Livro Chapada dos Guimarães 30 anos do Plano Diretor para o Turismo
No dia 13 de outubro de 1977, os jornais mato-grossenses estampavam uma notícia que mudaria os rumos do turismo no estado: a assinatura de um convênio entre a Embratur (Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo), o Governo de Mato Grosso e o arquiteto Lúcio Costa para a elaboração do Plano Diretor de Turismo de Chapada dos Guimarães.

Considerado um dos maiores nomes da arquitetura modernista brasileira, Lúcio Costa foi responsável pelos projetos do Plano Piloto de Brasília e da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
Além dele, assinaram o Plano Diretor de Turismo de Chapada os arquitetos Paulo Jobim, filho do compositor Tom Jobim, e Maria Elisa Costa, filha de Lúcio Costa.
A proposta buscava conhecer o município a partir da natureza e da vida cotidiana dos moradores, com o objetivo de torná-lo referência em turismo sustentável no estado.
Quase 47 anos depois, apenas parte do plano saiu do papel e de forma gradativa, como a criação do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e a idealização do Festival de Inverno. A maioria das diretrizes acabaram esquecidas pelo poder público e por parte dos habitantes da cidade.
“O lugar surpreende e seduz o visitante, dá vontade de ficar mais, de descobrir mais coisas: há grutas, há inscrições pré-históricas, há florestas do cerrado e árvores amazônicas; há certamente descobertas a serem feitas. Essa diversidade de aspectos naturais, tão inesperados para quem vem da baixada, tão próximos entre si, tão facilmente acessíveis e, entretanto, preservados em seu estado nativo, é certamente a virtude maior da área selecionada pela Embratur como Zona Prioritária de Interesse Turístico”, escreveu Lúcio Costa na apresentação do projeto.
O projeto também contou com a colaboração de Othon Bernardo e Ernesto A. J. Paganelli.
Divulgação
Lúcio Costa, um dos maiores nomes da arquitetura modernista brasileira
"Era um projeto a princípio para o turismo, mas que acabou se transformando em um código de uso para toda a região, determinando o que poderia ou não ser loteado. Criamos ali o que depois viria a ser o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Fomos nós que criamos esse parque, ainda municipal”, declarou Paulo Jobim à WWF, em 2012.
O impacto do projeto para o desenvolvimento local
Para o arquiteto e urbanista José Afonso Portocarrero, secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, o projeto foi uma obra visionária, responsável por ouvir os habitantes de Chapada e levar em consideração a paisagem, a história e a cultura local.
“Talvez tenha sido o primeiro plano que tratou a questão ambiental de forma objetiva. Foi um precursor dos planos diretores com participação comunitária: ouviram as pessoas, fizeram entrevistas, tudo isso está refletido nas propostas”, destacou Portocarrero.
“Do ponto de vista de planejamento urbano e ambiental, ele contemplou as duas dimensões. Foi um precursor tanto da questão ambiental quanto do planejamento urbano”, acrescentou.
Entre as propostas presentes no projeto destacava-se a atuação desde a entrada de Chapada, com um projeto voltado à melhoria da mobilidade urbana no Portão do Inferno, com construção de espaço para estacionamento e um abrigo com serviço de bar ou lanches, “a partir do qual se teria acesso a pé até o bordo do paredão, de onde se descortina o panorama de todo o vale serra abaixo”, detalha o plano.
Outro ponto planejado por Lúcio Costa seria a criação de trilhas próximas aos “monumentos de Chapada” e à Cachoeira Véu de Noiva. O espaço planejado por ele teria estacionamentos e locais para caminhada “a pé em meio às formações que surgem do cerrado”, que, embora não fossem asfaltados, permitiriam o acesso aos penhascos e cachoeiras.
O local teria espaços para abrigos, bares e restaurantes. Além disso, Lúcio orientava a construção de mirantes em Chapada, cobertos com pedra canga.
O plano previa ainda a criação de um parque nacional em Chapada, com sede próxima à Casa da Pedra [formação rochosa natural] e pontos de observação na Serra da Russa e no Atimã.
Yasmin Silva/MidiaNews
José Afonso Portocarrero e Marcelo Augusto Portocarrero
Dez anos depois, em 1989, a ideia de Lúcio Costa foi aperfeiçoada e deu origem ao Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, com uma área de 32.630 hectares, atualmente administrada pelo ICMBio.
Além desses projetos, Lúcio planejava melhorias na cidade de Chapada dos Guimarães, como preservação e recuperação do centro antigo, asfaltamento das principais ruas, construção do mercado municipal, vestiário na piscina municipal, arborização das ruas e loteamentos, serviços de aluguel de jipes, charretes e cavalos, criação de serviços de guias e instalação do Museu da Chapada.
E a designação de lotes urbanos de 600 m², garantindo quintais com espaço para criação de animais e plantio de alimentos, transformando Chapada em uma cidade com áreas rurais e assegurando a preservação da paisagem natural do município.
Na apresentação final do projeto, Lúcio escreveu que as ideias construídas para Chapada poderiam significar, “para o brasileiro urbano, voltado para a chamada civilização urbana, um reencontro com suas raízes esquecidas”.
“Ele não queria que Chapada competisse com grandes destinos turísticos sofisticados, mas aproveitar a essência do lugar, que é a natureza maravilhosa que existe aqui. O principal patrimônio de Chapada é isso, não construções novas ou sofisticadas”, ressaltou Marcelo Portocarrero, engenheiro que teve contato com o projeto em sua elaboração.
Na época, Marcelo atuava na Turismat (Secretaria de Indústria, Comércio e Turismo) e contou que o projeto foi apresentado à Embratur, mas algumas partes não puderam ser realizadas devido a padrões nacionais.
“Fomos à Embratur atrás de recursos para implantar o projeto de Lúcio Costa. Mas os terminais e estruturas exigiam seguir outro modelo. O planejamento do plano geral da Embratur não correspondia ao que Lúcio propôs, então tivemos que nos adaptar para obter o financiamento”.
“Hoje nós temos uma outra praça totalmente diferente daquela que imagino que tenha sido pensada pelo Lúcio Costa, dada as transformações que a natureza do ser humano vai impondo. Nos adequamos a um novo modo de vida, uma nova condição, mas eu sinto falta”, acrescentou Marcelo.
Influência para projetos e novas gerações
Formado em arquitetura pela Universidade Católica de Santos, José Afonso teve a oportunidade de se aproximar de Lúcio Costa pouco após se formar.
Admirador do trabalho do urbanista, entrou em contato por telefone com Costa, que o orientou a procurar sua filha, Maria Elisa Costa, para tentar ingressar no projeto, mesmo como estagiário.
“Para mim, foi uma alegria imensa. Sou muito admirador do trabalho dele e do que ele fez”, relatou José, lembrando o momento.
O encontro foi registrado no prefácio do livro Chapada dos Guimarães: 30 Anos do Plano Diretor para o Turismo, publicado em 2008 pela Casa Guimarães, em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), a Prefeitura de Chapada dos Guimarães, o Governo do Estado e a Assembleia Legislativa.
Foi nessa publicação que a arquiteta Gabriela Ranquel, da Superintendência do Iphan em Mato Grosso, conheceu de perto o plano diretor.
Yasmin Silva/MidiaNews
Página do livro "Chapada dos Guimarães 30 anos do Plano Diretor para o Turismo
Na época estudante de arquitetura pela UFMT, ela presenciou o resgate do plano, com a publicação do livro.
“O fato de ter havido um olhar para o turismo — um turismo que, à época, nem era chamado de sustentável, mas que já buscava ser ambientalmente correto, inclusive no uso de materiais e da mão de obra local — impacta Chapada dos Guimarães até hoje”, declarou Gabriela.
Para a arquiteta, além do impacto de obras já consolidadas, como o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, outros pontos chegaram a ser pensados, mas não executados, para dar destaque ao município, como a preservação das casas das colônias.
“Foi pensou toda uma arquitetura, vamos dizer assim, já da terra. Fácil para o povo construir, utilizando os materiais que já eram usados no local, sabe? E que pode ser desmontada em um pedaço, ampliada em outro. É tudo, assim, bem pensado de uma maneira ambientalista".
No projeto, Lúcio, Maria e Paulo propunham preservar o “único sobrado que restou do tempo da prosperidade da Chapada”, orientando o tombamento do espaço pelo Iphan para a criação de um local voltado ao turismo rural. Segundo a arquiteta, o espaço histórico segue sem os devidos cuidados.
“No plano foi proposto — e eu acho que isso seria uma grande coisa, muito legal, se pudesse ser abraçado. Tem que investir nele como se fosse um museu, contratar uma empresa ou fazer um edital que pudesse gerar um contrato para alguém gerir o espaço”, acrescentou Gabriela.

Outra ideia prevista no projeto era a criação de festivais de música em espaços da cidade. Segundo o documento, em uma área que, à época, estava em construção pela Prefeitura, a proposta era realizar “festivais de música ao ar livre; atualmente, no dia 7 de setembro, após os desfiles escolares, durante toda a tarde”.
Atualmente, no local, ocorre anualmente o Festival de Inverno, realizado entre a última semana de julho e a primeira de agosto.
Apesar das várias propostas executadas ou não, o arquiteto José Portocarrero e o engenheiro Marcelo Portocarrero destacaram as mudanças pelas quais o município passou, que nem sempre seguiram o projeto original.
Yasmin Silva/MidiaNews
Projetos propostos por Paulo Jobim, Lúcio e Maria Elisa Costa
O legado do Plano Diretor
José Portocarrero afirmou que mudanças recentes na cidade, como pressão imobiliária e novas rotinas urbanas, interferem na proposta original do projeto.
“A Chapada que ele [Lúcio Costa] viu, eu acho que a pressão imobiliária dos condomínios... Chapada está se integrando dentro de um processo de consumo mesmo de espaço, diferenciado do que ele estava pensando, do que ele havia proposto”, relatou José.
Apesar das lacunas não executadas ao longo do tempo, o projeto continua atual, com pontos que ainda podem ser pensados e realizados atualmente, como, por exemplo, a realização de novas ações previstas no plano.
“Ele foi à frente do tempo, sabe esse plano? Na época em que foi proposto, tratou todas as questões com cuidado, com muita delicadeza ao apresentar as propostas, para não quebrar essa aura da cidade de Chapada, da região. Ele fala muito disso", disse José.
"Então, é um projeto que serve de referência para nós até hoje, que precisa ser discutido nas universidades, nas escolas e, principalmente, deveria ser uma referência importantíssima para a Prefeitura, para estar na ordem do dia: o que foi feito e o que não foi feito”, finalizou.
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