Por quase duas décadas, a cuiabana Karine Fernandes se dedicou à rotina de um consultório odontológico, até trocar a profissão pela vida de influenciadora digital. Hoje, aos 38 anos, casada e mãe de dois filhos, ela conquistou milhares de seguidores com um humor afiado e sem filtros, transformando o cotidiano em casa e o jeito tipicamente cuiabano de falar em conteúdo nas redes sociais.

A mudança lenta de ocupação começou há nove anos, quando aproveitou o nascimento de um de seus filhos para falar sobre maternidade nas redes sociais. A abordagem, porém, era um pouco diferente do comum, já que nos vídeos ela relatava de forma bem-humorada situações do pós-parto que normalmente apareciam apenas sob versões idealizadas.
"Quando o filho nasce, as pessoas falam: ‘Nossa, meu filhinho nasceu’. Eu falava: ‘Meu Deus, a criança nasceu, quase me rasgou e não sei o quê'. No pós-parto a gente pode ter hemorróida e isso e aquilo, e o pessoal tipo: ‘Tcha critina louca’, ela está falando isso. Porque a gente só conta a parte bonita", disse ela ao MidiaNews.
“Na época, quando o Instagram começou a ter os stories, eu contava minhas dificuldades e, nessa pegada mais engraçada, fui convidada pela minha ginecologista para fazer relato de parto, que era meio que um stand-up. Eu encarei assim. As mulheres iam e diziam: ‘Nossa, eu tive uma dificuldade, mas meu filho veio, é uma bênção’. Quando subi para falar, o pessoal não parava de rir. Essa coisa de se reconhecer".

A influenciadora diz que enxerga hoje o “pobre premium” e o cuiabanês como os dois eixos principais de seu conteúdo. O primeiro, ela considera compreensível e idenficável em qualquer lugar do país, e o cuiabanês, que cria identificação imediata com quem vive ou viveu em Mato Grosso. Segundo ela, além do público local, muitos cuiabanos que moram fora relatam sentir nos vídeos uma forma de representação afetiva.
Aos poucos, Karine contou que se atentou ao fato de que o público reagia com mais interesse quando reconhecia no conteúdo algo próximo da própria rotina. A identificação logo se ampliou com o “pobre premium”, expressão humorística para se falar de pessoas que alcançaram padrão de vida mais alto, como ela, que saiu de bairros como Morada do Ouro e CPA para morar no Florais do Valle.
O humor do cotidiano

A partir daí, personagens da própria família passaram a ocupar espaço fixo nos vídeos. O pai, de 80 anos, descrito por ela como o “cuiabanão”, também se tornou uma das figuras mais reconhecidas do conteúdo, e o marido, frequentemente retratado em tom de brincadeira como “tóxico”, virou tema recorrente justamente pela reação de seguidores que dizem viver situações parecidas dentro de casa.
"Hoje eu falo que meu marido é tóxico, mas não é nada! Ele é um amor. E o pessoal fala: ‘Nossa, meu marido é igual’. Aí eu mostro o meu pai que é o cuiabanão, aquele vôzão, que chega com pão de manhã. E tem uma musiquinha que meu pai canta, que é bem cuiabanística, para os meus filhos, e as pessoas amam".
"As pessoas foram se reconhecendo nesses vários micro personagens. E aí eu falei: ‘Nossa, estou conseguindo me comunicar com as pessoas num todo’. E eu larguei o negócio da maternidade, e comecei a falar sobre tudo da minha vida. As pessoas foram se reconhecendo, familiarizando, fui começando a ser reconhecida na rua, falei: ‘Vixe, o negócio está dando bom’".
"Como dentista, eu trabalhava num quadrado fechado, só eu e um paciente por hora, e sempre aquela coisa ‘Ai doutora, meu dente está doendo, ai doutora, meu dente quebrou’. Eram bad vibes! Eu sou uma boa dentista, me considero uma ótima dentista, mas não é o clima que eu queria para a minha vida. Eu queria falar, sair, bater perna, e hoje é o que eu faço. Converso, ando pela cidade toda. Hoje eu já rodei a cidade inteira, já vi várias pessoas diferentes, já conversei vários assuntos diferentes. Então, isso é a minha nova vida agora".
Foi a partir do TikTok, onde é seguida por mais de 250 mil pessoas, que Karine percebeu um alcance maior do conteúdo, inclusive fora de Cuiabá e até do país. Segundo ela, a plataforma ampliou o contato com públicos diferentes e mostrou que expressões, hábitos familiares e modos de falar despertavam reconhecimento imediato, inclusive em pessoas que associavam os vídeos a parentes próximos.
Foi nesse processo que decidiu reforçar a presença do cuiabanês e do regionalismo no conteúdo, incorporando ainda mais a figura do pai, uma das principais fontes desse repertório. Karine contou que boa parte das expressões que usa como conteúdo nasce de frases ouvidas em situações banais, muitas vezes reforçadas depois pelos próprios seguidores nos comentários.

"Meu marido outro dia falou ‘Ah, negatófi’. Quando ele falou negatófi, eu falei ‘Cara, eu falo muito negatófi, vovó fala muito, preciso fazer um vídeo sobre isso’. Meu pai mesmo, a gente estava no aeroporto, e aí ele falou assim, ‘Olha, cuidado. Fica comendo muito, depois você vai obrar no avião’. E obrar, para cuiabano, é ter piriri, fazer um número dois. Quando ele falou obrar, eu falei, ‘gente, é muito cuiabanístico’. Só cuiabano sabe o que é!", disse.
"São situações corriqueiras e tem situações que eu vejo nos comentários. A gente estava no Rio de Janeiro, no mar, e meu pai tinha falado: ‘Ah, você tem que falar que aqui não tem um saram para pendurar uma toalha’. Eu falei ‘Ah, papai, você é muito velho. Não é todo mundo que sabe o que é saram para pendurar toalha’. Aí nos comentários alguém colocou: ‘Faltou um saram para pendurar’. Eu falei, papai, o senhor tinha razão, alá! Algumas coisas são coisas que minha avó fala: ‘Tchá critina, merda, sô!’".
Karine contou que o uso dessas expressões funciona também como uma forma de manter viva uma memória afetiva compartilhada entre diferentes gerações, sobretudo entre cuiabanos que moram em outros Estados e outros países.
“A gente fica assistindo memes de pessoas de outro estado, de outras regiões e você morre de rir e não tem nada cuiabano para você pensar ‘Nossa, é isso mesmo’. E eu acho que eu consigo chegar nas famílias, nas casas em 15 segundos e fazer as pessoas rirem. É muito gostoso quando eles falam ‘Lembrei de quando eu morava aí, lembrei de quando minha avó, de quando meu pai eram vivos’. Isso me alimenta, penso que estou chegando onde eu quero".
Vida de influencer
Com nove anos no cenário digital, ela diz que a internet ofereceu um tipo de reconhecimento muito diferente daquele vivido na odontologia. Hoje, segundo relatou, boa parte dos contratos publicitários nasce menos de negociação direta e mais da identificação espontânea de marcas com a imagem que ela construiu.

“Na vida de rede social as pessoas me contratam porque elas me acham legal. ‘Karine, você é muito legal. Vem cá que eu vou te pagar’. Cara, como assim? ‘Você é muito engraçada, vamos. Eu vou te contratar’. Gente, é pelo meu rostinho, só a minha simpatia, entendeu? É muito gratificante, é melhor que terapia”.
Embora exponha boa parte da rotina doméstica, ela disse que aprendeu com o tempo a delimitar assuntos que prefere manter fora do conteúdo. Política, religião e futebol, para ela, são temas abolidos de seus vídeos. Segundo ela, não despertam interesse do público que a acompanha e também não entra na seara do que quer abordar.
“Tem coisa que eu já sei que eu não posso falar, por exemplo, política, religião, futebol. Ai gente! Não quero! Porque são coisas que eu sei que o meu público não está nem aí para isso. Eles querem rir. Eles querem ver eu toda cagada em casa, com o cabelo bagunçado e falando ‘Criança, hoje tá difícil meu dia!’".
"Eles não querem saber o que eu penso do governo atual. Ninguém está nem aí que religião que eu sou, o que eu faço. Eles querem rir. Então, eu já entendi o que não comunica, o que ninguém quer saber, e que às vezes vai até atrapalhar. Então, não me pergunte, não quero saber! Eu só quero fazer as pessoas rirem. Tudo que eu ver que vai atrapalhar, nem quero saber! Já corta".
"Pobre premium" sem ostentação
A opção por mostrar situações simples do dia a dia também se reflete quando viaja. Mesmo conhecendo vários países, ela evita transformar deslocamentos em conteúdo de ostentação e prefere manter o tom de humor que já consolidou nas redes.

“Eu conheço mais de 10 países do mundo. Acho desnecessário essa coisa de ‘Ai, quando eu fui para Paris, quando eu estive na Itália’. Eu acho isso um saco! Então, quando eu vou mostrar alguma coisa de viagem, é zoeira, mostrando a criança comendo gelo, um negócio meio zoado. Um conteúdo que eu não consigo fazer, é me aparecendo”.
"Eu estava no Rio de Janeiro agora, meu filho lambeu o corrimão do metrô, aí eu filmei o guri e falei ‘Gente, vocês acreditam o pobre preminhium mal entrou no metrô, já foi lamber o corrimão?’".
Hoje com forte presença no TikTok e no Instagram, Karine diz que sente já ter ultrapassado o alcance regional, mas ainda alimenta a expectativa de atingir um reconhecimento nacional mais amplo. Ela contou, porém, que o retorno mais importante continua sendo a sensação de representar Mato Grosso em lugares inesperados, inclusive quando encontra pessoas de fora que passaram a conhecer o Estado pelos vídeos.
“Eu já estourei a bolha, mas eu sinto que alguma coisa vai acontecer, alguma piada, algum negócio eu vou fazer e vai estourar a bolha de verdade. Porque falar ‘Não é minha pretensão ficar famosa’. É sim! Eu quero ficar famosa! Eu quero ser famosa nacional. Eu sinto felicidade de estar representando o Estado. Fico feliz também de me comunicar com pessoas de fora do país. É um gás que me deixa animada para todos os dias falar com vocês. Eu sou uma famosa cuiabana!”.
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