Cuiabá, Domingo, 29 de Março de 2026
5 TIPOS DE MEDO
29.03.2026 | 08h30 Tamanho do texto A- A+

"É assustador ver que a violência contra as mulheres piorou", diz atriz; vídeos

Bella Campos falou sobre temáticas do filme cuiabano e criticou sociedade patriarcal

Victor Ostetti/MidiaNews

A atriz Bella Campos durante entrevista exclusiva ao MidiaNews

A atriz Bella Campos durante entrevista exclusiva ao MidiaNews

PIETRA NÓBREGA
DA REDAÇÃO

Em um cenário onde o cinema brasileiro frequentemente concentra seus holofotes no eixo Rio-São Paulo, Cinco Tipos de Medo surge como um contraponto necessário. Dirigido por Bruno Bini, roteirista e diretor cuiabano, o longa-metragem coloca a periferia de Cuiabá no centro da narrativa, fugindo dos cartões-postais do Pantanal para mostrar o bairro Colorado, o Ribeirão do Lipa e as vielas onde a vida pulsa entre o sonho e a sobrevivência.

 

Eu espero que, ao assistir, que os homens possam olhar e problematizar o seu lugar também dentro desse sistema

O filme, que chega aos cinemas de todo o Brasil no dia 9 de abril, também marca o primeiro papel da atriz cuiabana Bella Campos em longas-metragens.

 

A produção entrelaça as histórias de cinco protagonistas em uma narrativa em mosaico. Entre eles está Marlene, personagem interpretada por Bella: uma jovem cuiabana que luta por liberdade em um ambiente hostil.

 

A narrativa é construída de forma não linear, conectando destinos que são atravessados pelo crime, pela violência, por relações tóxicas e pelo luto de mães que perdem filhos para o crime organizado.

 

Em entrevista exclusiva ao MidiaNews, a atriz Bella Campos e o diretor Bruno Bini falaram sobre o processo de construção do filme, a escolha de filmar em Cuiabá, a importância de usar o sotaque cuiabano e a urgência de discutir a violência contra a mulher.

 

Mato Grosso figura entre os estados brasileiros com os maiores índices de feminicídio. É nesse contexto que Cinco Tipos de Medo se insere. Bella Campos destacou a piora nos índices de violência contra a mulher desde as gravações do filme.

 

"É dolorido hoje pensar que há dois anos atrás, quando a gente estava gravando, os números de violência contra mulheres, na verdade, estavam menores do que estão hoje. Como em dois anos, ao invés de melhorar, piorou. Isso é muito assustador", afirmou a atriz.

 

Ela apontou a estrutura patriarcal como a raiz do problema e fez uma reflexão sobre o papel dos homens na mudança desse cenário.

 

“A força da mulher já é exigida desde o momento em que nascemos. O problema não está em nós, nem na suposta falta de algo em nós. Está na estrutura patriarcal, que nos coloca constantemente em situação de vulnerabilidade. Se alguém precisa agir para mudar isso, são os homens, sobretudo os que estão no poder e constroem políticas que, muitas vezes, nos mantêm vulneráveis”, disse.

 

“Espero que, ao assistir, além de as mulheres se reconhecerem, os homens também possam olhar para si e problematizar o próprio lugar dentro desse sistema”, completou.

 

 

Construção das personagens femininas

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Bella Campos

Bella Campos em entrevista ao MidiaNews

Bini afirmou que a construção das personagens femininas contou com a colaboração de mulheres ao longo de todo o processo criativo.

 

“Eu tive ajuda. Enquanto escrevia o roteiro, por ser um homem, posso me esforçar o quanto for, mas nunca vou alcançar plenamente o entendimento do que é ser uma mulher. Por isso, o texto foi compartilhado com muitas mulheres do meu convívio”, explicou o diretor.

 

Ele mencionou a participação de Bella Campos, Bárbara Colen, da assistente de direção Kitty Fell e da preparadora de elenco Maria Laura Nogueira.

 

“Acho que, ao trabalhar com personagens femininas, se eu tivesse me fechado no meu próprio universo masculino, não teríamos alcançado um resultado como o que você destaca agora”.

 

Bella Campos contou que a personagem Marlene foi construída a partir de referências de mulheres reais que fizeram parte de sua vida.

 

“A Marlene está na minha memória, inspirada em mulheres que estiveram ao meu redor. Minha preocupação na construção dela era fazer com que a mulher cuiabana pudesse assistir e se reconhecer”, disse.

Ela também citou detalhes do cotidiano cuiabano incorporados à personagem.

 

“Na forma como prendemos o cabelo, por causa do calor, nas blusas mais leves que usamos… Eu mesma não entendo por que a gente usa tanta calça mesmo com tanto calor”, afirmou.

 

 

Estreia no cinema e retorno às raízes

 

É importantíssimo e uma felicidade enorme você poder fazer uma coisa na sua terra 

A atriz falou sobre a transição da TV para o cinema e o retorno às origens.

 

“Primeiro, enquanto profissional, penso em experimentar uma nova linguagem. Tenho muita vontade de transitar por diferentes formatos, inclusive o teatro, onde ainda não tive oportunidade. O cinema era algo que eu já queria fazer há algum tempo, e ter essa chance em Cuiabá foi realmente enriquecedor”, explicou.

 

“Consegui enxergar a potência que já existia em mim, para além do que poderia construir com personagens de outras regiões — o que também é importante. Mas é uma felicidade enorme poder fazer algo na sua terra e perceber que isso tem valor, que tem riqueza. Não é bobagem, é algo que faz diferença”, afirmou.

 

A cuiabana também abordou as dificuldades de acesso às salas de cinema no Brasil.

 

“É claro que ainda precisamos de muitas políticas públicas. Acho que um dos fatores que dificultam o acesso do público às salas de cinema são os custos. Transporte, ingresso… ainda é algo mais restrito, nem todo mundo consegue ter acesso”, ponderou.

 

“Mas há iniciativas, como a Semana do Cinema, com ingressos mais baratos, e isso contribui para a valorização. O cinema brasileiro está trilhando um caminho bonito internacionalmente, então é importante que a gente também se reconheça internamente”, completou.

 

 

 A Cuiabá que o cinema não mostra

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Bruno Bini

O diretor Bruno Bini em entrevista ao MidiaNews

Bruno Bini explicou por que escolheu retratar uma Cuiabá diferente dos cartões-postais tradicionais.

 

“Foi um privilégio registrar a minha cidade. Tenho feito isso ao longo da minha trajetória no cinema, e é sempre muito especial. Me sinto afortunado por revisitar esses lugares com os quais temos, muitas vezes, uma relação afetiva e nostálgica”, disse.

 

“Poder filmar uma cena importante dentro do Cine Teatro, que frequento desde criança, ir ao Cais do Porto, à Praça da Mandioca e ambientar a história nesses espaços… Para mim, é um privilégio. Isso dá ainda mais força à narrativa,

especialmente quando ela é vista pelos cuiabanos, que reconhecem esses lugares e também se reconhecem”, afirmou.

 

Bella destacou a liberdade de usar o sotaque e as expressões cuiabanas pela primeira vez em um trabalho audiovisual.

 

“Foi um alívio poder finalmente usar o meu próprio idioma, algo que eu ainda não tinha tido oportunidade. Em ‘Pantanal’, usei um pouco, mas não havia essas expressões cuiabanas. Foi muito gostoso poder trazer isso à tona”, celebrou.

 

 

A atriz também refletiu sobre a importância de preservar a identidade linguística cuiabana, especialmente entre as gerações mais jovens.

 

“Eu morria de medo de a gente perder o sotaque cuiabano. Ao conversar com pessoas mais velhas, percebi isso com mais clareza e até comentei com o Bruno: estamos perdendo esse jeito de falar. São detalhes, sutilezas”, lamentou.

 

“Existe um ‘X’ do cuiabano mais antigo, presente em palavras específicas, além de uma entonação própria, que vai além das expressões. Isso me preocupava, porque via, às vezes, pessoas mais jovens, como meus primos, quase com vergonha de falar desse jeito, com esse sotaque”, completou.

 

 

Viralização do sotaque nas redes

 

Eu ficava muito preocupada de ver, às vezes, as pessoas mais novas, os meus primos mais novos, quase tendo um pouco de vergonha de falar desse jeito cuiabano

Bella comemorou o movimento recente de valorização do sotaque cuiabano nas redes sociais.

 

“Recentemente, comecei a ver vídeos virais na internet valorizando o nosso sotaque, de forma leve e descontraída, como algo muito nosso. Então, acredito que há, sim, muita coisa boa aqui dentro, que precisa ser valorizada e da qual devemos nos orgulhar”, afirmou.

 

A cuiabana também falou sobre o que gosta de fazer quando está na capital, longe dos holofotes.

 

“Eu amo a Chapada. Minha amiga, inclusive, está ali, e a gente sempre vai para lá. Agora que dirigimos, pegamos o carro e vamos”, contou.

 

“Mas também adoro ficar em casa, com minhas primas, no quintal, comendo manga, pequi, um pacu assado, com farofa de banana. É isso”, finalizou.

 

 

Cinema regional

 

O cinema regional tem puxado ótimos resultados para o Brasil. E o que está acontecendo é esse intercâmbio cultural, de troca mesmo e de um olhar de reconhecimento

Bini comentou sobre o momento do cinema brasileiro e o protagonismo das produções regionais.

 

"O que a gente está vendo acontecer no Brasil, e a gente é um exemplo disso, é que o Brasil está se descobrindo através do cinema. Lógico, através das outras artes, da música, da literatura também isso acontece, mas esse processo dentro do mercado cinematográfico brasileiro tem sido muito sólido, muito forte", disse.

 

"O cinema regional tem puxado ótimos resultados para o Brasil. E o que está acontecendo é esse intercâmbio cultural, de troca mesmo e de um olhar de reconhecimento. Um filme de Mato Grosso, e a gente tem visto isso, passando o filme nos outros lugares do Brasil, está se conectando com as pessoas das outras regiões do Brasil. Então a arte tem esse poder", completou.

 

 

 

Veja o trailer oficial do filme:

 

 

 

 

 

 

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