Cuiabá, Domingo, 15 de Março de 2026
CASO "BESSIAS"
15.03.2026 | 11h08 Tamanho do texto A- A+

Messias aguarda sabatina para STF dez anos após Lava Jato

Ministro foi citado por Dilma, então presidente, em ligação interceptada pela operação

Reprodução

Jorge Messias, indicado ao STF pelo presidente Lula

Jorge Messias, indicado ao STF pelo presidente Lula

CAIO SPECHOTO
DA FOLHAPRESS

 O advogado-geral da União e indicado de Lula (PT) para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), Jorge Messias, aguarda a sabatina à qual precisa ser submetido para assumir uma vaga na corte dez anos depois de se tornar um personagem conhecido na política brasileira.

 

Ele foi mencionado pela então presidente Dilma Rousseff (PT) em uma conversa com Lula interceptada pela Operação Lava Jato há dez anos. Divulgada em 16 de março de 2016, a gravação foi um dos pontos mais marcantes do processo político que culminou no impeachment de Dilma.

 

Indicados para o Supremo precisam ter ao menos 41 votos favoráveis no Senado, depois de responderem a perguntas de senadores, para serem aprovados.

 

A escolha de Messias para a vaga na corte foi anunciada por Lula em novembro passado. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), chegou a marcar a sabatina do indicado, mas a cancelou porque o governo até o momento não enviou os documentos necessários. Lula usou o artifício para ganhar tempo e tentar obter mais apoio para seu indicado.

 

Integrantes do governo e senadores aguardam um novo encontro entre os presidentes da República e do Senado para destravar a sabatina. A expectativa é que a conversa seja nos próximos dias. Aliados de Lula acreditam que a votação poderá ser realizada ainda em março.

 

Evangélico, Messias se tornou um dos principais interlocutores do presidente junto a setores religiosos resistentes a Lula e ao PT. Sua identidade religiosa apareceu, por exemplo, em conversas com senadores em busca de apoio, como mostrou a Folha de S.Paulo.

 

Ele também indicou ter visão conservadora sobre aborto e drogas, além de sinalizar que não será um opositor das emendas parlamentares –o principal mecanismo para deputados e senadores enviarem dinheiro para suas bases eleitorais.

 

A escolha de Lula contrariou a cúpula do Senado e marcou o distanciamento entre o governo federal e a Casa, que havia sido a principal fonte de apoio da gestão petista no Legislativo. Alcolumbre queria que o escolhido fosse o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

 

Messias é benquisto no mundo político. Senadores, porém, avaliam que ele dificilmente será aprovado para o cargo se não houver um ajuste prévio entre Lula e Alcolumbre. Logo após a indicação, o ministro argumentou com congressistas que não poderia ser penalizado por um desentendimento entre os presidentes da República e do Senado.

 

Em 2016, quando se tornou conhecido nacionalmente, Messias era subchefe para Assuntos Jurídicos do Palácio do Planalto. Dilma o mandou levar até Lula o "termo de posse" como ministro da Casa Civil. Na ligação, ela disse ao petista que ele deveria usar o documento "em caso de necessidade".

 

Investigadores da Lava Jato interpretaram o diálogo como uma tentativa de Dilma de evitar que Lula fosse preso, dando a ele um alto cargo no governo. Uma decisão do STF impediu que o petista comandasse o ministério.

 

A então presidente estava fanha, e pronunciou o nome de Messias como "Bessias" na ligação. Adversários do PT adotaram o apelido. A forma como Lula se despediu de Dilma, "tchau, querida", virou uma espécie de slogan da campanha de opositores pelo impeachment, consumado em agosto de 2016.

 

No mês seguinte à divulgação do áudio, o então juiz responsável pela Lava Jato, Sergio Moro, hoje senador pelo União Brasil do Paraná, pediu desculpas ao STF por ter tornado a gravação pública mesmo tendo o material sido produzido depois de uma ordem judicial para que o grampo fosse encerrado.

 

Lula seria preso em 2018, solto em 2019, e eleito presidente da República novamente em 2022 depois de uma série de vitórias judiciais.

 

Messias continuou próximo do grupo político do petista nos anos seguintes à queda de Dilma. Em 2022, participou da equipe de transição que preparou Lula e seus auxiliares para assumir o poder no início de 2023. Foi anunciado como advogado-geral da União pelo à época presidente eleito dias antes da posse.

 

"[Anuncio] o companheiro advogado-geral da União, o companheiro Jorge Messias, que era tratado de Jorge Bessias aqui", disse Lula em 22 de dezembro de 2022, quando divulgou quem comandaria a AGU (Advocacia-Geral da União).

 

O ministro se consolidou um dos auxiliares mais próximos do presidente da República nos anos seguintes.

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