Cuiabá, Quinta-Feira, 2 de Abril de 2026
RENATO DE PAIVA PEREIRA
27.10.2024 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Nunca houve o primeiro homem

A vida originou-se em circunstâncias ainda não bem entendidas e foi evoluindo

A nossa capacidade de aceitar a aleatoriedade da vida é muito pequena.  Para todas as coisas, tentamos criar uma explicação, como se sempre houvesse uma.

 

Convencermo-nos de que estamos no mundo sujeitos a todos os perigos que ele tem nos aflige. Querendo amenizar essa angústia, criamos os deuses que nos livram de todo o mal e acompanham nossos passos dia e noite.

 

Desses deuses, não exigimos muita dedicação e os desculpamos sempre que descuidam um pouco de nós. Relevamos suas falhas, por medo de uma punição maior.  Assim é que damos “graças a Deus” quando saímos vivos, ainda que com sequelas, de algum desastre. Não questionamos que, se Deus tem o poder de nos salvar, teria a capacidade de evitar o acidente. Também agradecemos o “milagre” quando escapamos com vida de um acidente onde todos os outros morreram, sem desconfiarmos dessa súbita preferência divina por nós.

 

Somos seres tão angustiados e, ao mesmo tempo, tão pretensiosos que não aceitamos com facilidade a ideia de que a vida surgiu aleatoriamente e que depois dela não tem mais nada.  Preferimos acreditar que um arquiteto maravilhoso nos projetou e deu-nos a vida e que ao fim dela, herdaremos o céu. 

 

Todos os povos têm um mito para explicar suas origens. O nosso vem das tribos hebraicas que habitavam o oriente médio. O Deus deles teria criado o homem do pó da terra e lhe soprado a vida pelo nariz. Este vivia com a companheira no paraíso até que uma serpente malvada os convenceu a desobedecer ao criador, causando sua ruína.

 

Mas a ciência afirma que nunca houve um primeiro homem, nem o primeiro leão ou qualquer outro ser vivo. A vida originou-se em circunstâncias ainda não bem entendidas e foi evoluindo, transformando-se em milhares de espécies diferentes. 

 

Richard Dawkins, no seu livro A Magia da Realidade (Cia das Letras), explica esse processo lento de transformação, argumentando que não é difícil entendê-lo.

 

Basta, ele garante, observarmos as mudanças graduais que nos acontecem. Um bebê transforma-se em criança, esta em pré-adolescente, que evolui para adolescente, tornando-se depois um jovem.  Depois vira um adulto que vai ser velho. Cada fase destas começa e termina muito sutilmente. Ninguém percebe o dia exato que se tornou jovem ou adulto.  Não é possível olharmos no espelho um belo dia e dizermos “hoje tornei-me outra pessoa”.

 

Assim, o homem, que é um primata, nunca vai saber o dia, século ou milênio que deixou de formar uma espécie única com o chimpanzé, para se tornar o “Homo sapiens”.

 

Depois dessa separação, já com alguns laivos de inteligência, inventamos um deus para nos criar, em uma “fornada” diferente daquela que originou os demais primatas, nossos parentes mais próximos.

 

Mas Darwin nos tira deste autoengano confortável: em sua Teoria da Evolução das Espécies, ele garante que todos os viventes têm uma só origem. Entretanto, por teimosia e presunção não admitimos o parentesco que temos com nossos primos macacos.

 

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor. 

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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