A politica vive um tempo em que a reação se sobrepõe à reflexão. Basta um tema ganhar espaço no noticiário — uma crise administrativa, um embate entre Poderes ou uma declaração fora de tom — para que políticos de diferentes campos se apressem em ocupar o debate. Surgem notas públicas, vídeos calculados e discursos quase simultâneos, mais atentos ao efeito imediato do que ao conteúdo. Ao menor ruído nos corredores do poder, é como se alguém tivesse batido no cocho.

O comportamento atravessa partidos e ideologias. Governo, oposição e centro parecem guiados pela mesma lógica: não ficar fora da cena. A política passa a operar em ciclos curtos, moldada pela dinâmica das redes sociais e pelo noticiário em tempo real que se irradia da capital para o restante do país. O posicionamento rápido ganha prioridade sobre a análise cuidadosa, ainda que isso empobreça o debate público.
A polarização acentua esse movimento. Em um ambiente marcado por antagonismos, o silêncio é visto como fraqueza e a ponderação, como hesitação. Muitos preferem errar em público a perder protagonismo. O resultado é um espaço político mais barulhento, porém menos produtivo, no qual a disputa de narrativas substitui a busca por soluções.
No Congresso Nacional, Camara Federal, Câmara estadual e Municipal, nessa lógica se reflete na agenda. Pautas simbólicas e discursos de efeito avançam com rapidez, enquanto projetos estruturais — mais complexos e politicamente custosos — enfrentam resistência e lentidão. O Parlamento, que deveria funcionar como espaço de mediação e construção de consensos mínimos, frequentemente assume papel de palco.
As instituições também acabam inseridas nesse ambiente. Decisões judiciais e conflitos entre Poderes são rapidamente capturados pelo debate político, alimentando discursos que reforçam divisões e ampliam a desconfiança da sociedade em relação ao funcionamento do Estado.
Enquanto isso, desafios reais permanecem: crescimento econômico irregular, serviços públicos pressionados, insegurança jurídica e um eleitor cada vez mais cético. São problemas que exigem coordenação, planejamento e continuidade — qualidades pouco compatíveis com a política do improviso. Quando há palco, o espaço se enche. Quando há trabalho silencioso, faltam voluntários. Romper essa lógica é um dos grandes desafios da democracia brasileira.
Alaercio Martins é administrador e cidadão mato-grossense e cuiabano.
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