Cuiabá, Quarta-Feira, 8 de Abril de 2026
“PATRIMÔNIOS DESTRUÍDOS”; VÍDEOS
08.04.2026 | 09h02 Tamanho do texto A- A+

Historiador: "Centro era uma coisa linda, mas foi tudo demolido"

No aniversário de Cuiabá, Aníbal critica descaso e alerta para perda da identidade da Capital

Montagem/MidiaNews

O historiador Aníbal Alencastro (detalhe) que falou sobre Cuiabá, que completou 307 anos

O historiador Aníbal Alencastro (detalhe) que falou sobre Cuiabá, que completou 307 anos

LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

No dia em que Cuiabá completa 307 anos, a data é de celebração, mas também de alerta, em meio ao abandono e às ruínas do Centro Histórico.

Você vê todas as cidades antigas, como Roma, na Itália, mantêm os patrimônios históricos, porque fazem parte da história da cidade. E aqui não, eles demolem

 

Em entrevista ao MidiaNews, o historiador Aníbal Alencastro afirmou que o patrimônio histórico cuiabano vem sendo, ao longo das décadas, negligenciado, comprometendo a memória coletiva da cidade.

 

Segundo ele, o Centro Histórico, que já foi marcado por casarões, ruas de pedra e construções em estilo barroco e neoclássico, hoje guarda apenas vestígios do que um dia foi considerado um dos cenários mais bonitos da Capital. “Era uma coisa linda, mas foi tudo demolido”, afirmou.

 

Na avaliação do historiador, a falta de investimento e a ausência de políticas públicas eficazes contribuíram para a descaracterização de espaços históricos e simbólicos, muitos deles ligados diretamente à formação de Cuiabá e à expansão do território brasileiro durante o ciclo do ouro.

 

Ele criticou o abandono de prédios e pontos históricos que, mesmo tombados, seguem sem manutenção adequada, correndo risco de desabamento ou perdendo sua função original diante do avanço urbano.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Anibal Alencastro

O historiador Aníbal Alencastro, que falou sobre Cuiabá

Para Aníbal, Cuiabá corre o risco de se tornar uma cidade moderna, porém sem memória. 

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - Como o senhor avalia a preservação do patrimônio histórico em Cuiabá ao longo dos anos?

 

Aníbal Alencastro - Você vê todas as cidades antigas, como Roma, na Itália, mantêm os patrimônios históricos, porque fazem parte da história da cidade. E aqui não, eles demolem.

 

Aqui entrou um prefeito que autorizou a demolição da catedral, a matriz, que era um espetáculo no estilo barroco puro. Fizeram aquela coisa lá, que perdeu tudo. A matriz era bonita demais, uma relíquia. As pessoas que vinham pra cá, os viajantes, a admiravam.

 

Nossas ruas eram de calçamento de pedras e, hoje em dia, tudo é asfaltado. Me lembro, nos anos 60, quando chegaram essas empresas de asfalto, ficaram encantados com o centro histórico, que era todo de paralelepípedos. Nesse processo, vinham aqueles tratorzões que passavam rachando os prédios antigos. Isso não podia acontecer. Tinha que ser recuperado, porque a nossa história está ali. Nosso Centro Histórico tinha um monte de prédios antigos, era uma coisa linda, com balcões em estilo barroco. No entanto, foi tudo demolido e hoje restam poucos.

 

Esses dias, a casa da Gráfica Pepe caiu. Era um casarão tão bonito, em estilo puro neoclássico.

 

 

MidiaNews - Te doeu ver a notícia do risco de desabamento da Gráfica Pepe?

 

Aníbal Alencastro - Demais! E venho vendo outros casos. O primeiro correio, que foi fundado por Marechal Rondon, na rua Campo Grande, esquina com a Pedro Celestino, está com as paredes escoradas. Era um casarão muito bonito, que deveria ser preservado. No entanto, está caindo.

 

E assim vai indo a nossa história, ela está se acabando. A cidade está em evolução, com muita coisa moderna: eletricidade, televisão, tantas coisas boas que ajudam na educação do povo. Mas, quanto à história, os patrimônios estão sendo esquecidos.

 

A cidade está em evolução, com muita coisa moderna: eletricidade, televisão, tantas coisas boas que ajudam na educação do povo. Mas, quanto à história, os patrimônios estão sendo esquecidos

São 307 anos de história. Cuiabá foi importante porque, quando nasceu, praticamente o lado oeste do Brasil não existia. Quando se fez o Tratado de Tordesilhas, o Brasil seria basicamente aquela faixa do litoral; dali para dentro, pertencia aos espanhóis.

 

Quando os bandeirantes ultrapassaram essa linha e começaram a descobrir ouro aqui, foi um grande acontecimento. Havia muito ouro e a Coroa, preocupada em perder essa riqueza — especialmente a mina do Miguel Sutil, localizada onde hoje é o Morro do Rosário —, tomou providências. Miguel Sutil avisou ao rei que havia encontrado uma grande mina de ouro no lado ocidental.

 

A preocupação era tanta, por estarem em terras espanholas, que Dom Rodrigo César de Menezes, então governador da Capitania de São Paulo, veio com uma comitiva para fundar a Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá. A partir disso, foi necessário rever o Tratado de Tordesilhas e firmar o Tratado de Madri, que definiu os limites do Brasil. As minas de Cuiabá impulsionaram a expansão do território brasileiro. Se não fossem essas minas, não teríamos o mapa que temos hoje.

 

MidiaNews - Acredita que falta valorização da nossa própria história?

 

Aníbal Alencastro - Eu acho. Um dos maiores valores da nossa cidade é nossa história. Se você derrubar isso, vai ficar uma cidade moderna, mas sem identidade histórica.

 

Se você olhar cidades mais novas, como Sinop, por exemplo, praticamente não têm história, porque surgiram a partir dos anos 80. Já Cuiabá nasceu no século XVIII.

 

MidiaNews - O que acha que pode ser feito para mudar isso?

 

Aníbal Alencastro - Existe um órgão que é responsável por isso, que é o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), um órgão federal. Acho que deveria haver também um Iphan estadual, com autonomia e recursos para atuar.

 

O Iphan federal tem conhecimento da história, mas não tem dinheiro nem força política suficiente. Deveria ter equipes com arquitetos e operários especializados para restaurar a arquitetura antiga.

 

 

MidiaNews - Foi divulgado que a Gráfica Pepe seria parcialmente demolida. Posteriormente, a Prefeitura informou que a fachada seria preservada. Como avalia esse movimento?

 

Aníbal Alencastro - Eles esperam cair e depois querem preservar uma fotografia? Não tem mais jeito. Acho que, antes de cair, tem que preservar, mandar uma equipe especializada para fazer reparos e sustentar o prédio.

 

No caso da igreja de São Benedito, que estava afundando, um arquiteto amigo meu fez escavações sob as paredes e preencheu com concreto, estabilizando a estrutura. A igreja está de pé até hoje. Isso aconteceu no governo do Blairo Maggi, que preservou muitos prédios históricos, como o Palácio da Instrução. Outros governantes não deram atenção a isso. Falta interesse político.

 

É preciso criar um chamariz para o público: iluminar, colocar policiamento dia e noite

MidiaNews - O centro histórico enfrenta uma debandada de comerciantes. Por que acha que isso está acontecendo e qual o impacto disso para a cidade?

 

Aníbal Alencastro - É preciso criar um chamariz para o público: iluminar, colocar policiamento dia e noite. Hoje, não tem nem iluminação adequada. O que acontece? O espaço é ocupado por usuários de drogas à noite. É preciso revitalizar essas ruas, melhorar a iluminação e ocupar os espaços com atividades, como feiras artesanais. O pessoal da Praça Ipiranga poderia ser levado para lá, ocupando o espaço e atraindo movimento. Isso ajuda a afastar a criminalidade.

 

Em outras cidades isso funciona. Aqui, o centro está sendo abandonado: sem policiamento, sem luz, com casarões caindo. Isso é uma perda enorme, é a nossa história indo embora.

 

MidiaNews - Um exemplo disso também é o Morro da Luz?

 

Aníbal Alencastro - Exatamente. Você já viu o brasão de Cuiabá? Tem um morro salpicado de ouro, que representa o Morro da Luz. Foi ali que Miguel Sutil encontrou ouro.

 

Quando ele comunicou a descoberta, esse símbolo passou a representar a cidade. Mas hoje muita gente nem sabe disso, não valoriza. O morro é tombado, não pode ser modificado, mas está cheio de construções ao redor e perdeu sua função. Falta policiamento, iluminação, cuidado.

 

 

MidiaNews - O senhor falou que o morro perdeu a função. Qual seria essa função e como ela pode ser retomada?

 

Aníbal Alencastro - Ele deveria ser ocupado por algum órgão público, com trilhas para caminhada, funcionando como um museu a céu aberto, bem iluminado e policiado.

 

Poderia ter um memorial, porque foi ali que nasceu Cuiabá, com referências a Miguel Sutil, aos indígenas e aos negros que participaram desse processo. É um mirante bonito, com potencial turístico.

 

Daria até para criar espaços como cafés ou bares administrados pelo próprio poder público e concedidos à iniciativa privada. Isso atrairia as pessoas e ajudaria a preservar o local.

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