Scott Blais, 53, começou a trabalhar em um safári no Canadá aos 13 anos e diz ter encontrado uma realidade sombria de maus-tratos aos animais logo no início da carreira. Desde 2016, o americano é a mente por trás do SEB (Santuário de Elefantes Brasil), em Mato Grosso, que movimenta a discussão sobre cativeiros.
"Precisamos reanalisar o modelo dos zoológicos que tem sido apoiado por centenas de anos. Sim, há um fator de educação e conservação, mas a que custo?", afirma o fundador do SEB, na Chapada dos Guimarães. "Não estamos aqui para tentar destruir qualquer coisa, e sim para dar uma alternativa."
Primeiro estabelecimento do tipo na América do Sul, o santuário enfrentou o escrutínio das autoridades em 2025, com as mortes das elefantas-africanas Kenya e Pupy. A Folha esteve na instituição no fim de fevereiro.
Bambi, Guillermina, Mara, Maia e Rana, as cinco fêmeas da espécie asiática que moram no lugar, tiveram passagem por circos ou zoológicos. Segundo Blais, o passado em confinamento causou problemas nas patas e outras condições de saúde que permanecem até hoje.
O fundador diz que a instituição não é capaz de resolver os danos causados por anos de negligência, mas que promove um aumento significativo no bem-estar. "Temos que dar a elas a melhor vida que pudermos pelo maior tempo que pudermos. A sociedade comprometeu tremendamente a vida delas."
Marina Schweizer, 34, coordenadora do setor de pesquisas do SEB, afirma que muitos zoológicos no Brasil têm receio da categoria e não entendem como o santuário funciona.
"Os elefantes evoluíram para forragear [procurar alimento], cooperar, ter relações com outras espécies, receber chuva. Quando um zoo ou em outra instituição busca proteger o animal de todas as adversidades, acaba gerando uma vida sem estímulo." diz a bióloga. "Aqui, a percepção é diferente: existe uma filosofia de respeito aos animais, seguindo a biologia deles."
No SEB, as cinco fêmeas têm 279,7 mil metros quadrados à disposição, cerca de 55,9 mil m2 por indivíduo. Uma norma de 2015 do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) determina área mínima de 1.500 m2 para dois animais, e os estados podem estabelecer regras diferentes.
Blais diz que a maioria dos cativeiros de elefantes oferece uma área equivalente, em termos humanos, ao tamanho de um quarto e um banheiro. "Isso não é diferente de colocar uma pessoa em confinamento", compara.
O Ibama afirma que "a exigência de 1.500 m2 é o mínimo legal, mas instalações maiores são recomendadas e frequentemente exigidas em projetos mais recentes ou licenciamentos estaduais".
A Azab (Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil) diz que grande parte das instituições brasileiras segue o padrão exigido pelo órgão federal e argumenta que o bem-estar dos animais vai além da área disponível.
"Não conseguimos avaliar que todos os elefantes que vivem em zoológicos estariam melhor no santuário ou que todos estariam bem nos zoológicos. Isso tem que ser analisado com calma, conforme a história e a condição de vida de cada um", afirma Claudia Igayara, membro da diretoria da associação.
Na visão da Azab, a exposição dos animais ajuda a educar a população. "Quando uma pessoa vai ao zoológico e vê o elefante, muda alguma coisa, e ela passa a olhar a fauna, o ambiente e o planeta de uma forma diferente", opina Igayara.
O fundador do SEB se opõe à ideia de que a sociedade se beneficia com a exibição pública dos elefantes. "Será que temos a justificativa de comprometer a vida de um indivíduo em nome da educação de uma criança? O que estamos aprendendo com esses indivíduos em cativeiro?", questiona.
"Eu quase posso garantir que uma criança sabe mais sobre dinossauros do que sobre elefantes. E quando foi a última vez que você viu um dinossauro em um zoológico?"
Blais diz que a valorização dos instintos naturais é a principal característica que define um santuário. "Supostamente, vamos ao zoológico para aprender o que é um elefante, mas aquele não é um elefante", afirma. "Nada do que se vê em cativeiro corresponde à natureza dos elefantes."
De acordo com a Azab, nove paquidermes vivem em oito zoos no país, localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minas Gerais e Distrito Federal. Apenas quatro dessas entidades receberam uma certificação de bem-estar animal da associação, e as demais estão em processo de avaliação e melhorias.
Mara Marques, presidente da Azab, diz que a entidade prepara um novo protocolo de manejo para elefantes, que inclui nutrição, saúde e ambiente. "Temos instituições com bons padrões e instituições que estão revendo e aprimorando todos os seus padrões."
Uma delas é o Zoológico de São Paulo, que planeja expandir o habitat da elefanta asiática Hangun, de 54 anos, resgatada de um circo. Desde 2012, o animal vive em um recinto de 1.500 m2 com chão de terra batida e um tanque pequeno.
A previsão é de que o novo lar de Hangun tenha 8.628 m2, terreno com camadas profundas de areia, hidroterapia, lago e espaço sombreado com ar-condicionado. O projeto foi desenhado após mudanças no comando do zoológico, que está sob concessão à iniciativa privada. A entidade contratou o consultor de cuidados de elefantes Gerry Creighton para liderar a reforma, que deve ser concluída em 2027.
"Não há absolutamente nenhuma dúvida de que, de modo geral, os zoológicos erraram no passado. Erraram com espécies como os elefantes, porque os habitats foram projetados para o confinamento", diz Creighton. "O habitat antigo da Hangun é de uma era diferente, e queremos deixar essa era no passado."
O consultor afirma a nova área terá o objetivo de oferecer o máximo de bem-estar. "É isso que vai guiar cada decisão que tomarmos, nada mais vai determinar. Não será pelo que os visitantes querem ver, nosso foco será a Hangun."
Para Blais, não é responsável terminar de uma vez todos os cativeiros de elefantes. "Podemos chegar lá progressivamente, parando os programas de reprodução de animais cativos para evitar que futuras gerações sejam comprometidas."
Com o envelhecimento dos elefantes na América do Sul, o fundador do SEB não vê um futuro longo para a espécie no continente. Ele descarta a possibilidade de reprodução no santuário mesmo com a eventual chegada do macho Sandro, que vive no zoológico de Sorocaba (SP).
"Se queremos proteger espécies de elefantes, teríamos que proteger populações selvagens. Não é um programa de nascimentos em cativeiro que vai salvar a espécie da extinção", diz. "E se for isso que é necessário, então deixe-os serem extintos, porque o cativeiro não é um lugar para se passar o resto da vida", opina.
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