Cuiabá, Quinta-Feira, 2 de Abril de 2026
PAOLLA SILVA
02.04.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Autocuidado masculino

Homens passam a se incomodar com gordura abdominal e mudam relação com corpo

Durante muito tempo, o excesso de gordura nunca foi, de fato, um problema para os homens. A barriga que crescia era tratada com humor, apelidos e até certa tolerância social. A gordura masculina sempre foi naturalizada, até porque não existe para o universo masculino a pressão por padrão de beleza como ocorre com as mulheres. Esteticamente, mulheres sempre se importaram mais com excesso de gordura do que homens, independentemente das motivações. Mas esse cenário começou a mudar.

 

Os homens passaram a prestar mais atenção ao próprio corpo, especialmente à gordura abdominal, que por anos foi ignorada. A barriga vista como algo comum, e até chamada de “charme”, hoje começa a ser encarada como um sinal de alerta. E isso não apenas por estética, mas também pela consciência de que é necessário reduzir o percentual de gordura para ter um corpo mais saudável. A gordura abdominal apresenta mais riscos para o organismo porque, em muitos casos, é do tipo visceral – uma gordura mais profunda, que fica ao redor dos órgãos e pode causar inflamações e alterações metabólicas. Alguns dos perigos que o excesso de gordura abdominal pode trazer são: diabetes tipo 2, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, hipertensão, demência e doença arterial coronária.

 

No Brasil, milhões de adultos vivem com obesidade. O excesso de peso já atinge a maioria da população. Entre os homens, a gordura se concentra principalmente na região abdominal, justamente a mais associada a riscos metabólicos e cardiovasculares. Ainda assim, esse sempre foi um dos pontos mais negligenciados. O comportamento masculino ajuda a explicar esse cenário. Homens, em geral, falam pouco sobre o próprio corpo, evitam expor incômodos e tendem a procurar ajuda apenas quando o problema já interfere na rotina. A gordura vai se acumulando de forma gradual e silenciosa.

 

Aos poucos, esse padrão começou a mudar há um tempo. Muitos homens já mudaram o comportamento e estão buscando soluções em tratamentos voltados à redução de gordura abdominal, melhora do contorno corporal e definição mais natural. Ainda é um movimento discreto, mas significativo.

 

Diferentemente do passado, essa busca não está ligada apenas à aparência. Existe uma preocupação crescente em interromper um processo que pode evoluir para quadros mais complexos. A gordura deixou de ser ignorada e passou a ser encarada como um sinal de que algo precisa ser ajustado esteticamente e na saúde. Outro ponto importante é a quebra de um antigo tabu de cuidado com o próprio corpo. O que antes era visto como vaidade excessiva começa a ser entendido como autocuidado necessário. Ainda que muitos não falem sobre isso abertamente, já não ignoram mais o que veem no espelho. E esse olhar mais atento traz um efeito direto, ainda pouco discutido, sobre a autoestima masculina.

 

Por muito tempo, homens foram ensinados a não associar aparência a bem-estar. Cuidar do corpo não fazia parte do repertório emocional masculino. A insatisfação com a própria gordura, antes mascarada por piadas, passa a ser reconhecida de forma mais honesta por eles internamente. Sentir-se bem com o próprio corpo está deixando de ser um luxo ou vaidade masculina para passar a ser parte da qualidade de vida.

 

A redução da gordura abdominal, nesse contexto, impacta não apenas medidas, mas disposição e confiança. Homens que se percebem mais saudáveis tendem a se posicionar de forma diferente no trabalho, nos relacionamentos e na própria rotina. A mudança física com o emagrecimento acaba refletindo em outras áreas da vida.

 

Ao mesmo tempo, cresce uma busca mais madura não apenas por emagrecimento rápido, mas por um envelhecimento mais saudável. Os homens começaram a entender que o acúmulo de gordura ao longo dos anos não é inevitável. E, mais do que isso, não precisa ser negligenciado. Surgiu uma preocupação maior com longevidade, desempenho físico e manutenção da vitalidade. Não se trata mais de “voltar ao corpo de antes”, mas de preservar funcionalidade, energia e bem-estar ao longo do tempo.

 

Nesse contexto, a estética masculina também evoluiu. O objetivo não é transformar o corpo, mas reduzir a gordura localizada, melhorar proporção e recuperar um aspecto mais natural e saudável sem exageros e sem perder identidade.

 

Mais do que procedimentos isolados, cresceu a busca por estratégias integradas: tratamentos estéticos associados a mudanças de hábitos, acompanhamento profissional e protocolos personalizados. A redução de gordura passa a ser vista como parte de um cuidado mais amplo.

 

Os impactos vão além do visual e ignorar o assunto pode custar para a saúde. As projeções indicam um aumento progressivo do excesso de peso nos próximos anos, reforçando que essa não é apenas uma questão individual, mas um desafio coletivo. No fim das contas, o que está em jogo não é padrão estético e sim a percepção sobre o próprio corpo, sobre limites, sobre saúde e sobre o tempo. Talvez, a maior mudança não seja a redução da gordura em si, mas o momento em que os homens finalmente começaram a olhar para ela e entender que cuidar do próprio corpo não é apenas vaidade e sim evolução.

 

Paolla Silva é biomédica.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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