Museu na 4ª CIA Palácio
A história do 1º Batalhão da Polícia Militar de Mato Grosso – Batalhão Daniel de Queiroz, em Cuiabá, se confunde com a trajetória da Capital, que completa 307 anos nesta quarta-feira (8). Considerada o berço da corporação no Estado, a unidade acompanha, há mais de um século, a formação e o crescimento da cidade.

Localizado na Avenida XV de Novembro, no bairro Porto, o prédio de estilo neoclássico, hoje com a fachada tombada como patrimônio histórico estadual, foi construído em 1882 e, antes de abrigar o batalhão, funcionou como o antigo Laboratório Pirotécnico Militar.
Segundo o historiador Aníbal Alencastro, antes de ocupar o endereço atual, em 1919, a unidade, fundada em 1901, funcionou na Avenida Treze de Junho, ao lado da Praça Ipiranga, onde hoje está o Ganha Tempo.
“A segurança foi melhorando e, com o aumento dos soldados, foi preciso ampliar o quartel. O lugar foi feito para confeccionar bala de canhão e projéteis, mas, com o fim da Guerra do Paraguai, a Polícia Militar se acomodou naquele prédio e está lá até hoje”, afirmou.
O comandante do batalhão, tenente-coronel Victor Prado, destacou o peso histórico da unidade não apenas para a Polícia Militar, mas para todo o Estado.
“É o batalhão embrião de todo serviço policial militar. Por ser centenário, tem um valor enorme para a sociedade mato-grossense, não só no policiamento, mas como guardião da história. Não podemos deixar isso cair no esquecimento”, afirmou.
Yasmin Silva/MidiaNews
O historiador Aníbal Alencastro, que falou sobre o início da Polícia Militar
Homens do Mato
Foi em 1835 que surgiu a necessidade de criar um corpo oficial de Segurança Pública em Cuiabá, à época sob o nome “Homens do Mato”. No mesmo ano, a cidade foi elevada à condição de Capital por meio de ofício assinado pelo então presidente da Província, Antônio Pedro de Alencastro.
“Com a mudança da Capital, foram criadas diversas repartições, e uma delas foi justamente a Polícia Militar, que naquela época tinha esse nome. A Lei nº 30, de 5 de setembro de 1835, foi aprovada pela Assembleia Legislativa Provincial”, explicou o historiador.
Segundo ele, o grupo era responsável pela manutenção da ordem e pela atuação junto à população civil. À época, uma de suas principais funções era capturar escravizados fugitivos, dando origem ao nome, em referência aos “capitães do mato”.
Ao longo do século XIX, a corporação foi ganhando forma e ampliando suas funções. Atuou tanto na manutenção da ordem quanto em conflitos, como a Guerra do Paraguai, quando policiais foram convocados para reforçar o efetivo do Exército.
“Na época da guerra, Corumbá estava sob domínio paraguaio, e a Polícia Militar ajudou na retomada da cidade. Foi formado o batalhão dos Voluntários da Pátria, que hoje dá nome a uma rua”, contou Alencastro.
Com o crescimento de Cuiabá, a atuação da Polícia Militar se tornou mais estruturada, acompanhando novas demandas urbanas. O aumento da frota de veículos levou à criação da Inspetoria de Trânsito e ao recrutamento de guardas civis para organizar o fluxo.
Posteriormente, em 1966, com a criação do Detran, a corporação passou a atuar diretamente na área, inicialmente com um pelotão e, depois, com uma companhia dedicada.
Nesse contexto, o 1º Batalhão, que leva o nome do 1º tenente Daniel Ramos de Queiroz, em homenagem à sua trajetória e legado de disciplina e liderança, se consolidou como a primeira unidade da Polícia Militar no Estado.
“Servir no 1º Batalhão tem uma mística, um sentimento de pertencimento que marca todos que passam por aqui”, afirmou o comandante Victor Prado.
O 1º Batalhão
Atualmente subordinado ao 1º Comando Regional, o Batalhão Daniel de Queiroz segue como peça central na Segurança Pública da Capital. A unidade atende 23 bairros de Cuiabá, em uma área de 19,14 km², onde vivem mais de 85 mil pessoas.
A atuação é distribuída entre três companhias: a 2ª Cia PM (Base Lixeira), a 3ª Cia PM (Base Beira Rio) e a 4ª Cia PM (Base UFMT).

A reportagem do MidiaNews visitou o 1º Batalhão e pôde observar como história e tecnologia convivem no dia a dia da corporação.
Logo na entrada, chama atenção a fachada tombada e o gradil, parcialmente formado por canos de carabinas. Parte da estrutura original é preservada e abriga espaços como a sala do comando e o setor de videomonitoramento.
Por meio de parceria com o programa Vigia Mais MT, é possível acompanhar, em tempo real, imagens de toda a área atendida, com mais de 300 câmeras instaladas. Segundo o comandante, a UFMT aderiu ao programa e se tornou um dos campus mais monitorados do país.
Ao fundo do pátio de formatura Coronel Adarildo Irineu de Moraes Costa, um dos prédios passa por reforma, passando por uma modernização sem descaracterizar a arquitetura histórica.
Outros espaços incluem o refeitório — hoje utilizado pelo setor administrativo — e a sala do Grêmio Recreativo e Esportivo Guardião Centenário, responsável por viabilizar ações sociais como o projeto 1º BPM Marcial.
De acordo com a tenente Isabelly Costa, comandante da 2ª Companhia, o trabalho da Polícia Militar vai além do policiamento ostensivo.
Com cerca de 240 alunos, o projeto oferece aulas de karatê, jiu-jitsu e judô, mantidas por meio de doações, emendas e parcerias, como a do Sesc.
“Tivemos, só em 2026, 84 medalhistas. A finalidade não é, necessariamente, produzir atletas, e sim cidadãos”, afirmou a tenente.
Segundo ela, as artes marciais ensinam disciplina e controle às crianças que são também valores da Polícia Militar. Para participar basta entrar em contato com o batalhão e verificar a disponibilidade de vagas em cada modalidade.
Corpo Musical
Com 134 anos de história, o Corpo Musical da Polícia Militar de Mato Grosso é a unidade mais antiga da corporação e uma das mais simbólicas.
Criada inicialmente para encorajar tropas e participar de cerimônias militares, a banda atravessou gerações e hoje exerce também um importante papel social.
Sediado no 1º Batalhão e subordinado à Coordenadoria de Comunicação Social e Marketing Institucional (CCSMI), o grupo realiza apresentações em eventos oficiais, hospitais, abrigos e municípios do interior.
Yasmin Silva/MidiaNews
O comandante do batalhão, tenente-coronel Victor Prado
O subtenente Claudiney Neves, há 22 anos no Corpo Musical, define a unidade como o “cartão de visita” da corporação.
“A gente aproxima a Polícia Militar da sociedade sem associar à ocorrência. Às vezes, somos o único vetor de entretenimento em cidades do interior”, disse.
Com cerca de 450 apresentações por ano, o grupo ganhou destaque nacional durante a pandemia, quando vídeos de apresentações em unidades de saúde chegaram a alcançar até 12 milhões de visualizações.
Tamanha é a tradição do Corpo Musical, que ele foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial de Mato Grosso pela lei nº 10.414, de 16 de março de 2016.
Volta ao passado
Idealizado em 1986 pelo comandante coronel João Evangelista do Nascimento, o Museu da Polícia Militar começou a ser formado a partir da coleta de peças e documentos históricos, em sua maioria doados por policiais.
A iniciativa foi oficializada em 1999, mas só ganhou sede em 2004, no próprio 1º Batalhão. O espaço foi batizado em homenagem ao coronel Ubaldo Monteiro da Silva.
Anos depois, o acervo foi transferido para o Comando Geral e, posteriormente, para a Companhia Palácio, onde parte ficou exposta e parte em reserva técnica.
Em dezembro de 2025, os itens retornaram ao 1º Batalhão, que aguarda a conclusão das reformas para reabrir o museu ao público. Atualmente, parte do acervo está em exposição temporária itinerante na Cia Palácio.
Yasmin Silva/MidiaNews
A tenente Isabelly Costa, comandante da 2ª Companhia
Entre os objetos estão armas históricas, documentos, fardas, viaturas antigas e equipamentos do S.A.R.A, grupo operacional de elite que atuou em Cuiabá e Várzea Grande, principalmente na década de 1990.
“O 1° Batalhão foi o berço de todas as unidades especiais. Tudo veio daqui”, afirmou a tenente Isabelly Costa.
Olho no futuro
O comandante Victor Prado destacou que o 1º Batalhão alia tradição e modernização. Segundo ele, a atuação tem evoluído com mais planejamento, coordenação e alinhamento às políticas de Segurança Pública.
Entre os avanços estão investimentos em viaturas, armamentos, capacitação e programas de valorização profissional, que têm impactado diretamente a motivação da tropa.
Para ele, o batalhão carrega a responsabilidade de preservar essa história enquanto avança tecnologicamente e se aproxima da população.
“O 1º Batalhão não é apenas da Polícia Militar, é um patrimônio histórico da sociedade mato-grossense e a gente fica muito feliz por poder fazer parte dessa história”, disse o comandante.
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