Abrigo Amor Animal
O abandono de animais em Cuiabá segue como um problema visível nas ruas, nos bairros periféricos e até em regiões centrais da cidade. Por trás de cada resgate, há histórias de pessoas que, sem apoio público suficiente, transformam a própria rotina, orçamento e até a saúde emocional para salvar cães e gatos que dificilmente sobreviveriam sozinhos.

Entre clínicas veterinárias, lares temporários e campanhas de adoção, protetores independentes e organizações se desdobram para retirar animais da rua, custear tratamentos e buscar famílias dispostas a adotar. A atuação, na maioria das vezes, nasce de experiências pessoais e de uma conexão profunda com os animais.
A psicóloga Marimar Michels contou ao MidiaNews que a entrada na causa animal veio após a despedida de uma cadela que viveu quase 16 anos com a família. A doença e o processo de perda fizeram com que ela e o marido passassem a enxergar os animais de outra forma.
“Vivemos nesse dia que parecia que só tinha em cenas de filme, mas foi real. A Miuxa lutou até o fim e parecia que não queria ir embora. Quando tivemos que pedir para ela descansar, percebemos o quanto os animais têm sentimentos e como a gente não aprende isso quando é criança. Depois que ela se foi, ficamos muito sensíveis com a causa animal e decidimos que precisávamos fazer algo por outros animais”.
Yasmin Silva/MidiaNews
Miguel, que foi resgatado de maus-tratos e aguarda adoção
Pouco antes da morte da cadela, o casal encontrou um cachorro abandonado, doente e ferido às margens da estrada. O resgate acabou se tornando o ponto de partida para uma atuação contínua no salvamento de animais.
“Passamos por ele, mas não conseguimos seguir viagem. Voltamos, demos água e levamos para a clínica. Ele tinha leishmaniose e ficou dias internado. Depois adotamos e demos o nome de Highlander, porque foi um guerreiro. A Miuxa adorou ele. Foi ali que começou nossa missão de resgatar, cuidar, castrar e colocar para adoção”.
Hoje, além dos seis animais adotados pelo casal, Marimar ajuda outros resgatados e ainda mantém um cachorro em hotel para pets, por não poder conviver com outros machos. Segundo ela, os custos mensais com ração, medicamentos e tratamentos podem ultrapassar R$ 2 mil.
Yasmin Silva/MidiaNews
Cadu, de 5 anos, que espera ser adotado e ter uma família
Batalha com poucos soldados
A protetora afirmou que a maior dificuldade não é apenas retirar o animal da rua, mas conseguir manter o cuidado depois, já que ONGs e lares temporários vivem lotados e contam com pouca ajuda financeira.
“Não é só resgatar. As despesas veterinárias são altas e poucas clínicas oferecem desconto. Depois do resgate, fica a pergunta: onde colocar? As ONGs estão cheias e muitas pessoas ainda abandonam animais nas portas delas. Falta apoio e sobra responsabilidade para quem tenta ajudar”.
Ela relatou ainda que o abandono deixa marcas profundas nos animais e também em quem se dedica ao resgate.
“A sensação é que quanto mais a gente ajuda, mais aparecem animais abandonados. Muitas vezes não quero nem sair de casa para não encontrar mais um. Sempre levo ração e água no carro, mas não posso levar todos. A gente segue chorando, porque sabe que eles vão continuar ali”.
Para Marimar, políticas públicas de castração e educação seriam fundamentais para mudar o cenário.

“Se mudarmos a mentalidade das crianças e adolescentes desde cedo, ensinando que animais são seres sencientes e não objetos, teremos adultos mais empáticos. O poder público pode fazer muito mais com castrações gratuitas, apoio às ONGs e campanhas educativas”.
ONGs e protetores trabalhando no limite
A empresária Adelise Siqueira também atua há mais de duas décadas como protetora independente e mantém animais resgatados em sua própria casa, além de funcionar como lar temporário para outros.
“Eu sempre tive empatia pelos animais, então isso foi natural na minha vida. Hoje tenho nove animais fixos em casa e outros que passam por aqui até serem adotados. Todos os custos saem do nosso bolso, desde ração até exames e cirurgias. Muitos chegam praticamente sem esperança, depois de situações muito cruéis”.
Entre os resgates, ela relembrou um atropelamento proposital que presenciou e decidiu intervir.
Yasmin Silva/MidiaNews
A cadela Louvada, que tem leishmaniose e é residente fixa da ONG Amor Animal
“Eu vi o motorista passar por cima do cachorro de propósito. Colocamos ele no carro e levamos para o veterinário. Ele estava com a bacia fraturada e precisava de cirurgia. Não conseguimos o dinheiro e a veterinária tentou um tratamento alternativo. Deu certo e hoje ele vive feliz em uma nova casa”.
A empresária destacou que muitos animais chegam traumatizados, exigindo tempo e paciência para recuperação.
“Eu já tive cadela que passou três meses na minha casa sem permitir que eu tocasse nela. Muitos chegam queimados, envenenados ou espancados. O trabalho exige amor e persistência. Não dá para desistir, mesmo quando parece que estamos enxugando gelo”.
Ela acredita que o avanço na conscientização existe, mas ainda é insuficiente diante do número de abandonos.
“Uma cadela pare dez filhotes e logo estão todos na rua. Sem castração e sem consciência, o problema nunca acaba. Precisamos educar as crianças para que se tornem adultos responsáveis e entender que animais não são coisas”.
Yasmin Silva/MidiaNews
A pitbull Vitória foi resgatada coberta por ferimentos de ataque de animal selvagem
A farmacêutica bioquímica Silvana Veloso entrou na causa animal após perder um cachorro atropelado, episódio que mudou completamente sua vida e levou à criação de uma associação em Cuiabá.
“Eu perdi um labrador de seis meses que pulou do carro quando ia ao veterinário. Fiquei em luto e comecei a salvar cães vulneráveis nas ruas. Depois, junto com amigos, montamos a associação Amor Animal, que hoje funciona de forma regularizada e abriga dezenas de animais”.
Ela relatou que muitos cães chegam feridos por disputas nas ruas ou vítimas de maus-tratos.
“Já resgatamos cachorro abandonado duas vezes, cadela atacada no mato, animais com leishmaniose, cães esfaqueados e até vítimas de abuso. São histórias muito duras. A leishmaniose causa feridas e insuficiência renal e o tratamento é caro, mas não podemos simplesmente virar as costas”.

A ONG sobrevive principalmente com recursos próprios e ajuda eventual de voluntários e projetos aprovados pelo Ministério Público, mas enfrenta dificuldades para manter a estrutura.
“A manutenção do abrigo é feita praticamente com recursos próprios. O espaço é emprestado e pode ser vendido a qualquer momento. Precisamos de apoio público para continuar funcionando e oferecer melhores condições para os animais”.
Silvana também defende mudanças legais e mais rigor na punição de crimes contra animais.

“As leis existem, mas ainda são frouxas. Muitas vezes a pessoa é presa e logo solta. Precisa ser mais rígido para que maus-tratos realmente parem. Enquanto isso não acontece, seguimos tentando salvar quem conseguimos”.
Quem salva, também precisa de ajuda
Apesar do cansaço emocional e financeiro, as protetoras afirmam que a motivação continua sendo evitar que animais continuem invisíveis nas ruas e sofrendo abandono e violência.
Entre resgates, adoções e campanhas, elas seguem dando voz a quem não pode pedir ajuda, mostrando que, para muitos animais abandonados, a sobrevivência depende apenas de alguém disposto a enxergá-los, e que quem salva também precisa ser visto e apoiado pela sociedade.
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