Cuiabá, Segunda-Feira, 9 de Fevereiro de 2026
ROSANA LEITE
09.02.2026 | 08h41 Tamanho do texto A- A+

Betty Davis, a Rainha do Funk

Sua música não buscava conciliação, sua imagem não buscava aceitação

A cantora e compositora Betty Davis nasceu em 26 de julho de 1944, em Durham (Carolina do Norte), e fez a passagem em 9 de fevereiro de 2022 em Homestead, na Pensilvânia.

           

Historicamente a música sempre foi marcada por silêncios cuidadosamente produzidos. Mulheres que ousaram falar demais, desejar demais ou existir fora dos limites tolerados foram, com frequência, apagadas, rotuladas como “difíceis” ou reduzidas a notas de rodapé. Betty Davis é diferenciada, pois a sua trajetória não é apenas a de uma cantora de funk ousada dos anos 1970, mas a de uma mulher negra que confrontou, com o próprio corpo e a voz, as estruturas patriarcais da indústria musical e da sociedade norte-americana.

           

Ela não pediu permissão para existir artisticamente. Sua música não buscava conciliação, sua imagem não buscava aceitação, e sua sexualidade não se curvava ao olhar masculino. A era e o cenário cultural em que viveu até aceitava mulheres negras, desde que fossem dóceis, decorativas ou silenciosas. Betty Davis escolheu o confronto, pagando caro por isso.

           

As letras da música da artista falavam de prazer, autonomia sexual, controle do próprio corpo e rejeição à submissão afetiva. Não se tratava de erotização pensada para o consumo masculino, mas de uma sexualidade afirmada a partir da própria mulher.

           

O que sempre foi visível e aceitável na sociedade patriarcal é a sexualização feminina para servir ao prazer masculino. Quando a mulher reivindica o desejo como algo próprio, ativo e indomável, deixa de ser objeto e passa a ser sujeito, não podendo ser artefato de controle.

           

Betty Davis cantava como quem afronta, com voz rasgada, agressiva, às vezes quase falada, e a romper com a expectativa de suavidade feminina. A cantora não “adoçava” o discurso, e não modulava o tom para parecer tolerável. Foi taxada de “excessiva”, “ameaçadora” e “incontrolável”, sendo destruída pela crítica com o mesmo comportamento que consagra homens.

           

Foi boicotada pela indústria musical, com censura velada e estações de rádio que se recusavam a tocar as suas músicas. Produtores a viam como um “problema”, por sobrar independência em tanto talento musical. Sofreu a punição simbólica do esquecimento com o silenciamento da sua arte. 

             

Betty Davis não foi “influência”, “musa” ou “acessório” de ninguém. Ela foi autora da sua estética, da sua linguagem musical e da sua postura política. Sua obra carrega identidade própria, radical e autônoma.

           

O feminismo dela foi visível no gesto, no palco, na roupa, nas letras, e na recusa em ser domesticada. O seu corpo resistiu fazendo política e arte e nos fez pensar: até que ponto a sociedade está disposta a ouvir mulheres, quando elas não suavizam a fala, não pedem desculpas e não tornam sua existência agradável?

           

Essa brilhante artista representa e dita que as mulheres negras têm direito ao desejo, à raiva, à criação e à complexidade. Não há esquecimento por falhas, mas por ter “ousado” demais. E sim: ela foi silenciada por ter ousado demais. E talvez seja exatamente por isso que, hoje, a sua voz ecoa com tanta força.

           

Betty Davis não “cabia” em rótulos, pois cantava o que o patriarcado mandava calar.

 

Rosana Leite Antunes de Barros é defensora pública estadual e mestra em Sociologia pela UFMT.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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