Estes últimos dias marcam o fim do ano e o término do mandato de alguns parlamentares municipais. Eles engrossarão, a partir do início do ano vindouro, o time dos “ex”, ou seja, dos que um dia “foram”.
Por mais que queiram ser chamados de vereador, a exemplo de tantos que insistem em se colocar como secretário, deputado, senador, governador e até presidente.
Embora, há muito, tenham deixado os ditos postos. Postos temporários, e isso, por outro lado, descarta chamar pela função alguém que não a exerce mais. Mesmo em razão da oxigenação do ego, da vaidade.
Este ponto traz à lembrança as palavras de Rousseau, que em “Emílio”, se resumem no estarem aptos “a viver com os homens” comuns, “mas não como eles”, uma vez que tal retorno implica em um saber-se quem se é, agir como se fala, sem depender radicalmente da opinião alheia.
Detalhe que pode, ludicamente, ser aproximada a Machado de Assis. Mais precisamente a um de seus mais belos contos, intitulado “O Espelho”, cujo personagem principal nasceu Joãozinho, quando jovem passou a ser Jacobina e, depois de nomeado membro da Guarda Nacional, Sr. Alferes. Gestação que se deu na bolsa amniótica da vaidade e da adulação.
Isso por um processo de constituição que poderia, em Rousseau, corresponder à matriz do “homem do homem”, inteiramente dependente da opinião dos outros para o reconhecimento da própria identidade.
Tanto que, no dito conto, “o alferes eliminou o homem”. Eliminação notada apenas com a crise de identidade. Tal crise não se deu de uma hora para outra. Mas somente quando Jacobina perdeu seu espaço, e sentiu-se sozinho, isolado do mundo e de gente no sítio da tia Marcolina. Foi, então, que percebeu, dentro de si mesmo, um vazio do ser.
Pois não mais havia o coro de vozes, até os mimos tinham desaparecidos, o que lhe reforçava o sentimento de identidade, com o enfático “alferes!” “alferes!”. Sentiu-se, então, a força da solidão. Tão forte que o próprio espelho não mais estampava a sua figura nitidamente e inteira, “mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra”.
Precisou, assim, trazer de volta a sua alma exterior. Porque desde que se tornou alferes, Jacobina é toda ela, e só ela. Ainda que mergulhado absolutamente na fantasia. Agarra desse modo, a farda de alferes. O que o faz recuperar a platéia, repovoando o silêncio com o ruído do mundo.
Entende-se, agora, o porquê muitos “ex” insistem em ser chamado pela função que, no pretérito, exerceram. Pois quando as exerciam, eles eram paparicados, convidados para mil e um jantares, centenas de tantos outros encontros, e, ainda havia os holofotes, uma vez que sempre, em seus caminhos, aparecia uma câmara ou câmeras.
“Status”, evidentemente, que não gostariam jamais de perder. E, talvez, tenham acreditado nessa possibilidade. Acreditaram tanto que não se preparam para o depois, sem a posição de antes e, pior, longe do poder de mando.
Diante desta situação desconfortante, os “ex” procuram obter favores dos chefetes políticos, e apresentam-se a estes com o pertence que lhes é mais caro, a saber: a experiência. Esta, na maioria das vezes, sequer ajuda a eles próprios. Por isso não ousam mais se apresentar nas disputas, e, quando um ou outro deles se atreve a sair, o resultado das urnas está longe de ser animador.
Tanto que recentemente, alguém que já tinha sido governador e também prefeito foi obrigado a retornar para casa com menos de três mil votos na algibeira, e outro, com passagem pela prefeitura e pelo Legislativo, teve que se contentar com a suplência no Parlamento estadual.
O desapontamento torna-se bem pior a dita situação, de verdadeiro ostracismo. São invisíveis, pelo menos em sua maioria, inclusive por quem se encontra no poder, e igualmente pelo eleitorado, além de passarem despercebidos pelas lentes das câmeras e longe dos focos das máquinas fotográficas.
Por isso, estão sempre acompanhados pela solidão, sem os paparicos de outrora. O que os impede de avistarem suas próprias imagens refletidas no espelho da vaidade.
Daí a depressão, cujo sintoma é aquilo que se pode chamar de ausências, inclusive a de mundo.
LOUREMBERG ALVES é professor universitário e articulista político em Mato Grosso.
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