de perto o crescimento do número de pessoas que escolhem o local para permanecer.
“Porque esse pessoal que estava lá no Centro veio para cá. Daqui, ele não tem para onde ir”, relatou o empresário.
Segundo ele, o aumento no número de pessoas que vivem na praça também afetou o faturamento da empresa, que viu o fluxo de clientes diminuir na região.
“Aqui, ultimamente, depois do Aquário Municipal, passam várias senhoras com crianças. É muito assustador na nossa área. Eu estou aqui há 42 anos com essa empresa. Só não fechei porque trabalho com produtos controlados, do contrário, já teria fechado”, contou Valdevino.
Victor Ostetti/MidiaNews
O empresário Valdevino Leão, que revelou insegurança na região do Porto
Ciclo da violência
Por outro lado, especialistas apontam que se trata de um problema complexo, intensificado pelo ciclo de vulnerabilidade social, falta de políticas públicas de acolhimento e de serviços essenciais, como saúde, alimentação, moradia digna e tratamento de dependências.
Segundo a psiquiatra, doutora e professora de Psicologia da UFMT, Adriana Rangel, os fatores que levam as pessoas à situação de rua são variados, incluindo falta de emprego, conflitos familiares e uso de drogas.
“Eu encontrei trabalhadores desempregados, pessoas com sofrimento psíquico grave, gente que perdeu tudo, jovens com histórias muito traumáticas. Muitos não conseguiram se inserir na escola, na família ou no trabalho”, relatou a professora, que está há 10 anos à frente do projeto Psicanálise na Rua, que atende pessoas em situação de rua na Capital.
De acordo com Adriana Rangel, os números alarmantes refletem a ausência de políticas públicas e de acolhimento capazes de oferecer estrutura para a saída da situação de rua.
“Estão nessa situação porque não conseguem sair. É como se fosse um manicômio de portas e paredes invisíveis. As pessoas se sentem prisioneiras dessa condição de rua”, declarou.
A sensação de impotência é vivida por Júlio Silva*, de 22 anos. Vivendo na rua há cerca de dois anos, ele relatou que foi morar na região após conflitos familiares.
“Eu perdi tudo. Quando a gente quer mudança, as pessoas não acreditam na gente”, contou o jovem em entrevista ao MidiaNews.
Ele ressaltou que nem todas as pessoas que residem na praça fazem uso de drogas, mas que, por conviver com outros que têm vício, acabam sendo expostos ao consumo.
“As drogas são para esquecer os problemas da vida”, disse Júlio, que acredita que a ajuda para tratamento do vício poderia reduzir o número de pessoas nesta situação.
Segundo o empresário Valdevino Leão, a situação também gera insegurança para comerciantes e para os frequentadores que passam pelo local para acessar o Aquário Municipal. Durante a visita da reportagem, pequenas ocorrências de venda de drogas foram registradas em pontos estratégicos da praça.
Especialistas, no entanto, destacam que esses episódios não representam a totalidade da população e refletem questões sociais complexas, não comportamentos generalizados.
Dados do último levantamento da Secretaria Adjunta de Assistência Social de Mato Grosso apontam que o desemprego ainda é o principal fator que leva a população a viver nas ruas da Capital (28% das ocorrências), seguido pelo alcoolismo (21%) e por problemas familiares (18%).
reprodução
A professora de Psicologia da UFMT, Adriana Rangel
“Existe uma ideia muito difundida de que as pessoas estão na rua por causa das drogas. Quando comecei a escutar essas pessoas, percebi que isso não era verdade. A população é muito mais diversa e complexa”, explicou Adriana Rangel.
Com atuação no projeto há 10 anos, frequentando espaços como o Beco do Candeeiro e o Centro POP, a professora relatou a gravidade da situação que contribui para a permanência da situação de vulnerabilidade devido a falta de tratamentos e acolhimento.
“É uma população com muitas doenças, feridas, sofrimento mental intenso. Há muitos casos de dependência e abandono completo. Eles têm feridas grandes nos pés, porque andam muito. E não há um lugar adequado para tratar a doença mental que eles têm, seja pelo uso de drogas, seja pelo alcoolismo, seja pela psicose, porque a psicose reina solta na rua”, relatou.
Ainda segundo a psiquiatra, são poucas as políticas públicas em vigência que oferecem ajuda à população, que cada vez mais passa a ser estigmatizada.
“Eles foram segregados da família e da escola, sempre apartados — como a parcela que fica à margem do país. Esse histórico os empurra para a situação de rua, como se esse fosse o único lugar possível. E, mesmo ali, não podem permanecer com tranquilidade, porque a polícia frequentemente adota uma postura violenta: ao circularem, ao deixarem bancos ou os locais onde estão, muitas vezes sofrem agressões físicas”, acrescentou.
Acolhimento na Capital
*Júlio Silva é um nome fictício, usado a pedido do jovem ouvido pela reportagem.
Vídeo:
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