O primeiro reflexo do Brasil polarizado diante da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não foi geopolítico. Foi tribal. As torcidas que hoje organizam o debate político entre bolsonarismo e esquerda correram para interpretar o que acontecia no país vizinho como extensão da própria guerra doméstica. Para uma parte, a ação americana virou cruzada moral contra um ditador.
Para outra, qualquer crítica ao chavismo passou a ser tratada como submissão automática ao imperialismo. É a cegueira típica das torcidas. Não se olha o tabuleiro regional, não se analisa o precedente internacional, apenas se reage a partir do próprio espelho político. Nesse ambiente, o mundo real desaparece.
Esse ambiente polarizado já começa a se converter, de forma explícita, em instrumento eleitoral para as eleições de 2026. A crise venezuelana passa a ser colada ao governo Lula como rótulo político, reativando o discurso de que o presidente seria conivente com ditaduras e que o Brasil estaria a caminho de se tornar uma “nova Venezuela”. Ao mesmo tempo, presidenciáveis de direita e extrema-direita já sinalizam alinhamento elogioso à postura de Trump, exaltando a ação americana como demonstração de força e decisão, sem qualquer problematização sobre soberania.
Feita essa constatação sobre o Brasil, é preciso olhar para os fatos. Não há relativização possível sobre o que representou o regime de Maduro. A Venezuela foi submetida a um governo autoritário, marcado por perseguição política sistemática, repressão, captura das instituições e colapso econômico profundo. A miséria não foi acidente, mas consequência direta de um modelo de poder concentrado em uma elite burocrática enquanto milhões de venezuelanos eram empurrados para fora do país. A rejeição social a Maduro é compreensível.
O ponto crítico surge depois. A captura de Maduro foi justificada pelo discurso do combate ao narcotráfico, mas as falas iniciais de Trump deixaram claro que a democracia não era o eixo da ação. O foco foi material. Controle, influência e acesso ao petróleo venezuelano. Direitos humanos e crime organizado funcionaram como moldura moral, subordinando a soberania venezuelana a interesses estratégicos.
É nesse ponto que o episódio venezuelano dialoga diretamente com o Brasil. O país acabava de recompor, no último ano, uma relação com os Estados Unidos marcada por tarifas, ameaças comerciais e constrangimentos diplomáticos, tensionamentos que, em determinado momento, tiveram como pano de fundo o discurso de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e um suposto alinhamento político-ideológico.
E é nesse contexto que o discurso do presidente Lula deve ser lido. Ao condenar a ação, afirmar a violação da soberania e do direito internacional e defender o multilateralismo sem citar nominalmente Trump ou os Estados Unidos, o presidente fez uma escolha deliberada. Optou por criticar o método sem escalar o conflito. Foi pragmatismo, não concessão.
Em um cenário de precedentes perigosos, a contenção foi estratégia, não silêncio. Até porque o risco contemporâneo não se expressa apenas por tanques ou intervenções diretas. Instrumentos silenciosos, porém eficazes, já foram utilizados no passado recente, inclusive contra o Brasil, que passou a incomodar os Estados Unidos por seus movimentos no tabuleiro internacional, pela ampliação do protagonismo no BRICS, pelo debate sobre a redução da centralidade do dólar e pelo peso estratégico de seus minérios.
O posicionamento do presidente, tido como blasé, não agradou as duas principais torcidas do tabuleiro político brasileiro. A direita instrumentalizou a fala de Lula para reforçar a caricatura de que ele seria conivente com regimes autoritários, enquanto a esquerda reagiu com frustração por esperar um confronto mais direto com Trump.
A Venezuela, vista do Brasil, revela menos sobre Caracas e mais sobre nossas próprias limitações. Expõe como a polarização interna converte a geopolítica em torcida, transforma métodos de força em aplauso ou rejeição automática e bloqueia a compreensão do que está em jogo. Ao naturalizar a violação de regras em nome de discursos morais convenientes, legitima-se um precedente que ultrapassa governos e ideologias. Quando isso ocorre, o problema deixa de ser um governante específico e passa a ser o próprio funcionamento do sistema internacional. E esse risco não escolhe lado nem poupa quem hoje acredita estar protegido.
Christiany Fonseca é cientista política e doutora em Sociologia pela UFSCAR.
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1 Comentário(s).
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| Rodrigues Schneider 09.01.26 13h56 | ||||
| Li com atenção o artigo “Estados Unidos x Venezuela: o espelho do Brasil polarizado” e considero pertinente a forma como a senhora evidencia que o debate brasileiro sobre política externa tem sido, com frequência, capturado por lógicas internas de polarização, substituindo análises substantivas por reações identitárias quase automáticas. De fato, o caso venezuelano revela menos sobre a Venezuela em si e mais sobre as fraturas do debate público brasileiro. A dificuldade de reconhecer, simultaneamente, o caráter autoritário do regime de Nicolás Maduro e a historicidade das intervenções norte-americanas na América Latina demonstra como parte significativa do debate opera em termos binários, incapaz de sustentar posições críticas complexas. Nesse sentido, concordo com a premissa de que a política externa tem sido instrumentalizada como extensão simbólica das disputas domésticas. No entanto, creio que o desafio central não reside apenas na polarização, mas na fragilidade de uma cultura política que ainda confunde análise geopolítica com alinhamento moral automático. Criticar violações de direitos humanos na Venezuela não equivale a legitimar intervenções estrangeiras; assim como rejeitar ações unilaterais dos Estados Unidos não implica relativizar autoritarismos locais. Talvez o ponto mais relevante do seu texto seja justamente a denúncia dessa incapacidade de sustentar posições simultaneamente críticas — uma exigência básica do pensamento democrático e do direito internacional contemporâneo. A soberania, os direitos humanos e o multilateralismo não são valores excludentes, mas frequentemente tratados como tais no debate público brasileiro. Por fim, considero acertada a observação de que o posicionamento institucional do Brasil, ainda que alvo de críticas, tende a ser mais prudente e juridicamente consistente do que as narrativas passionais que dominam as redes sociais e parte da arena política. Recuperar o espaço da racionalidade, da diplomacia e da análise informada talvez seja o maior desafio que o artigo, implicitamente, nos convoca a enfrentar. | ||||
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