Cuiabá, Domingo, 12 de Abril de 2026
FISCALIZAÇÃO EM RESTAURANTES
12.04.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Procon: “Já vi cozinhas caóticas por trás de locais sofisticados”

Secretária-adjunta também falou sobre consignados e superendividamento de servidores de Cuiabá

Yasmin Silva/MidiaNews

A secretária-adjunta do Procon Cuiabá, Mariana Borges, que falou sobre ações da Pasta na Capital

A secretária-adjunta do Procon Cuiabá, Mariana Borges, que falou sobre ações da Pasta na Capital

ANGÉLICA CALLEJAS
DA REDAÇÃO

A secretária-adjunta do Procon de Cuiabá, Mariana Borges, fez um alerta sobre irregularidades em bares da Capital e afirmou já ter encontrado situações em que estabelecimentos com aparência sofisticada escondiam problemas graves nos bastidores.

 

Quando eu entrei no Procon eu fiquei super criteriosa, porque encontro cada coisa que, quando eu era consumidora, eu não via

Quando eu entrei no Procon eu fiquei super criteriosa, porque encontro cada coisa que, quando eu era consumidora, eu não via. Porque eu já vi situações, assim, que o bar é lindo por fora, uma estrutura fenomenal, você tem até uma experiência, drinks maravilhosos, mas quando a gente entrava na cozinha eu falava : Eu não quero nem uma água vendida nesse bar aqui'”, disse em entrevista ao MidiaNews.

 

Na conversa, a advogada também falou sobre os riscos das bebidas adulteradas, destacando a dificuldade do consumidor em identificar a procedência do que consome, principalmente em drinks preparados pelos próprios estabelecimentos. Segundo Mariana, operações conjuntas com a Polícia Militar e a Vigilância Sanitária já resultaram na apreensão de produtos sem qualquer garantia de origem ou qualidade.

 

A secretária-adjunta ainda afirmou que não há uma região específica com maior incidência de irregularidades, já que, segundo ela, a prática depende da conduta de cada estabelecimento. Ela também comentou os desafios da fiscalização e a necessidade de ampliar o controle para proteger os consumidores.

 

"Eu acredito que pode ser em qualquer região, porque é do estabelecimento, é do dono do estabelecimento, é da índole ali da pessoa que comanda fazer. Então, ao meu ver, não existe uma região, porque é da pessoa. É do caráter dela querer tirar proveito de algo que depois só vai trazer prejuízo para ela".

 

Ela também falou sobre os principais alvos de reclamações no Procon, irregularidades em empréstimos consignados, casos de superendividamento entre servidores públicos, fiscalização de combustíveis e a atuação em grandes eventos na Capital.

 

 

 Confira os principais trechos da entrevista:

O primeiro e o segundo lugar ficam entre a Águas Cuiabá e a Energisa. Em alguns meses, a Águas Cuiabá lidera em número de reclamações; em outros, é a Energisa

MidiaNews - Quais são as principais denúncias que o Procon tem recebido hoje?

 

Mariana Borges - O primeiro e o segundo lugar ficam entre a Águas Cuiabá e a Energisa. Em alguns meses, a Águas Cuiabá lidera em número de reclamações; em outros, é a Energisa — elas revezam a primeira posição.Quando realizamos ações específicas, porém, há mudanças. No ano passado, por exemplo, em setembro, fizemos uma ação sobre consignados e os bancos passaram a ocupar as primeiras posições. Assim, essas iniciativas alteram o “pódio” das reclamações, mas, no geral, Águas Cuiabá e Energisa seguem como as principais causas de queixas no Procon.

 

MidiaNews -  Geralmente quanto tempo leva para o cidadão ter um problema resolvido quando faz uma denúncia?

 

Mariana Borges - Depende muito do tipo de denúncia. Em casos como corte de energia ou de água, por exemplo, se o consumidor comprova que está em dia ou quer renegociar o débito, conseguimos restabelecer o serviço na hora, pois temos canais diretos, principalmente com a Águas Cuiabá.

 

Quando há corte de água, eles disponibilizam um telefone exclusivo para o Procon, o que permite resolver ainda no atendimento preliminar. Atendemos muitas pessoas e solucionamos diversos problemas dessa forma. No sistema Proconsumidor, registramos que o consumidor tem três dias para informar se o serviço foi restabelecido.

 

Muitas vezes, como o problema já é resolvido, o consumidor nem retorna, e o processo acaba sendo arquivado. Isso porque conseguimos resolver a demanda de forma rápida, já no primeiro atendimento.

 

Hoje, o Procon vive de receita própria, mas, para a sociedade e até para os indicadores avaliados pelo Tribunal de Contas, o mais importante é essa conciliação e a resolução preliminar, que garantem retorno imediato ao consumidor.

 

Quando aplico uma multa, não resolvo o problema do consumidor, já que o valor vai para os cofres públicos, e não para ele. Se não conseguimos resolver na conciliação, não há resultado efetivo para a população. Por isso, é fundamental garantir esse registro e uma solução rápida, pois nossos indicadores estão ligados à satisfação e à resolução imediata das demandas.

 

MidiaNews - Qual hoje é o maior risco encontrado no comércio local no caso das bebidas adulteradas? É a falsificação, a falta de procedência ou a venda sem controle adequado?

 

Mariana Borges - Acredito que sejam, sim, os três problemas que você citou. Quando pedimos um drink em um bar, por exemplo, é muito difícil ter controle sobre o que está sendo servido. O cardápio indica que um drink com vodka importada é mais caro do que com cachaça nacional, mas qual a garantia de que aquela vodka está realmente sendo utilizada?. 

 

Eu não sou especialista em bebidas alcoólicas. Se me derem uma cachaça e uma vodka, provavelmente não vou perceber a diferença. Então, esse controle, quando se trata de algo já preparado pelo estabelecimento, é bem difícil.

 

O que verificamos em operações com a Polícia Militar, especialmente com o coronel Guindani, do 9º Batalhão, na região do Coxipó, junto à Vigilância Sanitária, foi a procedência das bebidas vendidas ainda na garrafa.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Mariana Borges

"Quando pedimos um drink em um bar, por exemplo, é muito difícil ter controle sobre o que está sendo servido!

Encontramos algumas sem o selo do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) ou sem o selo da Receita Federal, aquele que comprova a regularidade na importação. No caso do uísque, por exemplo, não há selo do Mapa, mas há o lacre na tampa indicando que passou pela fiscalização aduaneira.

 

Apreendemos bebidas sem procedência comprovada, pois não havia garantia de que o líquido era próprio para consumo humano. Nesses casos, o recolhimento é imediato.

 

Além disso, em bares e distribuidoras, também encontramos outras irregularidades relacionadas ao que é oferecido ao consumidor. Lembro de um caso em que o dono de um bar reclamou da fiscalização em horário de funcionamento. Ainda assim, temos muito cuidado para evitar prejuízos ao empresário e nem divulgamos tudo o que encontramos. Mas, quando entramos na cozinha desse estabelecimento, a situação era uma catástrofe.

 

Quando eu entrei no Procon eu fiquei super criteriosa, porque encontro cada coisa que, quando eu era consumidora, eu não via. Porque eu já vi situações, assim, que o bar é lindo por fora, uma estrutura fenomenal, você tem até uma experiência, drinks maravilhosos, mas quando a gente entrava na cozinha eu falava "Eu não quero nem uma água vendida nesse bar aqui".

 

 

 

MidiaNews – Hoje, em Cuiabá, há estabelecimentos ou regiões sendo monitorados por suspeita de bebidas adulteradas?

 

Mariana Borges - Olha, essa questão é muito complicada, porque, quando se tem uma bebida adulterada, geralmente é do estabelecimento. Não tem uma região que as pessoas combinam de adulterar bebidas. É uma coisa velada dentro do estabelecimento. A gente foi na região ali do Coxipó porque foi convidado pelo tenente-coronel que cuida do 9º Batalhão, e ele quis levar essa operação para a região na qual ele era responsável.

 

Mas eu acredito que pode ser em qualquer região, porque é do estabelecimento, é do dono do estabelecimento, é da índole ali da pessoa que comanda fazer. Então, ao meu ver, não existe uma região, porque é da pessoa. É do caráter dela querer tirar proveito de algo que depois só vai trazer prejuízo para ela.

 

MidiaNews – No ano passado, houve o caso dos empréstimos consignados envolvendo servidores vítimas do chamado “golpe da selfie”. Como isso acontecia, secretária?

 

Mariana Borges – Recebemos um pedido do Ministério Público para levantar dados sobre consignados no Procon. Eu tinha cerca de dois meses à frente do órgão e, até então, havia apenas três reclamações. Então pensei: “precisamos estimular o servidor a denunciar e mostrar que o Procon pode resolver o problema”.

 

O servidor fazia um empréstimo inicial — com validação por selfie — e, depois, outras operações eram contratadas sem o seu consentimento.

Fizemos esse levantamento e encontramos diversas irregularidades. Havia bancos sem autorização do Banco Central para operar consignados e contratos sem o valor total da dívida — constava apenas “a confirmar” ou “a parametrizar”.

 

No caso da “selfie”, alguns empréstimos eram feitos por telefone. Como não havia assinatura física, utilizava-se a validação por foto. O problema é que houve vazamento de dados em nível nacional. Não posso afirmar quais empresas foram responsáveis, mas essas imagens passaram a ser usadas indevidamente.

 

Assim, o servidor fazia um empréstimo inicial — com validação por selfie — e, depois, outras operações eram contratadas sem o seu consentimento. Ele recebia apenas o valor do primeiro empréstimo, mas novas parcelas eram lançadas. Ao consultar o holerite, via o nome do banco e acreditava que ainda se tratava daquele contrato inicial.

 

Também identificamos casos de consignados na modalidade cartão de crédito, com cobrança de juros sobre juros. Por exemplo: o servidor gastava R$ 700 em um mês, parcelava esse valor, e no mês seguinte gastava mais R$ 500 — passando a incidir juros sobre ambos os valores acumulados.

 

Em dez meses de gestão, analisamos mais de 5 mil contratos de consignados. Montamos uma força-tarefa e capacitamos a equipe para esse trabalho. Desde o mutirão realizado em setembro do ano passado, ainda estamos em fase de conciliação com as instituições financeiras, especialmente nos casos de juros abusivos.

 

O consignado via cartão de crédito não é considerado adequado, pois segue a lógica de juros do cartão, e não do empréstimo consignado. A única característica de consignado é o desconto em folha. Ainda assim, não podemos declarar nulidade, pois o servidor recebeu o valor e tem obrigação de pagamento.

 

Outro problema identificado foi o superendividamento. Encontramos casos de servidores que recebiam apenas R$ 150 por mês após os descontos — ou seja, acima do limite legal da margem consignável.

 

Por isso, estamos criando, no Procon Cuiabá, um setor de superendividamento. Esses casos estão sendo direcionados para esse núcleo, que irá trabalhar na reestruturação das dívidas. Também estamos desenvolvendo, junto à Secretaria de Ordem Pública, um portal do consumidor com uma área específica para isso.

 

Nesse espaço, será possível construir um plano de pagamento que preserve ao menos 30% da renda do servidor. É uma questão delicada, pois não adianta propor um plano que ele não consiga cumprir.

 

Além disso, o núcleo oferecerá educação financeira e apoio psicológico, já que muitos enfrentam um ciclo difícil de sair. A previsão é que esse setor esteja estruturado até junho e, inicialmente, atenderá os casos já identificados. Depois, será ampliado para toda a população de Cuiabá.

 

Também há indícios de superendividamento relacionado a apostas online, como jogos do tipo “tigrinho”. Há, inclusive, solicitação do Ministério Público para investigar esses casos. A ideia é ampliar essa atuação para atender toda a população afetada.

 

 

 

MidiaNews - Secretária, há um número de quantos servidores estão em situação de superendividamento?

 

Mariana Borges: Se não me engano, são 12 servidores que identificamos naquele mutirão do consignado. Como eu disse, há casos em que o servidor passa a receber apenas R$ 100, R$ 150, às vezes R$ 900 por mês, diante de todos os descontos em folha.

 

Há casos em que o servidor passa a receber apenas R$ 100, R$ 150, às vezes R$ 900 por mês, diante de todos os descontos em folha

A análise do plano de pagamento vai muito além do consignado, ela considera todos os descontos que incidem sobre a folha. Hoje, por exemplo, o Judiciário autoriza descontos de até 30% para pensão, enquanto o consignado também pode comprometer outros 30%, e ainda há situações em que mais um banco aplica novos descontos.

 

Quando se observa o total, há casos em que até 60% da renda está comprometida, o que inviabiliza a sobrevivência do servidor. Por isso, nossa análise considera esse cenário completo.

 

Esses 12 casos foram usados como teste, para avaliar a receptividade dos bancos a um plano de renegociação e também para subsidiar o Judiciário com informações.

 

Vamos, inclusive, solicitar apoio do Ministério Público para avançar nessas renegociações. Em muitos casos, o servidor já tinha empréstimos consignados quando passou a ter descontos de pensão de 30%. Faltou, portanto, uma análise mais criteriosa do Judiciário ao autorizar esses descontos, verificando se já havia outros comprometimentos na renda.

 

Há situações em que mais de 50% da folha já está comprometida, deixando o servidor sem o mínimo necessário para sobreviver.

 

MidiaNews - O Procon atuou em vários estabelecimentos, principalmente no aumento irregular do preço dos combustíveis. Como é identificado esse abuso?

 

Mariana Borges - Hoje, o Procon Cuiabá integra um grupo de trabalho composto pelo Ministério Público, Polícia Civil, Procon estadual, ANP e outros órgãos reguladores do setor de combustíveis. Houve uma divisão de tarefas, já que temos o Procon municipal e o estadual com atuação concorrente. Para evitar retrabalho, organizamos as funções: o Procon estadual ficou responsável pela análise de preços, enquanto nós ficamos com a verificação de fraude em bombas e qualidade do combustível.

 

Com a guerra do Irã, no fim de fevereiro, recebemos orientações da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para que os Procons municipais também passassem a atuar na questão dos preços. Por isso, nas últimas operações, notificamos 151 postos de combustíveis da Capital e vamos realizar essa análise.

 

A orientação da Senacon é verificar o faturamento dos postos e analisar o seguinte cenário: antes da guerra, o combustível era comprado por um valor “X” e vendido por “X+Y”. Com base nas notas fiscais de compra e venda, o posto não pode, por exemplo, passar a praticar “X+3Y” no período entre o anúncio da guerra e o dia 14 de março.

 

Isso porque foi em 14 de março que a petroleira anunciou o aumento no preço dos combustíveis, em razão da alta do petróleo no mercado internacional, impactado pela guerra. Temos denúncias encaminhadas via Senacon e Polícia Federal de que postos em Cuiabá aumentaram em até R$ 1, o dobro do repasse esperado. E aqui falamos do dobro do repasse, não do valor final na bomba.

 

A análise considera o valor de compra e o valor repassado ao consumidor. Avaliamos quando ocorreu o aumento, quando o posto passou a comprar mais caro, quanto repassou, por quanto tempo manteve o preço, se houve redução e, mesmo assim, aumento posterior. Esse é o critério técnico adotado.

 

Estamos notificando os 151 postos — alguns ainda não foram. Parte deles já apresentou notas fiscais, e, com o apoio do contador do Procon, fazemos uma análise criteriosa. No dia da convocação da Senacon, em parceria com a Polícia Federal, fomos in loco, lavramos autos de infração e concedemos prazo para que os postos justifiquem aumentos de faturamento sem correspondente aumento no custo de aquisição.

 

Eles podem se justificar, mas precisam apresentar argumentos plausíveis. Não basta alegar aumento de despesas, é preciso comprovar com o quê.

 

No caso do etanol, o Procon estadual já identificou irregularidades e encaminhou estudos e pesquisas de preço à Polícia Civil e ao Ministério Público. Por isso, não atuamos novamente sobre esse ponto. Há diálogo entre os órgãos para divisão de tarefas e atendimento mais eficiente à população na questão dos combustíveis.

 

 

 

MidiaNews - A senhora acredita que ainda existe resistência por parte dos postos em relação à transparência sobre a formação dos preços?

 

Mariana Borges - Ninguém é obrigado a apresentar o balanço da empresa, isso é um fato. No entanto, temos acesso aos preços praticados pelas petroleiras e distribuidoras. A questão é entender essa variação: houve, por exemplo, aumento de 20 centavos no etanol de uma semana para outra, sem variação do dólar, do frete ou do preço na distribuidora.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Mariana Borges

"Ninguém é obrigado a apresentar o balanço da empresa, isso é um fato"

Recebi, inclusive do diretor do Sindipetróleo, um questionamento nas redes sociais: “Vocês não vão fiscalizar as distribuidoras?”. O Procon estadual já nos informou que está realizando essa fiscalização. Ou seja, estamos atuando em todas as frentes para entender o que está acontecendo, quem está ganhando e quem está perdendo nesse processo.

 

Nossa fiscalização não se limita aos postos de combustíveis, que são os revendedores finais. Também buscamos informações nas distribuidoras. No entanto, é importante destacar que a relação entre distribuidora e posto não é, em regra, competência do Procon, mas sim de órgãos reguladores como a ANP, podendo inclusive envolver investigação da Polícia Civil.

 

Quando falamos de relação de consumo, estamos nos referindo ao consumidor final, que adquiriu o produto. Por isso, entendo que essa relação entre distribuidoras e postos não se enquadra diretamente na legislação consumerista e, portanto, não seria, a princípio, responsabilidade do Procon.

 

Ainda assim, se houver determinação de órgãos superiores, como a Secretaria Nacional do Consumidor, atuaremos nesse sentido. De todo modo, já temos a informação de que o Procon estadual está fiscalizando as distribuidoras.

 

MidiaNews - Datas festivas, como Páscoa, Dia das Mães, Dia das Crianças, costumam trazer um aumento de denúncias sobre preços abusivos e propaganda enganosa?

 

Mariana Borges - A gente tem principalmente em relação a trocas, porque não existe na legislação brasileira que regule o comércio em relação à troca. Fica a critério do comércio. Isso não é culpa dos empresários, porque quando se tem um negócio, você é cuidadoso. Quando você contrata funcionários, eles estão ali para trabalhar, e não têm o mesmo cuidado e o mesmo zelo que você, dona do seu negócio, vai ter.

 

Essa questão da troca, às vezes até é uma falha do próprio vendedor de falar: "Olha, esse produto aqui, como você está comprando ele de mostruário, ele não tem direito à troca". 

 

Eu até brinco em todas as entrevistas que eu vou, que eu falo essa questão, que, por exemplo, tem uma loja de perfumes aqui muito famosa, daquela influenciadora que ficou conhecida pelas “bets”. A loja dela não efetua troca. Se você for ali comprar presencialmente, os próprios vendedores avisam. Então, é muito específico de cada estabelecimento essa questão da troca.

 

E também questão de compras online. Quando você compra online, você tem que ter a ciência de que o prazo da troca, que é previsto no Código do Consumidor, é de 7 dias. Esse prazo de 7 dias é garantido pela legislação. Direito de arrependimento. Ele conta a partir do momento que você recebe o produto. 

 

Por exemplo, uma passagem aérea. A gente tem muito problema de passagem aérea. Eu nunca vi as empresas aéreas dando o direito de arrependimento ao consumidor de 7 dias. Elas falam 24 horas, mas o Código do Consumidor fala 7 dias. E esse prazo contado de 7 dias é do pagamento. Tem ali alguns critérios que o consumidor não sabe e acaba arcando com o prejuízo e, às vezes, é uma falta de informação.

 

 

 

 

MidiaNews - Secretária, agora sobre a sua gestão. A senhora falou um pouco sobre os desafios estruturais que você tem percebido no Procon municipal. Como faz para fiscalizar uma cidade desse tamanho com essa equipe mais enxuta?

 

Mariana Borges - Agradeço à minha equipe imensamente por ter abraçado todas as fiscalizações que a gente faz. O Procon municipal nunca esteve presente em eventos, em shows, porque não tem direito a hora extra. É uma negociação que eu faço com eles para a gente ter a presença e o atendimento ao consumidor em grandes eventos.

 

É uma negociação que eu faço com eles para a gente ter a presença e o atendimento ao consumidor em grandes eventos

Foi a partir de setembro, no show do Henrique e Juliano, que a gente começou a ter o Procon em grandes eventos. Na inauguração do Parque Novo Mato Grosso, o Procon estava presente, atuando no atendimento, principalmente a PCD e menores de idade, que têm toda uma restrição de acompanhamento, de etiquetagem, de uso de pulseira diferenciada para que não possam comprar bebida alcoólica.

 

E a gente esteve no Guns N’ Roses, principalmente atuando na questão do PCD, que teve uma discussão aqui em Cuiabá nos eventos. É uma luta que eu estou encampando, porque é uma coisa que vai restringir o direito do PCD. Hoje, nos eventos aqui na cidade, não existe uma limitação de ingressos vendidos para PCD. Eles solicitam e é concedido, só que, quando a gente pensa em segurança do evento e até conforto para o PCD, a gente tem que limitar.

 

As casas noturnas aqui, os empresários de eventos, eu tive conversa na Fecomércio com esses empresários, e eles falaram: “A gente não limita porque sofre depois com o Ministério Público, que exige que a gente coloque aquele PCD para dentro”. Só que, quando a gente pensa em estrutura, e foi a primeira vez que teve restrição no show do Guns, foi por causa da própria empresa, do próprio grupo do Guns.

 

Eles falaram que tem que ter limitação, porque tem que ter segurança no evento. Teve o trágico episódio da Boate Kiss, em 2013. E, se acontece um incêndio numa casa de show, como a gente retira esses PCDs com segurança do evento se a gente não está limitando, se a gente não está dando um espaço adequado?

 

Hoje a gente tem esse livre acesso do PCD nos eventos, mas eu, enquanto órgão regulador do consumo, entendo que tem que ter, sim, uma restrição. Infelizmente é assim. Qual vai ser o critério? É o que acontece também. Não dá para a gente entregar esse ingresso antes, porque a gente também tem muita reclamação de revenda de ingressos PCD. Eu já fui a casa de show em que vi PCDs pegando o ingresso na hora e revendendo para outras pessoas.

 

Tem algumas deficiências que são invisíveis. Como que você garante que aquela pessoa é realmente deficiente? Você vai ficar questionando? Vai pedir para ela levar laudo? É até um desrespeito quando você exige uma série de documentações para o PCD ingressar. Mas a gente também tem um comércio de ingresso de PCD, uma violação da lei. É algo bem complicado.

 

Mato Grosso é um dos poucos estados da federação hoje em que o ingresso do PCD é 100% gratuito

Nesse enfrentamento junto à empresa que trouxe o Guns para Cuiabá, o Ministério Público concordou e falou: “Não, realmente a gente precisa limitar”. E foi a primeira vez que a gente viu o Ministério Público falando que tinha que ter limitação. Mato Grosso é um dos poucos estados da federação hoje em que o ingresso do PCD é 100% gratuito. Se você vai em outros estados, é garantida a meia-entrada. Então dá para ter um controle maior. Você consegue disponibilizar X ingressos e não tem essa venda indiscriminada.

 

Outro problema é na rodoviária. Pela primeira vez, o Procon Cuiabá tem dois locais de atendimento, um na rodoviária. Porque acontece muito de as empresas de ônibus venderem a passagem aqui e, quando o PCD, o idoso e outras pessoas previstas em lei da gratuidade embarcam, estavam tendo que pagar quando o trecho sai de Mato Grosso.

 

Por exemplo, para Goiânia, você tem que pagar a meia-entrada, porque lá em Goiânia o PCD e o idoso não são gratuitos. Mas a sua relação de consumo é aqui no Mato Grosso: você comprou a passagem de ida e volta aqui, então tem que garantir a gratuidade do trecho inteiro. A gente abriu esse ponto na rodoviária justamente para combater esse abuso.

 

MidiaNews - E quando o prefeito Abílio te nomeou, ele fez algum pedido específico? Prioridade na fiscalização ou no atendimento direto ao consumidor?

 

Mariana Borges - No ano passado, a gente aprovou uma lei que modificou a estrutura do Procon. Antes, o Procon não tinha cargos, era só o cargo de secretário e o cargo de um assessor executivo, que nem estava mais no âmbito do Procon. A gente modificou a lei, com o apoio do prefeito, e agora a gente vai ter coordenadores de fiscalização, coordenadores de junta de julgamento e coordenadores de conciliação. A gente precisa ter pessoas responsáveis por esses setores.

 

Ele também deu apoio para a gente fiscalizar. O Abílio é uma pessoa que defende muito o empresário. Inclusive, ele até fala assim para mim: “Vai com o pé no freio, porque eu não quero exposição dos empresários”. Se a gente encontra produtos com larva em um supermercado X, ele não gosta que a gente exponha o estabelecimento. Porque, querendo ou não, a gente pode acabar quebrando o empresário, e isso é muito ruim.

 

Eu recebo muita crítica em relação a isso nas minhas redes sociais: “Por que você não divulga o mercado que foi?”. Porque eu também entendo que vou prejudicar o empresário que cometeu um erro. Se eu já chego multando, com dois pés na porta do estabelecimento, o que eu vou fazer? Prejudicar o empresário. E quando eu falo da gente fiscalizar com responsabilidade, é isso.

 

Eu falo nas minhas redes sociais, no meu Instagram, no meu Facebook, no meu privado: eu jamais vou expor o comerciante. Eu vou trazer transparência da nossa fiscalização. A gente lavrou auto de infração nessa fiscalização que fizemos hoje, encontramos isso, isso e aquilo, mas não vou expor.

 

O Abílio é uma pessoa que defende muito o empresário. Inclusive, ele até fala assim para mim: “Vai com o pé no freio, porque eu não quero exposição dos empresários”.

Eu lembro que no meu primeiro estabelecimento que eu cheguei a fechar, foi uma mecânica de troca de pneus. Ele falou assim: “Fiquei sabendo que você fez uma fiscalização, você fechou o local?”. Eu falei: “Fechei”. Ele perguntou o porquê, e eu expliquei a denúncia que recebemos: “O senhor foi trocar os quatro pneus do carro. Ele deixou o veículo pela manhã e foi buscar no horário do almoço, e a conta tinha dado R$ 32 mil pela troca de pneus”.

 

Depois a gente descobriu uma série de irregularidades, de venda casada e de serviços sem autorização. E aí a gente foi junto com a Secretaria de Ordem Pública e chegou a interditar o local. Quando eu contei, ele falou: “Esse aí você pode divulgar, porque está errado”. Ele é bem criterioso e puxa minha orelha quando eu vou além, mas eu tive super apoio dele, principalmente na questão dos postos de combustíveis.

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