Cuiabá, Domingo, 1 de Fevereiro de 2026
DIA DA VISIBILIDADE TRANS
01.02.2026 | 08h12 Tamanho do texto A- A+

Ativista: queda no número de mortes em MT não reflete realidade

Daniella Veyga afirmou que muitos casos de violência sequer entram nas estatísticas no estado

Reprodução

Advogada e ativista Daniella Veyga apontou faltas de políticas públicas voltadas a segurança da população LGBT+

Advogada e ativista Daniella Veyga apontou faltas de políticas públicas voltadas a segurança da população LGBT+

ANDRELINA BRAZ
DA REDAÇÃO

Mato Grosso registrou queda de 62,5% no número de assassinatos de pessoas transexuais e travestis, segundo o Dossiê de Assassinatos e Violências contra a População Trans, publicado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) na última semana. 

 

Conforme o levantamento, que reuniu dados de violência registrados ao longo de 2025, Mato Grosso passou de oito homicídios de pessoas trans em 2024 para três casos em 2025.

 

Apesar da redução nos números, a advogada e ativista Daniella Veyga alerta que Mato Grosso ainda carece de políticas públicas efetivas para a proteção da população trans, em um contexto marcado pelo Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, que reforça a importância do debate sobre direitos, segurança e dignidade dessa população.

 

Sem políticas permanentes de prevenção, educação, segurança pública e inclusão social, a violência continua sendo tratada como exceção, quando é estrutural

"O Estado atua de forma tímida, reativa, desarticulada e conservadora. Sem políticas permanentes de prevenção, educação, segurança pública e inclusão social, a violência continua sendo tratada como exceção, quando, na verdade, é estrutural”, afirmou.

 

Segundo a advogada, além da violência física, pessoas trans enfrentam a transfobia estrutural e institucional, o que dificulta tanto a denúncia dos casos quanto o acesso a direitos no sistema de Justiça.

 

“Os principais obstáculos [para o enfrentamento da violência] são a transfobia institucional, o despreparo de policiais e servidores públicos e o medo de humilhação”, afirmou. 

 

De acordo com a ativista, fatores como a falta de capacitação de agentes públicos, a sensação de não serem levadas a sério e a inexistência de políticas de acolhimento contribuem para a subnotificação das violências e para a baixa expectativa de vida dessa parcela da população.

 

“Muitas pessoas trans vivem sem conseguir planejar o amanhã, sem saber se vão chegar à velhice ou sequer se terão o direito de se aposentar. Isso revela o quanto a exclusão social impacta e encurta a vida dessa população. Você já viu uma trans idosa?”, questionou.

 

Daniella também destacou a inexistência de legislações específicas que garantam proteção efetiva à população trans.

 

“Soma-se a isso a lentidão do sistema de Justiça e a impunidade, que reforçam a percepção de que denunciar raramente resulta em proteção ou reparação à vítima”, acrescentou.

 

A ativista ressaltou que a queda nos números pode gerar um alívio momentâneo, mas não reflete, necessariamente, a realidade.

Acervo pessoal

Daniella Veyga

Advogada e ativista, Daniella Veyga

 

“Muitos casos de violência sequer entram nas estatísticas. Há uma subnotificação profunda e, em diversos episódios, as agressões nem chegam a ser comunicadas ao Estado”, alertou.

 

Para ela, a diminuição pode estar relacionada à maior mobilização e resistência de coletivos LGBT+, especialmente diante da falta de políticas públicas específicas de segurança.

 

“Esse dado chama atenção e traz um certo alívio, porém precisa ser analisado com muita cautela. Para além das mortes registradas, muitos casos de violência contra pessoas trans sequer entram nas estatísticas. Por isso, esses números não revelam toda a realidade e não podem ser usados para minimizar a gravidade da violência vivida diariamente por essa população”, afirmou.

 

Mesmo com a redução no número de mortes, Mato Grosso ocupa a 12ª posição no ranking nacional de assassinatos e violências contra travestis e transexuais.

 

Dados nacionais

 

O dossiê da Antra considera informações publicadas em reportagens, redes sociais e fontes não governamentais. Ao todo, foram registrados 80 assassinatos de pessoas trans no Brasil.

 

Minas Gerais e Ceará lideram o ranking, com oito casos cada, seguidos por Bahia e Pernambuco, com sete.

 

Maranhão, Pará e Goiás aparecem na sequência, com cinco registros cada. Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo contabilizaram quatro casos cada. Já Mato Grosso e Rio de Janeiro apresentaram três homicídios no período analisado.

 

Acervo APOLGBTQIA+MT

Especial Parada LGBT

Parada LGBT realizada em Mato Grosso

Em Mato Grosso, todos os casos ocorreram no interior do estado. As vítimas foram Bruna da Conceição Souza, de 27 anos, encontrada morta com golpes de faca em uma plantação de milho, em Campo Novo do Parecis; Betina Barros, de 33 anos, encontrada morta em uma área de mata próxima a uma universidade particular de Nova Mutum; e Thayla da Costa Vieira, encontrada morta em uma lavoura próxima ao estádio municipal de Sapezal.

 

Segundo a Antra, a concentração de mortes em cidades do interior evidencia a ausência de órgãos de defesa e de espaços de debate capazes de oferecer maior proteção às vítimas.

 

“Essa interiorização da violência, em locais onde o acesso a órgãos de defesa e ao debate sobre diversidade é ainda mais restrito, sugere que a diminuição dos registros em determinadas regiões não representa redução real da violência, mas sim o isolamento geográfico das vítimas, o que dificulta a proteção estatal, a catalogação das mortes e a divulgação das informações”, aponta o dossiê.

 

Dia da Visibilidade Trans

 

Desde 2004, o dia 29 de janeiro é celebrado pelo movimento LGBT brasileiro como o Dia Nacional da Visibilidade de Travestis e Transexuais, também conhecido como Dia da Visibilidade Trans.

 

A data faz referência ao dia em que um grupo de mulheres transexuais, homens trans e travestis esteve em Brasília para o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, no Congresso Nacional.

 

Na data, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e órgãos governamentais promovem eventos e ações voltadas ao debate sobre a visibilidade trans, o enfrentamento à transfobia e o combate à violência contra a população trans no Brasil.

 

Leia mais:

 

Mulher trans é encontrada morta em plantação de milho

 

 

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