Henrique Maluf mostra o CD Rasqueado Carcerense
Desde criança, o artista Henrique Maluf viu, nas ruas de Cáceres, a influência da música pantaneira tomar conta da cidade. Em festas de santo ou por meio dos vinis de música paraguaia na casa de sua avó, ele construiu sua base musical, que hoje leva ao mundo por meio do projeto Fronteira Pantaneira, no qual apresenta músicas do tradicional rasqueado cacerense a países da Europa, Ásia e América.

A turnê apresentará a Coletânea Rasqueado Cacerense, álbum lançado por ele em 2023, que reúne músicas tradicionais do rasqueado de fronteira.
“Esse disco é um processo de salvaguarda, é um processo de manutenção e também de renovação, porque esse trabalho é um trabalho de world music. World music não significa apenas música do mundo, mas um processo de transformar algo regional em algo global”, disse o artista em entrevista ao MidiaNews.
Formado em Música pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Henrique ressaltou que a conexão com a música tradicional cacerense nasceu ainda durante a graduação, quando buscava um objeto de estudo para o seu TCC. Com o tempo, a identidade cultural foi florescendo, e foi no rasqueado que ela se encontrou.
Victor Ostetti/MidiaNews
Henrique Maluf mostra o CD Rasqueado Cacerense
“Eu toquei samba, tive banda de rock, já toquei em casamento, formatura, boteco… mas, no final das contas, aquilo não tinha muito propósito artístico”, relatou.
Ele também lembrou de um conselho que recebeu de uma professora, que o questionou sobre qual sentido o seu trabalho tinha para ele.
“Essa provocação dela foi para que eu encontrasse algo que eu já vivia, banhado por essas lembranças. Então eu falei: ‘Eu preciso falar sobre a música cacerense, sobre o rasqueado de fronteira, rasqueado pantaneiro’”, declarou.
Do TCC, o rasqueado passou a ser tema de pesquisa no mestrado e, posteriormente, passou a permear sua vida profissional. O processo se materializou em um álbum com 13 músicas de rasqueado, entre clássicos paraguaios, cacerenses e composições próprias que buscam resgatar e preservar a identidade cultural do rasqueado cacerense, marcado pela serenidade e pela abordagem das belezas do cotidiano.
“É um processo árduo, importante, e para mim fica muito nítido que é algo como uma missão a ser cumprida. É uma forma de eu, Henrique, enquanto artista, pesquisador e pensador, contribuir de maneira significativa para que a nossa cultura atravesse ainda mais gerações”, afirmou.
Os rasqueados em Mato Grosso
Originado na região de fronteira com o Paraguai, Henrique explicou as nuances de cada tipo de rasqueado, que surgiu e tomou forma à medida que se espalhava ao longo do curso do Rio Paraguai, utilizado como via de comunicação e de troca de mercadorias.
“Esse processo, evidentemente, quando estávamos na fronteira, foi muito mais forte em Mato Grosso, quando o estado ainda era um só. Só que esse percurso da música vai seguindo o rio. A comunicação entre os estilos era o rio. Ela vai subindo: passa por Corumbá, chega a Cuiabá, continua em Aquidauana e chega a Cáceres”, explicou.
Segundo o pesquisador, dependendo da região por onde a música passava, novas características iam surgindo. Como Cuiabá era a Capital do Estado e uma região marcada pela corrida do ouro, o ritmo acabou se tornando mais intenso e estruturado.

“Essa influência encontra tessituras urbanas diferentes. Cuiabá, nos anos 30, era rica por causa da corrida do ouro. Então a cidade já tinha muitos migrantes. Quando essa música chega ali, encontra uma cidade cosmopolita, com músicos de sopro e pessoas que liam partitura. Por isso o rasqueado, nesse formato, começa instrumental. As primeiras bandas de rasqueado, como Os Cinco Morenos, começaram instrumentalmente, sem letra. E ele é tocado de uma forma relativamente simples, com três acordes e melodias mais lineares".
Já em Cáceres, Henrique explicou que, devido à influência de sanfoneiros e harpistas, o ritmo ficou mais marcado pela harmonia e por uma forma mais livre de execução.
“Isso desencadeou uma forma de compor diferente. Eu costumo dizer que a principal diferença é essa. O rasqueado cuiabano tinha muitos músicos, era mais fácil tocar em conjunto. Já o rasqueado de fronteira, o rasqueado pantaneiro, é sobre o Pantanal, sobre essas poucas informações do ambiente. Como você tem menos gente tocando, pode tocar de forma mais livre. O resultado musical acaba sendo mais amplo no rasqueado de fronteira, no rasqueado pantaneiro".
Hoje, a música de rasqueado passa por novas variações e formas de apresentação. Entre as maneiras de levar o estilo a novos públicos, Henrique encontrou no trabalho com orquestras regionais uma possibilidade de inovação.
O projeto tem ganhado cada vez mais destaque e rendeu ao artista a gravação do DVD “Fronteira Sinfônica”, em parceria com a Orquestra CirandaMundo.
“As novas gerações estão se afastando dessa música, mas cabe a nós encontrar novas formas de apresentá-la”, afirmou.
A expansão do estilo para o mundo
Hoje, a música tradicional também cruza continentes no contexto da globalização. Após o lançamento de seu álbum, o cuiabano realizou apresentações na Bolívia que lhe deram maior visibilidade. Pouco tempo depois, um novo convite o levou ao Japão, onde passou duas semanas apresentando e falando sobre a cultura mato-grossense.
“Fui ao Japão, levei a viola de cocho, mostrei a música pantaneira, participei de festivais e, na embaixada, recebi o título de embaixador da cultura pantaneira no Japão. Fiquei emocionado, não esperava isso".
Victor Ostetti/MidiaNews
O artista Henrique Maluf, que fará turnê na Europa, Ásia e América
Com o sucesso das apresentações, ele se prepara agora para uma nova jornada ao lado de seus colegas de trabalho. A partir do final de março, o grupo viajará para novos países na Europa, Ásia e América com uma nova turnê do projeto Fronteira Pantaneira.
“A Fronteira Pantaneira hoje é um espetáculo com cinco músicos, com direção musical e arranjos próprios, que flerta com jazz, pop e a poética pantaneira".
“Nos shows, conseguimos combinar tradição e linguagem universal, fazendo com que a música da terra seja ouvida no mundo todo”, acrescentou.
Ao retornar ao Brasil, Henrique deve se apresentar em festivais de música em Mato Grosso do Sul e realizar uma turnê regional por cidades de Mato Grosso.
Segundo ele, o objetivo é apresentar a música mato-grossense e pantaneira a novos públicos, destacando a importância e a história desse estilo musical para o Estado.
“Essa música do Mato Grosso está chegando a novos públicos, mostrando um Brasil profundo, um Brasil que o próprio brasileiro ainda precisa conhecer”, finalizou.
Veja algumas apresentações:
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