Cuiabá, Quinta-Feira, 9 de Abril de 2026
LUIZ HENRIQUE DAMASCENO
04.12.2015 | 21h00 Tamanho do texto A- A+

Por que desmilitarizar a Polícia?

O regime militar não seria controverso se ainda estivéssemos na distante década de 70

Pelos excessos observados nas ocorrências? Pelo combate aos “supostos” grupos de extermínio? Por todos os argumentos triviais que se espalham em diversos textos facilmente encontrados na rede mundial de computadores?

 

Não! Ao menos na presente elucubração, vamos sair um pouco destes argumentos de impacto nas massas sociais e nos deixemos guiar para o foco do Primeiro Simpósio da Polícia Judiciária Civil do Estado de Mato Grosso, preparado para um público-alvo com um olhar aguçado sobre os contornos hodiernos da segurança pública mato-grossense e brasileira.

 

Antes de qualquer argumentação, é necessário frisar a existência de policiais honrados, em uma polícia militarizada ou não, homens que não cansam de se expor frente às mazelas estruturais, objetivando combater a criminalidade.

A dúvida sobre manter a polícia militarizada para ações do dia a dia deve fazer Kelsen remexer em seu esquife, haja vista o tamanho da contradição com o vigente texto constitucional, supremo e absoluto para aquele constitucionalista

 

O raciocínio aqui não é em desfavor dos homens, mas sim contrário a um sistema antagônico à realidade constitucional vigente.

 

O regime militar não seria controverso se ainda estivéssemos na década de 70. Contudo a roda do mundo geopolítico, a “roda da fortuna” citada por Maquiavel, girou, e o regime democrático foi enaltecido, com a Carta Magna de 1988 vencemos o militarismo!

 

Ora, é o que se pode interpretar da Constituição brasileira, um dos postulados supremos mais enaltecedores da democracia, consagrador da dignidade da pessoa humana como vetor axiológico básico, que rompeu com o piso constitucional anterior.

 

Analisando a mudança de paradigmas constitucionais, que nos ajudará a responder a indagação inicial, seria razoável e proporcional pensarmos em uma polícia militarizada que investiga?

 

Absurdo é até mesmo tal estirpe de indagação!

 

O texto constitucional, fincado pelo constituinte originário, é cristalino, e em uma interpretação sistemática do mesmo, em especial do art.144 da Carta Política brasileira, não há espaço para o alongamento das atribuições militares já estampadas, no caso da segurança pública, restrita ao patrulhamento ostensivo.

 

Desmilitarizar a polícia brasileira é um dos primeiros passos necessários para a concretização e estabilização do Estado Democrático de Direito.

 

Sabemos dos clamores sociais no tocante à segurança pública, mas o militarismo não é a saída. Se assim fosse, os países desenvolvidos e civilizados estariam em maus lençóis, pois, ao que tudo indica, Rui Barbosa tinha razão ao afirmar que “a pior democracia é preferível à melhor das ditaduras”.

 

Aliás, é comum ver os militares lutarem por atribuições como a investigação de homicídios dolosos praticados por militares, entendimento contrário ao assentado pelo Supremo Tribunal Federal[1], mas por que não brigam pelas investigações de combate à corrupção nos altos escalões do governo? Não me recordo de ter visualizado tal peleia.

 

A resposta a mais esta ilação é óbvia. A hierarquia militar é cega, alheia aos interesses da sociedade civil, mais preocupada à verticalização das imposições administrativas, que poucas vezes são motivadas.

 

Assim, até mesmo nos questionarmos sobre o motivo da desmilitarização das polícias em um estado que não está em regime de exceção é irracional, simplesmente pelo fato da constituição ter instituído um Estado Democrático (preâmbulo).

 

A dúvida sobre manter a polícia militarizada para ações do dia a dia deve fazer Kelsen remexer em seu esquife, haja vista o tamanho da contradição com o vigente texto constitucional, supremo e absoluto para aquele constitucionalista.

 

Enfim, a desmilitarização da polícia brasileira é o caminho, não apenas em razão dos argumentos triviais tão propalados, mas principalmente por ser uma consequência da interpretação sistemática da Constituição Federal, tendo sempre como norte o fortalecimento da proteção ao cidadão de bem, com uma investigação sólida e eficiente, que literalmente coloque os infratores da lei atrás das grades, sem romper com as garantias fundamentais.

 

LUIZ HENRIQUE DAMASCENO é delegado de Polícia Judiciária Civil, lotado na Delegacia Especializada de Repressão a Entorpecentes. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia Minas Gerais (UFU); especialista em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat).

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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COMENTÁRIOS
21 Comentário(s).

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RODRIGO DE FIGUEIREDO  05.12.15 12h02
Descordo do nobre DOUTOR, primeiro ele diz que a Constituição Federal não comporta o militarismo, acho que ele fez uma interpretação errônea da carta maior quando citou o artigo 144, paragrafo 5º, lá reza que a Polícia Militar é orgão da segurança pública e tem a missão de ser uma polícia ostensiva e de preservação da ordem pública, o que é bem abrangente diga-se de passagem e não restrita ao patrulhamento como foi dito, manter a ordem pública é genérico e muito abrangente como já disse. Para que eu coadunasse com seu pensamento DOUTOR, teremos que primeiro mudar a Constituição Federal que diz o contrario do que você prega. Segundo que, convoco os internautas a fazerem uma constatação comigo, voltemos a página principal deste site e vejamos quantas ocorrências a PM atendeu e resolveu e façamos a comparação com as ocorrências atendidas pela PC, 90% dos atendimentos da PC são oriundas da PM, é nítida a diferença, onde a PM atua e prende mais marginais, aí fica difícil entender o posicionamento desse delegado, quanto a acabar com a Polícia Militar, já que é ela que consegue dar sensação de segurança à sociedade, ruim sem ela pior sem ela, o que falta mesmo segundo especialistas é investimento em segurança pública, investimento em programas sociais e de geração de emprego, aumentar o número de policiais nas ruas e e qualificação, hoje não temos nem delegacias no interior do estado e o senhor vem me falar em acabar com a Polícia Militar, é pra cabá mesmo!!
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odete  05.12.15 00h01
odete, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
odete  04.12.15 23h53
odete, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
Henrique Menegelo  04.12.15 22h09
Só uma observação... os melhores policiais da Polícia Civil ou foram formados pelas Forças Armadas, o exército em particular, ou foram formados pela Polícia Militar...Seria o Militarismo o problema? Seja sincero, já vi delegado elogiando a disciplina e a hierarquia da Polícia Militar nas operações... Discutir é muito bom... mais a sociedade quer que as Polícias Controlem a criminalidade... sobretudo os homicídios e Roubos na baixada cuiabana... Vamos Trabalhar
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alex r  04.12.15 21h01
Sendo sincero : praticamente tudo aqui é besteira. Todos sem exceção buscam sardinha pro seu lado.No fim pouco se fez e será feito pela população, pelo valor que gastamos em segurança era sim pra termos uma boa qualidade e sempre vem desculpas. Desculpe delegado mas no fim o seus só querem aumento de salário.
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