A história da família que mantém vivo bloco de Carnaval em Cuiabá
les representam o Bloco Império de Casa Nova e se desdobram para manter vivo o brilho do Carnaval
Victor Ostetti/MidiaNews
Victor Hugo e Berenice Aguiar integram a família que mantém bloco Império de Casa Nova
LARISSA AZEVEDO
DA REDAÇÃO
Para muitos cuiabanos, o Carnaval é tempo de festa, música e ruas tomadas por cores e batuques. Para a família Aguiar, porém, ele vai além da folia: é herança afetiva, memória compartilhada e identidade construída ao longo de gerações. Um legado que atravessa o tempo e mantém viva, ano após ano, a paixão pela cultura carnavalesca.
E eu comecei a ter interesse nos desenhos, e a desenhar as fantasias, desde pequeno para praticar, e a partir daí, eu já senti que eu tinha vocação pra estar no meio do Carnaval
Berenice Aguiar, fundadora do Bloco Império de Casa Nova, e seu neto Victor Hugo Aguiar, atual carnavalesco, explicaram ao MidiaNews como a família, hoje formada por cinco integrantes diretamente envolvidos na organização, se desdobra para manter vivo o brilho do Carnaval em Cuiabá.
A história começou ainda na infância de Berenice. Aos 10 anos, ela já participava do tradicional Carnaval cuiabano da década de 1960, quando os Cordões Carnavalescos desfilavam no Centro ao Porto, reunindo moradores de toda a cidade.
Encantada pela magia da festa, Berenice mergulhou de vez na cultura carnavalesca.
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“Era muito bonito. Quando eu era criança, ainda desfilei no Sempre Vivinha, que era cordão, pegava todas as pessoas, as crianças, adultos, todos ao redor do Porto, e nós saíamos, desfilávamos na Avenida Mato Grosso, na Getúlio Vargas. Esse era um Carnaval bonito, lindo de se ver”, afirmou.
Com o surgimento das primeiras escolas de samba em Cuiabá, Berenice acompanhou a evolução da festa e continuou envolvida com blocos e agremiações da região, criando os filhos dentro dessa tradição cultural.
Foi nesse ambiente que cresceu a terceira geração da família, representada por Victor Hugo.
Victor Ostetti/MidiaNews
Berenice, fundadora do Bloco Império de Casa Nova, e Victor Hugo, seu neto e o carnavalesco do Bloco
“Eu lembro da minha infância, quando todos os anos fazíamos parte de outro bloco e estávamos sempre envolvidos. Comecei a me interessar pelos desenhos e a criar as fantasias. Elas não eram usadas, mas eu já desenhava desde pequeno para praticar. Foi aí que percebi que tinha vocação para estar no meio do Carnaval”, explicou Victor Hugo.
Hoje, Victor Hugo ocupa a função de carnavalesco do Império de Casa Nova, sendo o idealizador e diretor artístico responsável pela identidade visual e temática anual do bloco.
O Império nasceu como escola de samba, fundada em 2008 por Berenice e seu falecido esposo, José Augusto. Em 2015, transformou-se em bloco carnavalesco e, desde então, passou a ser conduzido pela família, que se empenha para mantê-lo presente e ativo na cultura cuiabana.
O bloco foi campeão do Carnaval 2024 e 2025 de Cuiabá.
Segundo Victor Hugo, há muitos desafios para se manter no Carnaval cuiabano, e a sua família só consegue seguir em frente por três motivos: “coragem, amor e determinação”.
Preparação e desafios
Colocar o bloco nas ruas exige noites mal dormidas e dedicação intensa. São cinco pessoas que sustentam diretamente o projeto.
Além de Victor Hugo e Berenice, que, além de diretora, assume múltiplas funções, participam seus três filhos: Janderson, mestre de bateria; Gilmara, mãe do carnavalesco; e Jane Márcia, ambas aderecistas.
O planejamento começa cedo. Já em março, quase um ano antes do próximo Carnaval, quando a família inicia a escolha do tema.
“Geralmente, selecionamos três ou quatro propostas que podem se tornar o tema principal. Depois, fazemos uma reunião e uma votação para escolher qual é o melhor e o mais apropriado para aquele momento. O mais votado é o escolhido. A partir daí, como carnavalesco, começo a pesquisar o que vamos trabalhar nas fantasias, o que é mais viável e o que pode chamar mais atenção”, explicou Victor Hugo.
A gente leva porque a gente gosta, porque é algo que está na nossa família há muito tempo, porque aqui em Cuiabá só faz Carnaval realmente quem ama
À medida que o evento se aproxima, a rotina se intensifica com ensaios da bateria, montagem das fantasias e organização da logística do desfile.
“A todo momento, a gente está tentando se reinventar, trazer coisas novas pra quem está assistindo, mostrar a grandiosidade do nosso Carnaval. Não é porque aqui é Cuiabá que não tem coisa bonita. Tem muita gente que é daqui mesmo, mas não valoriza, fala, ‘ah, aqui não tem nada que presta’, e curte o Carnaval em outras cidades. E a gente preza muito pelo que a população vai lá ver”, afirmou.
Nos dias que antecedem a festa, as madrugadas tornam-se rotina. A família concilia o trabalho formal com os preparativos, já que, segundo o carnavalesco, não é possível viver exclusivamente do Carnaval na capital.
“Levamos adiante porque gostamos, porque é algo que está na nossa família há muito tempo. Em Cuiabá, só faz Carnaval de verdade quem ama. São muitos desafios; há momentos em que você acha que não vai conseguir dar conta de tudo, mas a gente sempre consegue”, disse, ao mencionar também a falta de incentivo.
“As pessoas precisam valorizar mais o Carnaval e fortalecer a nossa cultura, porque não é fácil. Muita gente diz que Carnaval é só bagunça, mas não é. Existe a parte da festa, sim, mas cabe a cada um conhecer mais sobre o Carnaval e saber diferenciar um cordão, um bloco de sujo, um bloco de enredo, trio elétrico e escola de samba, porque muita gente não sabe a diferença”, complementou.
Apesar das dificuldades, Victor Hugo destacou que ainda há quem valorize a festa, e é esse público que mantém a tradição viva.
Victor Ostetti/MidiaNews
Berenice sempre esteve ligada ao Carnaval de Cuiabá, e fundou, com seu falecido esposo, o Império de Casa Nova
““Eu acho que o Carnaval daqui é muito caloroso, animado, independentemente das pessoas que não apoiam a nossa cultura. Aqueles que estão inseridos nesse meio sempre dão o máximo, estão empenhados em mostrar o melhor e em fazer bonito. Creio que essa garra e essa determinação são o que diferenciam o nosso Carnaval de outros lugares”, afirmou.
O esforço, segundo ele, não é exclusivo do Império de Casa Nova, mas de todos os blocos e escolas de samba da cidade. O objetivo maior é conquistar e envolver o público.
“Porque, se o público não se interessar, não há Carnaval. É uma festa calorosa, que precisa de gente, de presença, de corpos na avenida”, disse.
Ao final, o carnavalesco resumiu o sentimento que move a família.
“O que mais emociona é ver que tudo aquilo que tivemos tanto trabalho para construir aparece ali, na avenida, brilhando, com todo mundo admirando o que fizemos. Para mim, essa é a recompensa: receber o reconhecimento das pessoas diante de todo o esforço e das dificuldades que enfrentamos para colocar o bloco na avenida”, finalizou.
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