Cemitério Nossa Senhora da Piedade

“O cemitério preserva a história. A história de Cuiabá hoje também passa por aqui. Quando se fala, por exemplo, do historiador Rubens de Mendonça, ele está aqui, assim como outras personalidades. Não tem como falar de Cuiabá sem falar do Cemitério da Piedade”, afirmou Sales Lourenço, gerente administrativo da empresa responsável pela gestão do espaço.
A data exata da fundação do cemitério é imprecisa, com pesquisas apontando a inauguração oficial entre 1863 e 1864, em uma área conhecida como Chácara do Albino. A medida, embora motivada por questões sanitárias, não foi bem aceita pela população da época, que desejava manter os sepultamentos nas igrejas.
Figuras históricas
Victor Ostetti/MidiaNews
Túmulo do ex-governador de Mato Grosso, Dante de Oliveira
Apesar da resistência inicial, o cemitério foi, aos poucos, sendo incorporado à cultura cuiabana.
Atualmente, com cerca de 4 mil túmulos e jazigos, distribuídos em uma área de aproximadamente 18 mil metros quadrados, o espaço abriga personalidades importantes para a história de Cuiabá e de Mato Grosso.
Entre elas está Dante de Oliveira, engenheiro civil e político que marcou a história do país ao relatar a emenda constitucional que propunha o restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República, dando origem ao movimento Diretas Já. Posteriormente, foi governador de Mato Grosso e prefeito de Cuiabá. Ele faleceu em 6 de julho de 2006.
Outro nome de destaque é Augusto Leverger, militar franco-brasileiro considerado herói da Guerra do Paraguai. Ele recebeu o título de Barão de Melgaço e foi presidente da Província de Mato Grosso, além de atuar como escritor, historiador e geógrafo. Faleceu em 14 de janeiro de 1880.
O historiador Estevão de Mendonça também está entre os sepultados. Ele foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, em 1919, e do Centro Mato-Grossense de Letras, em 1921. No cemitério também está sepultado seu filho, Rubens de Mendonça, poeta, historiador e jornalista, considerado um dos maiores nomes da historiografia mato-grossense.
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Túmulo do Barão de Melgaço
Além das figuras históricas, o local abriga personalidades populares, como Liu Arruda, que marcou o humor mato-grossense com personagens que ajudaram a construir a identidade cultural cuiabana. O humorista faleceu em 1999.
Outro nome conhecido e que retrata o impacto da religião na Capital é o do menino Falcãozinho, que morreu em 1971, aos 7 anos, vítima de câncer, e é considerado por muitos como uma criança milagrosa.
O Barão de Diamantino, Luiz Cerqueira Caldas, também está sepultado no local desde 1892.
Amor para além da vida
O administrador do cemitério, Sales Lourenço, contou que, após a morte da esposa, em 2004, Renato passou a frequentar diariamente o local. Ele se sentava em uma cadeira em frente ao túmulo da companheira para conversar, chorar e passar horas em silêncio. Ao falecer, em 2007, deixou uma história marcada por um amor que ultrapassou o tempo e o espaço.
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Túmulo e cadeira da família Calhão
“Esse senhor, quando a esposa faleceu, vinha todos os dias e ficava aqui. Ele colocou essa cadeira e permanecia observando, fazendo suas orações, meditando em frente ao túmulo”, relatou.
Após a morte de Renato, a cadeira permaneceu fixada no local, tornando-se um ponto de referência dentro do cemitério.
Outro túmulo destacado pelo gestor é o do cirurgião-dentista Vasco. Após sua morte, em 1978, o filho deixou no local a antiga placa profissional utilizada pelo pai, como forma de homenagem e memória.
Os nomes da história, da cultura e da política cuiabana representam apenas uma parte da importância do Cemitério da Piedade, que se consolida como um verdadeiro espaço de preservação da memória e das histórias que ajudaram a construir a identidade da Capital mato-grossense.
Para Sales Lourenço, o local pode ser considerado um verdadeiro museu a céu aberto, não apenas pelos personagens históricos, mas também pelos elementos culturais preservados.
“A gente considera o Cemitério da Piedade hoje um museu a céu aberto. Ele é bastante visitado. Escolas e faculdades realizam trabalhos aqui sobre a história de Cuiabá. A história da cidade passa por este espaço”, afirmou.
Além das personalidades, elementos arquitetônicos e materiais presentes nos túmulos também reforçam a importância da preservação do local, como o mausoléu da família Orlando, a capela e a fachada do cemitério, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Victor Ostetti/MidiaNews
Mausoléu da familia Orlando
Apesar da relevância histórica, o gestor destacou que o cemitério vem perdendo visitantes ao longo dos anos.
“O que a gente percebe com o passar do tempo é que o cemitério começa a ser esquecido. As pessoas que tinham esse costume eram mais antigas. Com o passar das gerações, filhos e netos já não mantêm tanto o hábito de visitar, acender uma vela e estar presentes”, ressaltou.
Atualidade
Andrelina Braz/MidiaNews
Sales Lourenço, gerente administrativo da empresa responsável pela gestão do espaço.
Atualmente, o cemitério realiza sepultamentos apenas para famílias que já possuem túmulos e jazigos no local, não havendo mais disponibilidade para novas aquisições.
Segundo o gestor, um dos motivos para a paralisação é o crescimento desordenado ao longo dos anos, que comprometeu a organização do espaço.
“As pessoas ocupavam os corredores, e não havia esse cuidado. Hoje, não há mais como reorganizar, pois não podemos interferir nos túmulos já existentes. O nosso trabalho é preservar o que já está aqui”, explicou.
Localizado no Centro da Capital, o cemitério também passou por adequações para garantir a ordem e a segurança, como a definição de horários de visitação e a instalação de cercas elétricas para evitar invasões e depredações.
Veja vídeo:
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