“Tem gente que só aprende com dor; é importante ter uma pena grave”
Delegada falou sobre avanços e desafios para reduzir os casos de violência de gênero no Estado
Yasmin Silva/MidiaNews
A delegada Mariell Antonini, que irá chefiar o Gabinete de Enfrentamento à Violência contra a Mulher
ANGÉLICA CALLEJAS
DA REDAÇÃO
O reconhecimento do feminicídio como crime autônomo no Brasil representou um marco no enfrentamento à violência contra as mulheres, segundo a delegada e secretária-chefe do Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra Mulher, Mariell Antonini.
Nós partimos de um crime que era uma qualificadora do homicídio, e hoje temos um crime autônomo de feminicídio, que tem a maior pena do Código Penal
Conforme ela, a legislação, que prevê uma das penas mais severas do Código Penal, não apenas ampliou a punição aos agressores, como também mudou a forma como esses crimes são investigados e julgados. Para Mariell, o rigor da lei tem papel fundamental no enfrentamento à violência. “Tem gente que só aprende pela dor, então é importante que exista uma pena grave”, afirmou.
Neste 8 de março, quando se celebra o Dia Internacional da Mulher, o MidiaNews conversou com a delegada sobre os avanços legais no combate ao feminicídio, os dados das investigações e os desafios para reduzir os casos de violência de gênero no Estado.
“Nós partimos de um crime que era uma qualificadora do homicídio, e hoje temos um crime autônomo de feminicídio, que tem a maior pena do Código Penal. É um avanço muito grande. Olha só porque eu falo que é importante mulheres ocuparem espaços de poder: foi uma lei que teve iniciativa de uma senadora de Mato Grosso, Margareth Buzetti. Tem uma importância repressiva, de intimidação, que é muito importante. Tem também um efeito simbólico muito forte”, disse Mariell.
Em Mato Grosso, segundo a delegada, os efeitos das mudanças também podem ser percebidos nos números. O tempo médio para julgamento de casos de feminicídio caiu nos últimos anos, enquanto a pena média aplicada aos condenados aumentou — reflexo, segundo ela, de avanços institucionais e da maior prioridade dada ao tema pelas autoridades.
Leia os principais trechos da entrevista:
MidiaNews - Hoje é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Como que a data pode contribuir para ampliar o debate e fortalecer ações concretas de combate à violência contra a mulher?
Se a gente não busca igualdade material entre homens e mulheres, isso gera um efeito cascata em tudo
Mariell Antonini - Muitas pessoas não entendem porquê um dia para a mulher. Isso ainda é muito questionado: 'nós queremos um dia para os homens'. Mas temos que entender que no processo de evolução histórica dos direitos civis e políticos, a mulher nem sempre teve direitos reconhecidos. A mulher pôde acessar o ensino formal a partir de 1800, é muito recente. Nós iniciamos nesse processo político a partir de 1932, que foi quando nós obtivemos o direito ao voto. Ainda assim esse voto não era universal, era só para mulheres alfabetizadas.
Nessa primeira onda de conquista, também buscamos o direito de casar sem a indicação dos pais. Foi uma luta pelo alcance dos direitos individuais. E quem foram essas mulheres que buscaram esses direitos? Inicialmente eram mulheres brancas, ricas e casadas. Num segundo momento, a sociedade buscou direitos coletivos. A gente vivia no período de revolução industrial e as mulheres queriam entrar ao mercado de trabalho e muitas não podiam. Antigamente, para uma mulher trabalhar fora, ela precisava de autorização do marido, isso na década de 60. Outro problema era: com quem deixar os filhos para trabalhar? Então, lutou-se também por direitos contraceptivos. Podermos usar anticoncepcional para prevenir uma gravidez, direito a creche. Foi uma efervescência de discussão sobre direitos coletivos.
Tivemos a terceira onda, que é a do século 21, quando começamos a falar sobre a autonomia da mulher, empoderamento feminino, inserção política, ocupação de espaços de poder. Tudo isso é muito importante, porque apesar de todo esse avanço, nós ainda verificamos que a mulher ainda não ocupa todos os espaços que atualmente os homens já estão consolidados. Basta ver que nós só tivemos uma presidente do Brasil, não tivemos nenhuma governadora mulher no Estado. Como que é a integração da mulher nas carreiras policiais e nos espaços de poder mais elevados? Nós precisamos fazer essa discussão.
Temos que parar com esse preconceito de achar que a mulher deve ocupar sempre funções de menor remuneração, de menor status, de menor importância.
Já existem afirmadores dizendo que estamos na quarta onda, que é a influência que a mídia tem feito sobre essa evolução dos direitos da mulher. Qual é realmente o papel da mulher? Onde nós queremos chegar e o que nós estamos buscando com essa evolução dos nossos direitos? Então, 8 de março é essa data emblemática, que nos faz refletir sobre a evolução histórica, porque ela é muito importante.
A nossa história está mudando, e temos que ter clareza sobre onde nós queremos chegar. Temos realmente que pensar, todos nós, homens e mulheres, que podemos fazer a diferença. Nós precisamos realmente alcançar essa igualdade material que tanto buscamos, e que está prevista na Constituição Federal. Essa mudança tem que partir de todos. Muitas vezes eu escuto discursos de que: 'Ah não, já vem esse papo feminista de novo. Já vem esse mimimi de mulher de novo'. E não é. Se a gente não busca igualdade material entre homens e mulheres, isso gera um efeito cascata em tudo. Se a mulher não ocupa espaço de poder, as políticas públicas são desenvolvidas sem observar as necessidades do quadro feminino.
Temos que parar com esse preconceito de achar que a mulher deve ocupar sempre funções de menor remuneração, de menor status, de menor importância. Infelizmente, por isso, hoje ainda precisamos de cotas. Precisamos lidar com a mudança de cultura, inclusive para nós mulheres, que precisamos nos enxergar como pessoas que têm capacidade e, acima de tudo, como pessoas que merecem também estar no mercado de trabalho.
Precisamos lidar com a mudança de cultura, inclusive para nós mulheres, que precisamos nos enxergar como pessoas que têm capacidade
Devido a nossa criação, ainda lidamos com muita culpa nesse processo. A educação faz toda a diferença. Essa turma nossa dos 40 para cima foi educada com a visão de que a mulher tem o papel importante de cuidar da casa, dos filhos, e exercer o trabalho geral de cuidado não remunerado. Enquanto o homem já foi educado para ocupar espaços de poder. Isso é muito naturalizado para a nossa geração. Quando entramos para o mercado de trabalho, temos a tendência de nos culpabilizar por ocupar função relevante, que exige dedicação a mais. Circunstância que não é verificada para os homens. Nós temos esse julgamento, e os homens também têm essa visão. O mês de março é emblemático para nós chamarmos a atenção, de uma forma firme, sobre isso e levar essa discussão para a sociedade.
MidiaNews - Coincidentemente, nesta segunda-feira, dia 9 de março, a Lei do Feminicídio completa 11 anos. Quais avanços efetivos o país conseguiu no enfrentamento à violência de gênero e quais são os principais desafios?
Mariell Antonini - Nós partimos de um crime que era uma qualificadora do homicídio, e hoje nós temos um crime autônomo do feminicídio, que tem a maior pena do Código Penal. É um avanço muito grande. Olha só porque eu falo que é importante mulheres estarem ocupando espaços de poder: foi uma lei que teve iniciativa de uma senadora de Mato Grosso, Margareth Buzetti. Tem uma importância repressiva, de intimidação, que é muito importante. Tem um efeito simbólico também muito importante. Tem gente que só aprende pela dor, então é importante ter uma pena grave.
Também tivemos com essas alterações legislativas um resultado muito positivo de conclusão mais célere das investigações policiais, e também dos julgamentos promovidos pelo Poder Judiciário. Em Mato Grosso, existem dois observatórios que acompanham as situações de feminicídios, que é o Observatório da Secretaria de Segurança Pública e o Observatório Caliandra, do Ministério Público. Esse Observatório do Ministério Público fez um levantamento sobre o tempo de julgamento dos casos de feminicídio aqui no Estado de Mato Grosso, e foi constatado que, após a edição da Lei do Feminicídio, houve uma redução drástica do tempo de julgamento.
Um crime de feminicídio que antes demorava em torno de dois anos e meio para ser julgado, hoje já está tendo conclusão em menos de um ano. O resultado da pena aplicada, que antes era uma pena média de 19 anos, hoje já está em 30 anos. São consequências boas. Na Polícia Civil também tivemos, a partir de 2020, o monitoramento dos casos de feminicídio. Se faz estudo de caso em cada situação. O que aconteceu, se tinha ou não medida protetiva, se a vítima estava com monitoramento. Isso para monitorar, trazer dados e desenvolver políticas públicas. O índice de resolutividade dos casos de feminicídio pela Polícia Civil é de 100%.
Às vezes eu escuto um discurso de que é muito fácil, porque o autor é identificado, mas não são todos os casos que os autores são identificados. Nós temos duas situações que configuram feminicídio: o feminicídio praticado em situação de violência doméstica familiar e o feminicídio praticado quando o homicídio é cometido por menosprezo à situação da mulher. Por exemplo, quando o autor estupra essa mulher e em seguida a mata. São casos em que a autoria não é identificada, demanda uma investigação. Mesmo nos casos em que decorre uma violência doméstica e familiar, há toda uma investigação técnica que demanda coleta de vestígios de crime, demanda toda uma fase de investigação, que é complexa.
Quando falamos ainda de enfrentamento à violência contra a mulher, é nítida a observação de que, em 20 anos, as estruturas do Estado como um todo se aprimoraram. Na Sesp teve a criação de uma Câmara Temática de Defesa da Mulher. Na Polícia Civil, uma coordenadoria de enfrentamento à violência contra a mulher, sempre chefiada por uma delegada mulher. Na Polícia Militar, a coordenadoria de Polícia Comunitária e Patrulha Maria da Penha. A gente vê muita evolução. No Poder Judiciário, existe a coordenadoria Ser Mulher, chefiada pela desembargadora Maria Erotides Kneip, que também desenvolve políticas públicas no Poder Judiciário. Na Defensoria Pública, o Nudem, no Ministério Público, o Cal, que é um centro de estudos sobre violência doméstica, também liderada pela procuradora Elisamara, e temos o Observatório Caliandra.
O Estado como um todo está debatendo esse assunto, está se aprimorando. O Tribunal de Contas fez uma auditoria externa sobre essa pauta, trazendo levantamentos sobre onde o Estado precisa melhorar. A Assembleia Legislativa tem a Procuradoria da Mulher e fomentou a criação de procuradorias da mulher nos Municípios, nas Câmaras Municipais. A Cestasc, que é a Secretaria de Assistência Social, também tem feito um trabalho hercúleo, solicitando aos municípios a criação de organismos de políticas públicas para as mulheres, que são coordenadorias ou secretarias, ou superintendências nos municípios, para trabalhar o desenvolvimento de políticas públicas municipais. A Secretaria de Educação do Estado inseriu na grade curricular o tema da violência contra a mulher, trazendo esse tema de uma forma transversal em todas as disciplinas.
É um problema que ele é complexo e que não adianta nós exigirmos a atuação de um único setor para resolvê-lo. É um problema que ultrapassa várias instituições e realmente trabalhar de uma forma interconectada. É importante citar também o trabalho que a Sefaz realiza sobre o orçamento mulher. Olha quantas instituições eu já citei. Esse trabalho começou por uma demanda da Assembleia Legislativa e hoje a Sefaz tem este relatório Orçamento Mulher, pelo qual dentro dele, se faz uma análise e identifica dentro do orçamento o que está previsto de ação de política pública para ser desenvolvido pelo Estado no enfrentamento à violência contra a mulher.
MidiaNews - Dados recentes indicam um aumento nos casos de feminicídio. No Observatório Caliandra, do MPE, consta que, no ano passado, houve 54 feminicídios. Nesse começo de ano já foram quatro. Na sua avaliação, o que explica esse crescimento e onde estão as principais falhas no combate ao feminicídio?
Hoje Mato Grosso não está mais em primeiro lugar no ranking de feminicídios, mas nós ainda temos um índice muito alto. Esse é um dado que nós precisamos trabalhar.
Mariell Antonini - Hoje Mato Grosso não está mais em primeiro lugar no ranking de feminicídios, mas nós ainda temos um índice muito alto. Esse é um dado que nós precisamos trabalhar. E nós estamos trabalhando, o Estado tem trabalhado.
Hoje criou mais uma estrutura para desenvolver a governança, para aplicar esse plano de metas, para monitorar. Justamente é esse esforço de trabalhar a pauta, desenvolver políticas públicas e identificar onde precisa avançar, para que em alguns anos nós estejamos num cenário diferente.
MidiaNews - Uma dessas vítimas de feminicídio, em 2026, foi a professora Luciene, daqui de Cuiabá. Ela já tinha medidas protetivas contra o ex-marido e acionou o botão do pânico duas vezes quando ela se sentiu ameaçada por ele. Por que as medidas protetivas parecem não ser eficazes, doutora? E o que fazer para que elas se tornem mais eficazes?
Mariell Antonini - Esse é um discurso que nós temos que ter muito cuidado em relação a todos nós, em relação à mídia. A medida protetiva é o principal instrumento de proteção às mulheres. Quando nós analisamos a estatística, e isso é um monitoramento muito sério que se faz, em geral, a medida protetiva tem mais de 80% de efetividade. Acredito que, em 2024, nós tivemos um índice de efetividade da medida protetiva de mais de 97%. É um índice muito alto, nós precisamos compreender que a medida protetiva salva a vida, sim. Não podemos tirar a credibilidade desse instrumento.
Jamais é culpa da vítima. Uma vez que ela está sofrendo violência, está sofrendo dentro de casa, é importante que busque, acredite. A justiça funciona
Nós temos alguns casos em que houve vítima que sofreu feminicídio mesmo com a medida protetiva em vigor. Em 2025, sete vítimas que morreram, sofreram feminicídio, mesmo tendo medida protetiva. Dessas sete, três reataram com o autor. É uma situação complicada. Nós precisamos realmente que, uma vez pedida a medida protetiva, haja o posicionamento da vítima de não permitir o contato com o autor. Uma vez transgredida essa medida protetiva, deve-se comunicar à autoridade policial para que a gente possa tomar providências, representar por uma [prisão] preventiva, lavrar a prisão em flagrante.
Acontece que, algumas vezes, a vítima tem a medida protetiva e não comunica o descumprimento. Algumas vezes isso acontece, e é preciso que haja esse descumprimento para que o Estado possa agir. Nesse caso da professora, foi muito veiculado que a vítima acionou o botão do pânico e, mesmo assim, o Estado não conseguiu atender. Essa vítima ela tinha o aplicativo SOS Mulher, e já tinha acionado em uma data anterior aos fatos, em outubro. Ela teve o atendimento e, naquele momento, não foi feita a lavratura de prisão. No dia dos fatos não houve tempo hábil para o acionamento. Infelizmente, ela foi pega de surpresa.
Jamais é culpa da vítima. Uma vez que ela está sofrendo violência, está sofrendo dentro de casa, é importante que busque, acredite. A justiça funciona. Nós temos que sempre ser comunicados. Pedir uma medida protetiva. Não pode ter aquela sensação de que a medida protetiva é uma folha de papel que não serve para nada. Não é assim. A medida protetiva é efetiva em mais de 80% dos casos. É um número muito alto. Agora, tem 20% que não respeita, porque é doente mental, usa droga, porque realmente não acredita na justiça e volta a descumprir a medida.
É importante que, desses 20%, a vítima volte na delegacia, comunique o descumprimento e exija uma atuação para que o delegado tome uma providência, entre com uma medida cautelar, prenda em flagrante, coloque uma tornozeleira, dê um botão do pânico para a vítima. A mesma postura pode ser exigida do Ministério Público, da Defesoria Pública. Todas são instituições porta aberta para atender a vítima.
Esse caso repercutiu muito e se tornou muito emblemático, porque culpabilizaram a mulher por um comportamento privado. Julgamentos que a gente não verifica em relação ao público masculino
MidiaNews - Um outro caso que foi muito noticiado é do secretário de governo de Itumbiara, em Goiás, que matou os dois filhos e tirou a própria vida. É a chamada violência vicária. Como esse tipo de violência se manifesta e por que é considerada uma das formas mais extremas de agressão contra a mulher?
Mariell Antonini - Ela atinge justamente onde mais dói, que são os filhos. Realmente é uma forma muito cruel de cometer violência contra a mulher. Esse caso repercutiu muito e se tornou muito emblemático, porque culpabilizaram a mulher por um comportamento privado. Julgamentos que a gente não verifica em relação ao público masculino. Não estou aqui defendendo ninguém, mas a gente não pode achar certo, tentar compreender e justificar um comportamento tão cruel como esse de matar os filhos, e culpabilizar a mulher, que foi a maior atingida pela perda dos seus filhos. A violência vicária é terrível. Cada vez mais a gente vê isso acontecendo, e nós precisamos nos atentar quanto a esse fenômeno.
Existem pessoas doentes, que estão com problemas de saúde mental, e o levantamento que a diretoria de inteligência tem realizado demonstra que alguns autores cometeram feminicídio e logo em seguida suicídio. Você vê o tamanho do problema de saúde mental dessa pessoa. Matou a mulher e se matou logo em seguida. O tamanho do sentimento de posse, de dominação, de controle excessivo sobre a mulher. Nós também temos que refletir sobre o papel da mídia nesse cenário de discussão sobre esse problema. A gente vê que, em relação ao suicídio,existe todo um protocolo de divulgação. É um protocolo que é seguido nacionalmente, porque a forma como você divulga pode gerar replicação do mesmo comportamento logo em seguida.
Será que isso é aplicável aos casos de feminicídio? Porque a gente tem visto que quando se noticia de uma forma ampla, uma forma nacional um determinado caso com riqueza de detalhes, há uma repetição da mesma situação criminosa sendo cometida com o mesmo comportamento, mesmo modus operandi. Quando se noticiou aquele caso do homem que agrediu a mulher no elevador, nas semanas seguintes nós tivemos casos análogos em alguns estados. Se noticia que o homem matou a mulher e depois os filhos, nas semanas seguintes nós verificamos casos análogos em algumas partes do Brasil.
Pensando nesta situação, nós do gabinete de enfrentamento à violência contra a mulher vamos promover no dia 14 de abril, no Palácio do Governo, uma capacitação trazendo uma juíza e um delegado do Distrito Federal para dialogar conosco com juízes, delegados, promotores, Patrulha Maria da Penha e com a mídia em geral sobre como prevenir o feminicídio, como avançar na análise de risco e também qual o papel da mídia nesse cenário. Vamos juntos fazer essa mudança. É importante essa integração de todos nós, porque todos nós somos agentes propensos a fazer a modificação dessa realidade. Esse delegado que nós traremos tem uma tese de doutorado sobre o papel da mídia nesse cenário.
MidiaNews - Em situações de separação ou conflitos familiares, quais são os principais sinais de alerta que podem indicar risco de violência vicária, mas muitas vezes passam despercebidos?
O momento da separação com o início de um novo relacionamento pela mulher é um fator que indica que pode haver uma progressão criminosa ou até mesmo uma evolução para o feminicídio.
Mariell Antonini - Você sabe que o momento da separação com o início de um novo relacionamento pela mulher é um fator que indica que pode haver uma progressão criminosa ou até mesmo uma evolução para o feminicídio. Se estiverem presentes outros fatores de risco, como possessividade, ciúmes, se já agrediu a mulher em outros momentos, já praticou atos graves como estrangulamento, é controlador, dominava a economia da família e se a mulher separou recentemente, e está num relacionamento recente. Tudo isso, se somado, o risco é mais grave que uma situação em que não existem esses fatores.
Na Polícia Civil, trabalhamos com essa análise de risco, e é essa percepção, essa capacitação que nós vamos passar para mais profissionais trabalharem com a classificação de risco, com a análise de risco e com a tomada de decisão. Quando você analisa isso, separação recente, relacionamento novo, autor possessivo, doente, se está com um transtorno mental ou em uso de drogas, ideação suicida, tudo isso tem que chamar a atenção e tem que indicar um plano de ação diferente para esse caso, justamente para evitar essa progressão criminosa contra a mulher ou contra os filhos.
MidiaNews - Como chamar a atenção para os abusos e violências que muitas mulheres enfrentam diariamente? Existe assédio nas ruas, quando a mulher se locomove da sua casa para o mercado, da sua casa para o trabalho, também acontece no ambiente de trabalho e dentro de casa. Por que esses comportamentos continuam sendo tão frequentes e tão pouco denunciados?
Mariell Antonini - Eu vejo que, de uns três anos para cá, o assunto da violência contra a mulher entrou na pauta pública. Isso é muito bom. Ajudou a trazer visibilidade para esse problema complexo e fomenta no desenvolvimento de políticas públicas, porque demonstra um anseio popular, demonstra uma necessidade de trabalho. Nós ainda temos que trabalhar muito a questão da educação. Não é educação na escola, é educação dentro de casa. Educação primária, que a gente recebe dos nossos pais. Entender que o corpo da mulher não é um objeto violável, disponível, que pode ser tocado de qualquer forma e que nada vai acontecer.
O corpo da mulher não é um objeto violável, disponível, que pode ser tocado de qualquer forma e que nada vai acontecer.
Nós temos que entender o processo histórico que nós viemos. Nós tivemos um país escravocrata, muitas mulheres negras, pardas, foram escravizadas. Ficaram muito tempo com os direitos invisibilizados e nesse processo teve muita fragilização e liberdade para se beneficiar dos corpos das mulheres. Foi um processo histórico que nós vivemos e nós precisamos mudar. Essa concepção vem de longos anos e sendo passada para algumas gerações, mas isso está em processo de mudança. Uma mudança cultural não se muda de um dia para o outro, não se aperta o botão e se resolve. Se fosse assim, acredito que nós todos já teríamos apertado esse botão.
A mudança cultural vem com muito trabalho, atividade institucional, estatal, privada, particular, cada um se envolvendo. Alguns anos atrás, ninguém usava cinto de segurança nos carros. Precisou de uma lei, precisou que os carros tivessem dispositivo para colocar alarme, tem carro que não liga sem puxar o cinto de segurança. É mudança de cultura, mudança de comportamento. Precisou de lei, precisou mudar a fabricação dos carros, precisou campanha publicitária. Antigamente era muito comum pessoas fumarem, era até bonito, era uma referência. Depois veio a percepção de que fumar causa problema saúde, precisou de campanha publicitária, limitar a idade para venda de tabaco, colocar foto no cigarro de que causa câncer.
Deixou de ser uma referência de status, foi toda uma mudança de cultura. É um trabalho de longo prazo, tem coisas que a gente não muda num dia. E a mesma coisa é a violência doméstica. Hoje nós ainda temos muita violência sexual contra nossas meninas. Isso se desenvolve com lei, com campanha, com trabalho de repressão, e atuação coordenada do Estado. Se houver toda essa união de esforço, engajamento, desenvolvimento de políticas públicas coordenadas, monitoradas, um problema que demoraria 200 anos para se resolver, se evolui com 30. Então nós precisamos continuar neste caminho de debate, construção e implementação de políticas públicas para o enfrentamento da violência contra a mulher.
Não podemos permitir que a internet seja utilizada como um campo para propagar informações equivocadas, formando incels, red pills, contra o direito das mulheres.
MidiaNews - Muito se fala sobre os crimes cometidos contra as mulheres por adultos. Mas temos visto casos envolvendo adolescentes, como foi do estupro coletivo no Rio de Janeiro. Qual é a importância de discutir a educação com os meninos e os adolescentes como parte fundamental da prevenção de violência contra as mulheres?
Mariell Antonini - Um dado que tem preocupado é o acesso e a permanência dos jovens à internet de uma forma sem controle, obtendo todas as informações disponíveis na internet que nem sempre são adequadas. Em vez de promover educação com igualdade de gênero, pode promover também essa banalização dos direitos da mulher. Nós temos que puxar esse debate e esse olhar para essa pauta. Tudo que nós precisamos é que os jovens cresçam com esse entendimento de que homens e mulheres são iguais, tem os mesmos direitos e devem ter as mesmas garantias.
Nós precisamos evoluir todos nesse sentido, e não podemos permitir que a internet seja utilizada como um campo para propagar informações equivocadas, formando incels, red pills, contra o direito das mulheres. Os jovens que cometem crimes contra outras mulheres, vão responder criminalmente, mas nos termos do ECA. Vão responder por um ato infracional, análogo a crime, e terão a responsabilidade firmada de acordo com as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente, o que não significa que eles ficarão impunes, eles serão responsabilizados, mas com as medidas correspondentes, que pode ser de internação, semiliberdade, advertência.
MidiaNews - De que forma a família, a escola e a sociedade podem atuar em conjunto para poder romper esses padrões culturais que ainda incentivam os meninos a se tornarem adultos machistas e se comportamentar de forma agressiva com as mulheres?
Mariell Antonini - A família é o principal, é a primeira porta de diálogo. É importante que pais e mães já iniciem desde pequenos a educação de seus filhos com igualdade, ensinando que a casa é responsabilidade de todos que moram nela. Todos devem cuidar da casa, que é um espaço sagrado, é um lugar de refúgio. Não são só as mulheres que são responsáveis pela casa e pelos filhos. Muitas vezes a gente vê isso. Se educa só a menina para lavar louça, para tirar a mesa, para cuidar dos afazeres domésticos e isso gera reflexos no futuro, na vida adulta, porque os nossos jovens, os nossos infantes vão crescer e eles vão crescer com os valores que nós passamos a eles.
A família é uma instituição muito importante para a sociedade, mas nós não podemos apoiar a ideia de que uma mulher tem que continuar casada mesmo se sofrer violência
Se nós passamos valores de que só a menina é responsável pela casa, só ela tem esse dever de cuidado com os filhos, com a família, por mais que sejam cuidados muito benéficos a todos, no olhar da sociedade são menos valorizados. Infelizmente é mais valorizado o trabalho externo, o trabalho remunerado, o trabalho que provê o lar com recursos financeiros. No futuro, se estabelece uma relação em que o homem é o único provedor da casa e a mulher só é responsável pelos cuidados domésticos e nesta relação existe violência doméstica, há um entendimento de superioridade de um em relação ao outro.
E há uma dificuldade muito maior para quem sofre a violência de buscar ajuda por vários fatores. Como vínculo afetivo, dependência financeira, que dificulta, no primeiro momento, buscar ajuda. Se ela tem dificuldade de inserção no mercado de trabalho, por todo julgamento, preconceito em cima dessa situação, é muito mais difícil romper o ciclo da violência. A família tem que ser a primeira instituição a trazer essas informações para as nossas crianças, os nossos adolescentes de que todos são iguais. De que homens e mulheres, ambos são responsáveis pelo cuidado da casa com os filhos, também são responsáveis por prover o lar com recursos financeiros, são responsáveis por ocupar espaço de poder, por mudar a comunidade, por mudar a sociedade.
Todos nós temos que fazer a nossa parte. As igrejas, todos os cultos religiosos em geral também tem esse papel muito importante de mudar essa visão de que a mulher tem que ser submissa em casa. De que tem que se submeter a um casamento, ainda que exista violência. Nós temos que mudar essa informação equivocada. O casamento é sagrado. A família é uma instituição muito importante para a sociedade, mas nós não podemos apoiar a ideia de que uma mulher tem que continuar casada mesmo se sofrer violência, porque a violência numa relação doméstica ela é progressiva e ela é letal.
MidiaNews - Doutora, a senhora foi convidada pelo governador Mauro Mendes, em dezembro de 2025, para chefiar o Gabinete de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres. Qual é o principal objetivo desse gabinete?
A finalidade desse gabinete será justamente essa necessidade de estabelecer a articulação entre as secretarias de Estado
Mariell Antonini - O Gabinete de Enfrentamento à Violência contra a Mulher é uma estrutura nova que o Estado de Mato Grosso está criando justamente para exercer a governança na pauta do enfrentamento à violência contra a mulher. Quando nós pensamos numa estrutura de Estado, ela tem um tempo para nascer, para se desenvolver e é isso que está acontecendo com o gabinete. Algumas pessoas me perguntam, mas foi anunciado em dezembro, em que momento está? Nós estamos neste momento de implantação, porque é uma estrutura nova que está sendo criada com o status de uma secretaria. É necessário todo esse trabalho administrativo inicial para definição de competências, da estrutura necessária para o desenvolvimento desse trabalho, aprovação pela Assembleia Legislativa.
A finalidade desse gabinete será justamente essa necessidade de estabelecer a articulação entre as secretarias de Estado, os demais poderes constituídos e também exercer a governança nessa pauta da violência, do enfrentamento à violência contra a mulher. Quando nós analisamos quais políticas públicas vêm sendo desempenhadas, é fácil de observar que esse é um trabalho que não começa hoje. É um trabalho que já vem sedimentado há muito tempo no Estado. Nós temos secretarias que desempenham essa prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher há algum tempo, como a Secretaria de Segurança Pública, Secretaria de Assistência Social, a Secretaria de Educação, que são muito fortes nesse combate.
Nós precisamos compreender que o trabalho não começa hoje. Foi identificado pelo Governo do Estado que era necessário evoluir mais, trazer um link, uma junção entre esses trabalhos desenvolvidos, observar as lacunas, o que está precisando evoluir entre o trabalho das secretarias, uma visão macro do todo. Qual o setor do Estado que terá uma visão macro do todo? Precisar conectar o que a Secretaria de Educação está fazendo, o que a Sesp, a Sejus, a Cetasc estão fazendo, porque nós sabemos que os serviços são fragmentados. Foi identificado pela Casa Civil junto ao Governo do Estado, a vice-governadoria também, que existia essa necessidade de articular melhor, exercer a governança na pauta. Por isso foi determinada a criação desse gabinete.
Em outubro de 2025, o Governo de Mato Grosso editou o decreto de número 1708, estabelecendo um plano de metas para o enfrentamento à violência contra a mulher
MidiaNews - E quais as ações práticas que começarão a ser desenvolvidas com a criação do gabinete?
Mariell Antonini - O gabinete terá o papel de exercer o monitoramento e a governança sobre o plano de metas. Em outubro de 2025, o Governo de Mato Grosso editou o decreto de número 1708, estabelecendo um plano de metas para o enfrentamento à violência contra a mulher. Quase ninguém fala sobre isso, mas o Estado de Mato Grosso publicou algumas ações que têm que ser desempenhadas por 10 anos, entre 2025 a 2035, justamente para enfrentar esse cenário que nós temos de altos índices de violência contra a mulher. Quem analisa tecnicamente esse plano, consegue verificar que ali estão dispostas metas para serem cumpridas por várias secretarias e poderes do Estado.
A exemplo, eu posso citar que ali foram determinadas capacitações para a segurança pública, para a saúde, para a assistência social. Isso na prevenção primária. Também terá o desenvolvimento de campanhas publicitárias pelo governo do Estado de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Comunicação. Porque esse efeito, esse alcance da mídia junto à população, levando informações, é muito importante, faz a diferença e auxilia nesse processo de mudança da cultura que nós precisamos trabalhar. Também previmos ações de aprimoramento e monitoramento das medidas protetivas vigentes, ampliação da estrutura atualmente existente em várias secretarias.
Foi previsto a ampliação de serviços em delegacias especializadas, mais construções de núcleos especializados de atendimento, expansão da Patrulha Maria da Penha, mais salas lilás para a Politec e também na saúde para acolher as mulheres. O Estado sentou e analisou onde nós queremos chegar em 2035 e fez esse plano de metas que está disponível para toda a população acessar. O desenvolvimento do plano de metas é um trabalho conjunto e haverá formalização de uma rede estadual de enfrentamento à violência contra a mulher, com a participação de inúmeros setores, sob a coordenação do Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher. O Estado tem a responsabilidade de revisar este plano a cada dois anos, o que desmontra preocupação com essa pauta.
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