Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
MORTE DE TRAFICANTE
07.08.2018 | 09h45 Tamanho do texto A- A+

"Revolta de moradores é reflexo da falência do poder público"

Morto pela PM, "Sapinho" era considerado o “protetor” do Bairro Novo Colorado

Marcus Mesquita/MidiaNews

Sociológo Naldson Ramos avalia relação entre moradores e traficante morto por PMs

Sociológo Naldson Ramos avalia relação entre moradores e traficante morto por PMs

DA REDAÇÃO

As manifestações de revolta por parte dos moradores do Bairro Jardim Colorado após a morte do traficante Flávio Castro de Lima, conhecido como "Sapinho", podem ser analisadas como reflexo da falência do poder público em todas as esferas, segundo o sociólogo Naldson Ramos, integrante do Núcleo de Pesquisa de Violência e Cidadania da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

 

Chefe do tráfico no bairro Novo Colorado, em Cuiabá, Sapinho era considerado uma espécie de “protetor” da região e foi morto por policiais militares na quarta-feira (1).

 

Avaliando o cenário em que foi estabelecido esse tipo de vínculo entre criminoso e comunidade, o sociólogo classifica como lamentável que a população considere criminosos como heróis, mas destaca que o problema não está nos moradores, mas na falência do poder público em esferas municipal, estadual e federal.

 

Segundo ele, em muitos casos, nomes como o do traficante acabam virando sinônimo de segurança e bem estar social nessas localidades. Como tais deficiências inviabilizam acessos a serviços básicos como saúde e educação, cria-se um ambiente propício ao surgimento de lideranças que fazem da violência e da justiça pelas próprias mãos sua principal moeda de troca com a comunidade.

 

Sem uma mudança profunda nas políticas públicas, é claro que surgirá um novo líder, com as mesmas características, que sucederá o antigo. E as pessoas irão aceitar

“São alternativas para preencher a ausência do Estado. De certa forma são eles que provêm segurança, mediando conflitos e prestando serviços sociais”, explica o professor.

 

A arte imita a vida

 

Essa não foi a primeira vez que moradores do Novo Colorado saíram em defesa de Flávio Castro de Lima. Em 2007, parte deles chegou a organizar um abaixo-assinado e um bingo para pagar por um advogado que o tirasse da cadeia.

 

A história inspirou o curta-metragem nacional "Três Tipos de Medo", do cineasta Bruno Bini, e mostra o impacto da prisão do traficante na rotina de moradores. O protagonista foi interpretado pelo ator Jonathan Haagensen, conhecido por ter participado de novelas da TV Globo.

 

Nesta semana, quando foi morto, a reação dos populares precisou ser contida com granadas de efeito moral e disparos de bala de borracha. Policiais foram agredidos e viaturas, além de uma ambulância, foram danificadas.

 

Na ocasião, o secretário estadual de Segurança Pública, Gustavo Garcia, classificou o confronto como uma “revolta pontual.”

 

Ele afirmou que o envolvimento dos moradores com o criminoso deve ser investigada, mas que, por enquanto, não se pode dizer que o bairro todo revoltou-se com a situação.

 

“Precisamos saber primeiro qual a relação com essas pessoas, se era de parentesco ou de participação em outras condutas. Se eram familiares, é óbvio que haverá certa revolta”, afirmou.

 

Ao MidiaNews, o titular da pasta disse que, em um primeiro momento, a situação aparenta ser de inversão de valores.

 

“É impensável que esse tipo de criminoso seja visto como herói. É uma pessoa com histórico de homicídios, que tirou vidas”, avaliou.

 

Novas lideranças

Reprodução

Sapinho - Filme

A história inspirou o curta-metragem "Três Tipos de Medo", do cineasta Bruno Bini

 

Ramos explica que a repressão policial só surte efeitos em questões pontuais.

 

“Vemos muito isso em cidades como o Rio de Janeiro. A polícia chega, prende alguém e depois desaparece, então aquela região continua desassistida”, avalia.

 

Assim, mesmo com a morte de Flávio, ele acredita que a tendência é de que outro criminoso assuma o papel dele no bairro Novo Colorado.

 

“Sem uma mudança profunda nas políticas públicas, é claro que surgirá um novo líder, com as mesmas características, que sucederá o antigo. E as pessoas irão aceitar”, diz o sociólogo.

 

A solução, na avaliação do professor, passa por políticas sociais que deem voz ativa voz ativa à comunidade. 

 

Por sua vez, a Segurança Pública destaca iniciativas como a Polícia Comunitária e o programa Bairro Integrado, no qual moradores são informados sobre as atividades e o dia-a-dia dos policiais. A pasta alega que as forças de segurança atuam por uma cultura de paz, mas que o trabalho depende da confiança e contribuição da população, para que haja legitimidade.

 

Tendência à condenação

 

De acordo com Naldson, o país vive uma onda conservadora iniciada há cerca de dois anos, o que estimula que a sociedade julgue pela questão moral, com tendência a condenar a reação de classes desfavorecidas.

 

“É muito fácil fazer isso de barriga cheia, com estudos pagos, cinema garantido. Quando se conhece e se entende o abandono no qual essas pessoas vivem, fica fácil entender que o problema é o contexto, não os envolvidos em si”, afirma.

 

O caso

 

O traficante Sapinho, de 31 anos, foi morto por policiais militares na quarta-feira (1), em uma residência do bairro Novo Colorado, em Cuiabá - leia mais AQUI.

 

Ele possuía várias passagens pela polícia e era apontado como responsável por comandar o tráfico de drogas na região. 

 

Seu assassinato motivou a ira de populares, que romperam o isolamento e atacaram viaturas com pedras e fogos de artifício. Para contê-los, os militares usaram granadas de efeito moral e lacrimogênias, além de efetuares disparos com balas de borracha.

 

Durante a ocorrência, um homem foi preso após apontar um laser contra as equipes policiais e lançar um rojão que atingiu os pés dos PMs.

 

“Sapinho” era procurado desde terça-feira (31), quando teria participado de um roubo a residência no Jardim Mariana, na capital. Na ocasião, ele e os comparsas dispararam contra viaturas da Polícia Militar (PM) e fugiram logo em seguida. 

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3 Comentário(s).

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ANA  08.08.18 07h48
CUIABÁ, ESTÁ ABANDONADA....
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marcelo  07.08.18 16h01
O Sr. Naldson Ramos disse:"“Vemos muito isso em cidades como o Rio de Janeiro. A polícia chega, prende alguém e depois desaparece, então aquela região continua desassistida”,dai pergunto? é papel da policia fazer o todo? a policia aqui no Mato grosso não desaparece,pois praticamente em toda região aqui na baixada existem as policias comunitárias que em virtude de falta de efetivo e falta de de estrutura, pois previa atuação de outros órgãos nesse mesmo espaço ainda tenta fazer a sua parte, o que não pode é vc colocar dessa forma atribuindo a ela todas as mazelas provenientes da falta de compromisso e responsabilidade dos governos seja federal, estadual ou municipal!!
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Paulo  07.08.18 15h44
ESSA HISTÓRIA QUE TRAFICANTE É PROTETOR DA COMUNIDADE É UMA CONVERSA FIADA DO TAMANHO DO MUNDO.... MUITO MENOS CONSIDERAR A FALÊNCIA DO ESTADO POR CAUSA DA REVOLTA DE UM GRUPO DE MORADORES... A CONVERSA É SIMPLES E DIRETA, QUEM APOIA CRIMINOSO É CONIVENTE COM AS ATITUDES DELITUOSAS DELE, DEVENDO SER REPRIMIDO IGUALMENTE PELOS POLICIAIS E PELA JUSTIÇA....
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