Suzana Hirooka
O Museu de História Natural de Mato Grosso retomou as atividades no fim de janeiro, após quase cinco meses fechado por entraves burocráticos, e já registra forte adesão do público. Em apenas duas semanas, mais de mil visitantes passaram pela Casa Dom Aquino, imóvel tombado como patrimônio histórico que abriga a instituição.

Localizado às margens da Avenida Beira Rio, a cerca de 140 metros do Rio Cuiabá, o museu foi inaugurado em dezembro de 2006. Sua história, no entanto, começou quase uma década antes, em 1998, com a criação do Instituto Ecoss (Ecossistemas e Populações Tradicionais).
Segundo a diretora do museu, Suzana Hirooka, de 61 anos, após convênio firmado à época entre o instituto e a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer, a Casa Dom Aquino passou a abrigar o acervo arqueológico e paleontológico do Estado. O objetivo era evitar que as peças fossem levadas para outros estados e até para o exterior.
Foi somente oito anos depois, por meio de um contrato de gestão, que o espaço conquistou oficialmente o status de museu.
“Hoje, o espaço não é apenas um ‘depósito’ de material que é patrimônio de Mato Grosso. É um espaço de lazer, de cultura. Um museu tem a função de disseminar a ciência e transmitir a cultura regional, tanto para a população em geral quanto para o turista”, afirmou.
Atualmente, o local recebe cerca de 30 mil visitantes por ano, em sua maioria alunos de escolas públicas de Cuiabá e de outros municípios. São quase 8 mil metros quadrados de área verde, com parquinho, jardim e cafeteria, que atraem famílias inteiras.
Victor Ostetti/MidiaNews
Suzana Hirooka, diretora do Museu de História Natural de Mato Grosso
“Também temos a missão de oferecer lazer ao mato-grossense, para que ele possa vir, trazer seus filhos, a família, e usufruir, em Cuiabá, de um ambiente tão próximo da natureza, com pássaros, laguinho e muita cultura”, acrescentou.
O arqueólogo e educador museal Wilson Junior Ferreira dos Santos, de 25 anos, que tem sua pesquisa de mestrado voltada ao acervo do museu, destacou a importância da instituição para o Estado.
“Na parte de paleontologia, o acervo de megafauna e de dinossauros é o ponto-chave do museu. Acho que toda pessoa sonha em ver dinossauros e descobrir que o Mato Grosso também tem fósseis desse tipo é um ganho maravilhoso, sobretudo para as crianças”, afirmou.
“Já na parte arqueológica, o museu tem um acervo muito vasto de todo o Estado. Destaco, especialmente, a coleção da Casa Dom Aquino, com peças do século XIX muito bem preservadas, algo raro, sobretudo em áreas urbanas”, completou.
Wilson se referiu acima às mais de 3 mil peças retiradas, no início dos anos 2000, do próprio quintal da Casa Dom Aquino. Parte desse material integra a exposição permanente da Casa.
O educador ressaltou ainda o papel da instituição no processo de formação de crianças e adolescentes.
“A maior parte dos visitantes de escolas públicas vem do ensino fundamental. Estamos falando de um momento decisivo, que é o estabelecimento do interesse pelos estudos e pela ciência. Os professores veem no museu a possibilidade de ilustrar conteúdos que, em sala de aula, seriam impossíveis”, explicou.
Segundo Suzana, a exposição permanente permite que os estudantes acompanhem a evolução da vida para além dos livros didáticos.
“Eles podem vir aqui e ver tudo ao vivo e a cores. As réplicas fidedignas de dinossauros que viveram em Chapada dos Guimarães atraem muitas crianças e visitantes”, disse.
Victor Ostetti/MidiaNews
Wilson Junior Ferreira dos Santos, arqueólogo e educador museal
“Casa predestinada”
A sede do museu foi construída em 1842 pela família de Joaquim Duarte Murtinho e é conhecida na historiografia como a “Casa Predestinada”. Além de ter sido moradia do estadista, o imóvel também abrigou o clérigo, poeta e político Dom Francisco de Aquino.
“Quem construiu essa casa foi a família de Joaquim Murtinho, que foi profundamente afetada pela epidemia de varíola em Cuiabá. Com a morte da mãe e dos irmãos, eles foram embora e venderam a casa para a família de Dom Aquino. Por isso, ela é conhecida como a casa predestinada, por ter abrigado duas personalidades importantes da história de Mato Grosso”, explicou Suzana.
Ao longo dos anos, o imóvel também funcionou como fábrica de sabão e foi sede da Associação Brasileira dos Funcionários do Banco do Brasil. Um dos períodos mais críticos para a propriedade foi durante a enchente de 1974.
“Na grande cheia, isso aqui ficou embaixo d’água. Só o telhado ficou para fora. A casa ficou abandonada entre 1970 e 1990, em situação quase de ruínas. Houve invasões e algumas famílias chegaram a morar aqui”, relatou.
No início da década de 1990, o Estado realocou essas famílias e iniciou o processo de restauração da propriedade. À época, existiam apenas a casa e a área verde. Com o passar dos anos, o acervo cresceu até consolidar o museu.
Acervo
Suzana destacou o alto grau de preservação do acervo, que conta, segundo ela, praticamente toda a história da vida na Terra.
“Temos fósseis de bilhões de anos, da fauna da última Era do Gelo, que a criançada conhece como o período do bicho-preguiça gigante. Há referências em filmes, como os do Walt Disney, que mostram o mastodonte e o mamute. Temos fósseis com uma qualidade muito boa do tatu gigante, que era quase do tamanho de um Fusca”, contou.
Victor Ostetti/MidiaNews
Suzana Hirooka mostrando acervo da última Era do Gelo
A coleção reúne ossos completos e forma uma das mais importantes coleções pleistocênicas do país.
O museu também abriga fósseis encontrados na Chapada dos Guimarães, de um período em que a região esteve submersa pelo mar há cerca de 300 milhões de anos. O acervo inclui réplicas de dinossauros que viveram na área, produzidas a partir de fragmentos como dentes e vértebras.
Entre as histórias mais curiosas contadas por Suzana estão descobertas arqueológicas no interior do Estado, como uma urna funerária encontrada atrás de uma cachoeira, na região de Água Boa.
No local, foram identificadas cinzas humanas e vasilhames possivelmente usados como oferendas, evidenciando práticas de cremação na pré-história mato-grossense.
“É muito interessante observar os aspectos dos sepultamentos, que são expressões culturais dos povos. Em Mato Grosso, encontramos práticas bastante diferentes”, afirmou.
Outro achado citado foi o de um crânio enterrado dentro de uma antiga moradia, acondicionado em um recipiente, possivelmente ligado a rituais de memória e ancestralidade.
“O crânio estava enterrado como se o globo ocular ainda estivesse na boca do vasilhame para participar, talvez, da família. Existem pesquisas na África que indicam o costume de carregar o crânio de sábios ou anciãos e ficar alisando para absorver aquela sabedoria”, disse.
“São aspectos da cultura que só conseguimos conhecer por meio da arqueologia”, completou.
Além das exposições permanentes e temporárias, o museu abriga réplicas do homem pré-histórico, representações do período holoceno — correspondente aos últimos 10 mil anos — e um viveiro de mudas, responsável pela doação de milhares de plantas.
A instituição também desenvolve ações de educação ambiental e valorização dos ecossistemas. Entre os projetos futuros estão a criação de um laboratório para a reserva técnica, salas para oficinas e um auditório, além da implantação de exposições mais interativas, com salas dedicadas aos três principais ecossistemas de Mato Grosso, utilizando recursos audiovisuais, projeções holográficas e experiências em 3D.
“A ideia é ir além da exposição da peça física e criar uma imersão, como se a pessoa se teletransportasse para a floresta amazônica ou para o Pantanal”, explicou.
O Museu de História Natural funciona de terça-feira a domingo, das 8h às 18h.
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