A violência contra a mulher no Brasil não pode ser compreendida apenas como um problema criminal ou estatístico. Ela precisa ser interpretada como um fenômeno social que atravessa cultura, política, religião e as próprias formas pelas quais os homens aprendem a ser homens dentro da sociedade.
Quando olhamos para o estado de Mato Grosso, esse fenômeno se revela com uma nitidez perturbadora. Há anos o estado aparece entre os primeiros lugares do país nas taxas proporcionais de feminicídio. Em números absolutos, os registros anuais costumam oscilar entre quarenta e cinquenta mulheres assassinadas por razões de gênero, mas quando esses dados são convertidos em taxa por população feminina, Mato Grosso passa a figurar entre os estados mais perigosos do Brasil para se ser mulher.
Esse dado não pode ser lido isoladamente. Ele ganha densidade quando observamos o mapa urbano do estado. Nas dez maiores cidades, Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Tangará da Serra, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Cáceres e Barra do Garças, concentram-se milhares de registros de violência doméstica todos os anos.
Somente a capital registra algo próximo de cinco mil ocorrências anuais. Várzea Grande passa de três mil. Cidades médias como Rondonópolis e Sinop frequentemente ultrapassam mil registros anuais. Municípios economicamente dinâmicos como Sorriso e Lucas do Rio Verde acumulam centenas de ocorrências por ano. Esses números revelam que a violência doméstica não é um episódio ocasional. Ela é um padrão social persistente.
É aqui que a teoria das masculinidades se torna indispensável para interpretar esses dados. Essa abordagem sociológica parte de uma ideia fundamental: a violência contra a mulher não nasce apenas de indivíduos violentos. Ela nasce de modelos culturais de masculinidade que associam ser homem a dominar, controlar e possuir. Em muitas sociedades, inclusive no Brasil, o homem aprende desde cedo que sua identidade masculina está ligada ao poder dentro da família, à autoridade sobre a mulher e ao controle do espaço doméstico.
Quando esse controle é desafiado, por autonomia feminina, independência econômica ou ruptura do relacionamento, alguns homens respondem com violência. O feminicídio é a expressão extrema dessa masculinidade que se sente ameaçada.
Por isso os números da violência doméstica precisam dialogar com as estruturas culturais da sociedade. Mato Grosso possui uma história marcada pela expansão agrícola, por fronteiras econômicas recentes e por um forte imaginário masculino ligado à figura do provedor, do trabalhador rural e do homem que ocupa o centro da autoridade familiar. Em cidades que cresceram rapidamente, como Sorriso ou Lucas do Rio Verde, essa combinação entre crescimento econômico acelerado e reorganização social cria ambientes onde modelos tradicionais de masculinidade continuam operando com grande força simbólica.
Mas a cultura não opera sozinha. Ela se manifesta também na política. Quando observamos as câmaras municipais das principais cidades mato-grossenses, encontramos um cenário que reflete exatamente essa estrutura social: a presença feminina ainda é minoritária. Mesmo nas cidades onde há vereadoras, elas raramente ultrapassam um terço das cadeiras legislativas. Em muitos municípios há apenas uma ou duas mulheres entre mais de dez vereadores.
E há um dado institucional que revela com clareza o lugar ainda secundário que a pauta das mulheres ocupa na política local. Entre as dez maiores cidades de Mato Grosso, apenas Cuiabá possui uma Comissão da Mulher formalmente estruturada dentro da Câmara Municipal. Nas demais cidades, Várzea Grande, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Tangará da Serra, Primavera do Leste, Lucas do Rio Verde, Cáceres e Barra do Garças, o que existe são estruturas muito mais limitadas, geralmente procuradorias institucionais da mulher ou cargos administrativos sem o mesmo peso político de uma comissão legislativa permanente.
Essa diferença institucional não é meramente burocrática. Uma comissão legislativa tem poder de convocar audiências públicas, propor projetos de lei, pressionar o Executivo e inserir o tema na agenda política da cidade. Uma procuradoria, embora importante, costuma atuar mais como órgão de apoio ou mediação. Ou seja, justamente em um estado que convive com índices elevados de violência de gênero, a estrutura política dedicada à pauta das mulheres ainda é frágil e desigual entre os municípios.
Essa realidade revela algo fundamental: a forma como uma sociedade organiza suas instituições também revela o quanto ela prioriza determinados problemas. Quando a violência contra mulheres é tratada como um tema secundário na estrutura política, ela tende a permanecer secundária também na formulação das políticas públicas.
É por isso que a presença feminina na política altera o olhar sobre o mundo. A mulher que chega a uma câmara de vereadores não carrega apenas um mandato eleitoral. Ela carrega também uma experiência histórica de vulnerabilidade social que homens, em sua maioria, nunca experimentaram. Ela sabe o que significa atravessar a cidade com medo. Ela sabe o que significa depender economicamente de um parceiro violento. Ela sabe o que significa ter sua dignidade questionada dentro de um ambiente dominado por homens.
Por isso, quando mulheres ocupam mais espaço nas instituições políticas, o debate muda de natureza. A política deixa de ser apenas um jogo de posições ideológicas e passa a ser também um espaço de construção concreta de proteção social.
Quando esse espaço é reduzido, a política corre o risco de se perder em disputas simbólicas que pouco alteram a vida real das pessoas. Moções de repúdio, moções de aplauso ou declarações de condenação ocupam horas de debates parlamentares, produzem manchetes e alimentam polarizações. Mas esses gestos, embora barulhentos no plano discursivo, não constroem abrigos, não ampliam delegacias especializadas, não fortalecem redes de acolhimento e não impedem que uma mulher seja agredida dentro de casa.
Mas há momentos em que a política revela algo ainda mais profundo sobre si mesma. Quando denúncias graves envolvendo violência contra mulheres surgem no interior das próprias estruturas de poder, o que deveria ser tratado como um problema sério de responsabilização muitas vezes se transforma em disputa institucional. Em vez de a atenção pública se concentrar na gravidade do fato, o debate passa a girar em torno de outra pergunta: quem ganha e quem perde politicamente com a investigação?
É nesse momento que surge aquilo que poderíamos chamar de uma cortina de fumaça institucional. A política desloca o foco. O que deveria ser discutido como violência passa a ser tratado como estratégia. O que deveria gerar indignação social passa a ser absorvido por disputas entre campos políticos, entre governo e oposição, entre esquerda e direita. A energia pública se move da questão ética para a disputa narrativa.
Nesse deslocamento silencioso, algo essencial se perde. A violência deixa de ser o centro da discussão. A investigação passa a ser vista como ameaça política. A defesa das mulheres passa a competir com cálculos de conveniência institucional. E quando isso acontece, aquilo que era grave começa a ser tratado como apenas mais um capítulo do jogo político.
É justamente nesses momentos que a ausência feminina na política se torna ainda mais visível. Porque quando mulheres ocupam menos espaço nas instituições, também se reduz a capacidade de manter certas experiências humanas no centro do debate público.
Mas há aqui um ponto delicado que precisa ser dito com clareza. O que faz falta em Mato Grosso não é apenas a presença feminina na política. Faz falta também a consciência do feminismo.
Consciência do feminismo não como um rótulo identitário ou uma bandeira ideológica, mas como uma compreensão profunda de que a violência contra a mulher é um fenômeno estrutural. Um fenômeno que atravessa cultura, economia, religião e política. Sem essa consciência, a presença feminina pode ampliar a representatividade, mas não necessariamente altera a forma como certos problemas são interpretados e enfrentados.
Por isso, a ausência que se percebe na política mato-grossense não é apenas numérica. É também simbólica. Faz falta a presença feminina. Faz falta a consciência do feminismo. E faz falta, sobretudo, a coragem institucional de manter o foco onde ele realmente deveria estar: na proteção concreta das mulheres.
Mas seria um erro interpretar esse fenômeno apenas como uma distorção da Câmara Municipal. Parlamentos não surgem no vazio. Eles são, em grande medida, reflexos das culturas políticas que os elegem. Os vereadores que ocupam aquelas cadeiras foram escolhidos por eleitores que também compartilham visões de mundo, valores morais e expectativas sobre o que deve ou não ocupar o centro do debate público.
Quando moções simbólicas ganham mais espaço do que políticas concretas de enfrentamento à violência contra mulheres, isso não revela apenas uma escolha institucional do parlamento. Revela também uma cultura política mais ampla, na qual gestos de afirmação moral frequentemente recebem mais atenção pública do que a construção lenta e complexa de políticas sociais.
Enquanto isso, a realidade social continua produzindo vítimas.
Outro elemento fundamental nesse cenário é a religião. Pesquisas sociológicas indicam que grande parte das mulheres que sofrem violência doméstica busca primeiro ajuda em suas redes sociais mais próximas. No Brasil contemporâneo, essas redes frequentemente passam pelas comunidades religiosas. Igrejas funcionam como espaços de acolhimento, escuta e mediação de conflitos familiares. Em muitos casos, antes de procurar a polícia ou o sistema judicial, a mulher procura um pastor ou uma liderança religiosa.
Esse dado precisa ser interpretado com inteligência sociológica. Ele não significa que a religião seja responsável pela violência. Significa que a religião ocupa um lugar central na vida social de muitas comunidades. E exatamente por isso ela pode se tornar uma aliada poderosa na transformação cultural necessária para enfrentar a violência de gênero.
Se líderes religiosos são os primeiros a ouvir relatos de sofrimento, eles também podem se tornar os primeiros a questionar modelos de masculinidade baseados em dominação.
A teoria das masculinidades mostra que a violência contra a mulher não será reduzida apenas com punição legal. Ela exige uma transformação cultural mais profunda. E essa transformação passa necessariamente pelos homens.
Porque no fundo o problema não é que os homens tenham parado de amar as mulheres.
O problema é que muitos homens nunca aprenderam como as mulheres desejam ser amadas.
Aprender isso exige escuta.
Escuta das mulheres.
Escuta da ciência.
Escuta da realidade.
Enquanto a política continuar ocupada com disputas simbólicas e não com a transformação das estruturas culturais que produzem a violência, continuaremos vendo o mesmo cenário se repetir.
Estatísticas serão divulgadas.
Debates ideológicos serão travados.
Moções serão aprovadas.
Mas as mulheres continuarão morrendo.
E cada feminicídio será mais do que um crime.
Será a prova de que a sociedade ainda não aprendeu a desmontar os modelos de masculinidade que transformam amor em posse, autoridade em violência e relações afetivas em territórios de poder.
Desconstruir esse modelo não significa atacar os homens.
Significa libertá-los de uma forma de masculinidade que também os aprisiona.
Porque, no fim das contas, a política raramente é apenas o problema dos políticos. Ela também é o retrato das prioridades de uma sociedade.
E enquanto gestos simbólicos continuarem recebendo mais aplausos do que políticas concretas de proteção às mulheres, a pergunta que permanecerá no ar não será apenas sobre o que fazem os vereadores, mas sobre o que a própria sociedade decide valorizar quando escolhe seus representantes.
Nailton Reis é neuropsicólogo clínico com especialização em neuropsicologia cognitiva comportamental.
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