Cuiabá, Domingo, 22 de Março de 2026
GALERIA DO PÁDUA; VÍDEOS
22.03.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

“Quero ver essa casa cheia de gente; aí atingi meu objetivo”

Aos 72 anos, Antônio de Pádua Nobre diz querer "morrer" no espaço, que deixará como legado à cidade

Yasmin Silva/MidiaNews

O escultor Antônio de Pádua Nobre, ícone da cultura cuiabana, que construiu uma galeria de artes com teatro

O escultor Antônio de Pádua Nobre, ícone da cultura cuiabana, que construiu uma galeria de artes com teatro

ANGÉLICA CALLEJAS
DA REDAÇÃO

Idealizada tijolo por tijolo, moldada entre cimento, mosaicos, esculturas e décadas de insistência, a Galeria de Arte Pádua, na Avenida Miguel Sutil, em Cuiabá, nunca foi apenas um endereço cultural para o artista Antônio de Pádua Nobre. Aos 72 anos, o escultor fala do espaço como quem descreve uma extensão do próprio corpo, e talvez por isso trate cada parede, cadeira, janela e corredor como parte de uma biografia construída à mão.

 

Talvez um dia eu faça algo para museu, mas naquele momento meu trabalho era diretamente com as pessoas que consomem

Quem entra na galeria hoje encontra um espaço em reforma, paredes em transformação, esculturas espalhadas e um teatro que, depois de décadas de espera, finalmente passou a funcionar de forma contínua no piso superior. Para Pádua, nada ali é exatamente novo. Cada detalhe já existia primeiro como insistência, depois como desenho mental, até ganhar forma nas mãos de quem passou mais de quatro décadas construindo a própria obra e o próprio lugar dentro da arte.

 

Antes de consolidar a galeria em Cuiabá, Pádua viveu no Rio de Janeiro um episódio que considera decisivo para entender o próprio percurso como artista. Ainda jovem, preparou três esculturas em bronze e entrou na fila de seleção de uma bienal realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Dias depois, recebeu a devolução das peças com a justificativa de que elas não se encaixavam na proposta curatorial.

 

Em vez de abandonar o trabalho, decidiu visitar a exposição e percebeu que a linguagem ali apresentada seguia um caminho distante do que produzia naquele momento. Segundo ele, a venda mudou sua percepção sobre o próprio mercado.

 

“Aí eu fui ver a exposição. Quando cheguei lá tinha o Muro de Berlim, umas coisas enormes, propostas completamente diferentes da minha. Eu não tinha aquilo, nem pensar em deslocar uma pedra daquele tamanho para dentro de um museu. Peguei essas peças e fui para um shopping no Rio, conversei com uma galeria de arte, e ela comprou os três trabalhos”, disse em entrevista ao MidiaNews.

 

“Depois de um ano eu já tinha um apartamento, um carro e um telefone. Foi quando eu descobri que este era meu caminho. Talvez um dia eu faça algo para museu, mas naquele momento meu trabalho era diretamente com as pessoas que consomem, mais do que com o universo intelectual”.

 

 

Pádua disse que não há separação clara entre artista, casa, oficina, memória e projeto futuro. Tudo, segundo ele, pertence ao agora e se mistura no mesmo espaço onde trabalha diariamente e onde pretende permanecer até o fim.

 

Eu quero morrer aqui dentro. Venho todos os dias. Eu amo isso aqui. Vou deixar para a cidade

“Eu quero morrer aqui dentro. Venho todos os dias. Eu amo isso aqui. Vou deixar para a cidade. Daqui para frente, se meus filhos não quiserem, vão colocar uma pessoa para administrar esse espaço, e ela continuará fazendo o trabalho que me propus a fazer". 

 

A frase surge sem solenidade, quase como continuação natural de uma reflexão sobre envelhecimento e herança. Em um período não tão distante, um problema de saúde o obrigou a encarar pela primeira vez a hipótese concreta de limitação física, quando sentiu dores nas mãos associadas a um quadro inflamatório. O caso despertou medo imediato em quem sempre dependeu do gesto manual para existir artisticamente.

 

Durante esse período, começou a reorganizar objetos da galeria, separar materiais e até descartar algumas coisas, como se preparasse silenciosamente um encerramento. Depois veio a reação dos médicos, o tratamento e o entendimento de que a crise poderia ser controlada. O susto, no entanto, permaneceu como marca.

 

Mesmo assim, a rotina não mudou. Ele continua chegando todos os dias, circulando entre esculturas, acompanhando pequenas obras e pensando em novas ocupações para o espaço. O desgaste acumulado pelo tempo fez com que ele iniciasse uma nova etapa de manutenção, enquanto tenta manter a circulação de visitantes.

 

“A galeria agora está sendo reformada, porque está tudo muito já desgastado. Nós estamos aqui com as portas e os corações abertos para receber os convidados e os que não são convidados também”, disse.

 

 

 

Sonhos de décadas

Nós tivemos noites fantásticas, um povo extremamente alegre. Nunca tivemos uma confusão aqui dentro, nunca tivemos briga

 

No piso superior, o teatro inaugurado há um ano representa talvez a materialização mais longa de sua obstinação. Foram 35 anos de construção gradual, feita por etapas, sempre conforme o dinheiro permitia. Sem patrocínio contínuo, o projeto avançou entre vendas de obras, negociações e períodos de espera.

 

No dia da inauguração, em março do ano passado, cerca de 300 pessoas ocuparam pela primeira vez a estrutura sonhada por décadas. Desde então, o local já recebeu cerca de 30 a 35 atividades, entre peças, dança, música, palestras, eventos privados e encontros de formatos variados. Pádua fala disso sem hierarquizar: para ele, o importante é que o espaço esteja ocupado.

 

Casamentos, apresentações de dança, teatro de pequeno elenco e até eventos improváveis passaram pelo palco recém-concluído. Ele se diverte ao lembrar que uma noiva transformou o teatro em cenário de despedida de solteira com direito a apresentação exclusiva.

 

Essa abertura ampla não é casual. Desde os tempos em que a galeria se tornou um dos pontos mais movimentados da cena cultural cuiabana, Pádua sempre recusou restringir o espaço a uma única linguagem. Nos anos 2000, a casa reuniu artistas plásticos, músicos, arquitetos, imprensa e diferentes públicos urbanos.

 

“Nós tivemos noites fantásticas, um povo extremamente alegre. Nunca tivemos uma confusão aqui dentro, nunca tivemos briga. Tivemos sim amor, beijos, dança e muita alegria”.

 

 

 

Ao falar daquela fase, ele evita a ideia de nostalgia pura. Não trata o passado como algo superior ao presente, apenas como outra etapa da mesma vocação: manter a casa viva. Nos últimos meses, oficinas e visitas passaram a atrair públicos que nem sempre têm ligação profissional com arte, mas querem experimentar o ambiente.

 

Eu quero que seja uma casa com pessoas dentro. Quando não é teatro, é música. Quando não é artes plásticas, é pintura, desenho... é só olhar, é ver, participar

“Eu quero que seja uma casa com pessoas dentro. Quando não é teatro, é música. Quando não é artes plásticas, é pintura, desenho... é só olhar, é ver, participar. É uma turma superinteressante, que não é artista nem nada, mas quer ver tudo”.

 

Ao ser questionado sobre qual artista gostaria de trazer para se apresentar no teatro, Pádua mencionou Tetê Espíndola, nome que acompanha sua memória desde a juventude.

 

“Na minha adolescência eu era apaixonado pela Tetê Espíndola. Para mim foi um sonho aquela música dela, 'Na Chapada'. Eu sou apaixonado por ela. Então, eu vou trazer. Já fiquei vendo os valores, como fazer. Tenho que entrar em concordância com ela e viabilizar uma semana de espetáculo. Quero trazer meu povo, meus amigos, até meus parentes lá do Ceará, porque são apaixonados por essa mulher”.

 

Extensão de si

 

Se hoje o teatro existe, isso também passa por detalhes absolutamente pessoais, como as cadeiras que foram desenhadas por ele e testadas em pessoas de diferentes tamanhos antes de serem reproduzidas, além dos mosaicos das janelas que foram feitos com sobras de materiais reaproveitados.

 

A lógica é a mesma que sempre orientou sua produção artística: construir devagar, experimentar, observar e refazer. Quando tenta definir qual parte mais carrega sua assinatura, ele não escolhe o palco nem a arquitetura monumental, mas elementos que normalmente passariam despercebidos.

 

“A cadeira, o teto e as janelas. As pessoas chegam aqui e dizem: ‘gente, mas isso aqui é Gaudí’. Na verdade, eu pego restos de pastilhas e vou transformando em desenho”.

 

Hoje, ao pensar na permanência da galeria, ele cita exemplos como o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e o espaço de Francisco Brennand em Recife. Não fala disso com pretensão monumental, mas como quem acredita que a obra pode sobreviver ao autor. Entre filhos, netos e possíveis administradores futuros, imagina que alguém assumirá a função de manter a casa aberta.

 

“Eu quero ver essa casa cheia de gente. Aí você olha e diz para si próprio: eu atingi meu objetivo”.

 

 

 

A circulação da arte em Mato Grosso

 

 E vem muita gente mesmo, da França, da Espanha, da Alemanha, gente do mundo inteiro

Embora veja produção artística em circulação, Pádua avalia que boa parte dela permanece invisível ao olhar público, porque não passa necessariamente pelos espaços de exposição mais tradicionais. Para ele, existe hoje uma produção espalhada, mas pouco concentrada em locais de visitação coletiva.

 

“Tem umas partes que ficaram concentradas e tem essa outra parte que se expandiu. Só que essa parte que se expandiu não está muito apresentada para a gente. Você tem uma determinada pessoa que vendeu 20 trabalhos para 20 casas diferentes, mas ela não botou esses 20 trabalhos para ninguém ver”.

 

Ele observa também que muitos espaços culturais antes ativos hoje funcionam de forma irregular ou permanecem fechados em determinados períodos, o que acaba deslocando parte do público para a própria galeria.

 

“Às vezes você vai na Casa da Cultura, não tem. Vai em outros espaços e não vê nada acontecendo. Aí as pessoas vêm para cá. E vem muita gente mesmo, da França, da Espanha, da Alemanha, gente do mundo inteiro”.

 

Ao falar sobre a cidade, ele diz que Cuiabá tem limitações estruturais próprias de uma Capital menor, marcada por outras prioridades econômicas. “Como é um estado por excelência agropecuário, as atividades culturais ficam mais restritas, porque muita gente está voltada para outras atividades. Mas tem sempre aqueles que brigam para fazer acontecer”.

 

 

 

Novos planos para a galeria

 

Além de ampliar a agenda do teatro, Pádua diz que pretende intensificar ações voltadas à formação artística de crianças e adolescentes ainda este ano.

 

A proposta envolve atividades em diferentes linguagens e deve ocupar parte da estrutura da galeria. A intenção, segundo ele, é aproximar novos públicos da arte e transformar o espaço em ambiente de convivência permanente.

 

“Esse ano agora tem um grande projeto para as crianças. Vai ter parte de música, vai ter parte de escultura e de pintura. A gente vai fazer esses três segmentos", finalizou. 

 

 

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Yasmin Silva/MidiaNews

Galeria do Pádua

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Teatro localizado na Galeria do Pádua

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Teatro localizado na Galeria do Pádua

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Teatro localizado na Galeria do Pádua

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Teatro localizado na Galeria do Pádua




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