Cuiabá, Quinta-Feira, 2 de Abril de 2026
KHARINA NOGUEIRA
30.11.2010 | 16h03 Tamanho do texto A- A+

Falar é fácil, quero ver encarar

Os problemas do dia-a-dia nos irritam porque criamos muita expectativa

Quando algum imbecil fechar seu caminho lembre-se de Sêneca. Quando lhe deixarem horas esperando em pé na fila do banco, quando lhe enviarem um cartão de crédito não solicitado ou aumentarem as tarifas telefônicas, para variar lembre-se dele também.

Não que o velho filósofo tenha sido bom motorista, cidadão ou consumidor, mas porque já na Roma antiga ele percebeu que a raiva não leva a lugar algum, exceto à cova, e normalmente mais cedo do que gostaríamos.

Falar é fácil, difícil é se controlar na hora H. Mas compreender esse sentimento segundo o ponto nos ajuda a lidar com ele e, conseqüentemente, com as situações desagradáveis que a vida impõe.

Isso porque grande parte dos acontecimentos estaria sob o controle da deusa Fortuna, administradora do destino dos homens, e desafiar o poder divino estava fora de cogitação.

Não restava nada a fazer, exceto se consolar com a idéia de que, se não podemos mudá-los, temos ao menos a liberdade de determinar a maneira como reagimos a eles. Afinal, "tudo depende do conceito que temos das coisas", ou seja, da maneira como as enfrentamos.

Por que deixamos os problemas do dia a dia nos irritar? Porque criamos muita expectativa a respeito deles, sem sequer termos o mérito. Depois, quando a realidade dá as caras e carrega nossos desejos para o ralo, não sabemos responder à frustração decorrente.

Quer dizer, o trânsito nos irrita porque, cada vez que tiramos o carro da garagem, acreditamos, ainda que inconscientemente, que ninguém cometerá barbeiragens pelo caminho. O aumento das tarifas nos tira do sério porque estávamos seguros de que nenhuma empresa teria a ousadia de planejar a exploração de nossos bolsos enquanto aguardávamos pacientemente a conta chegar; enquanto a fila do banco nos deixa com vontade de falar mal de todos em voz alta porque, em nossa vã ingenuidade, ninguém teria pensado em levar a cabo seus afazeres financeiros exatamente no mesmo instante que nós, por mais que seja hora do almoço do dia trinta.

A filosofia, no entanto, está aí para nos ensinar a sermos felizes, mesmo que isso signifique encarar a vida com um pouquinho de pessimismo. Se assumirmos que o mundo não é perfeito e não deixarmos as expectativas nos iludirem, as situações que fogem ao nosso controle serão aceitas mais facilmente.

É um exercício que vale a pena experimentar. Pela manhã, antes de sair de casa, pense em tudo que pode dar errado: o trânsito, a xícara de café derramada na calça, as reuniões intermináveis, o almoço engolido em cinco minutos, o telefone que não para de tocar, o salto alto quebrado, o banco lotado, o chefe mal humorado e a necessidade súbita de fazer hora extra durante a novela ou o campeonato brasileiro. Pense também que não há nada que você possa fazer para impedir esses desastres. Assim, tudo o que sobrar será lucro.

Parece uma maneira por demais melancólica de encarar a vida, lembra até aquela hiena dos desenhos animados que vivia resmungando "Oh, vida. Oh, azar". Só que o segredo é não exagerar, afinal, trata-se de um exercício filosófico cujo objetivo é mostrar que não temos controle sobre tudo e que, portanto, ninguém precisa sofrer com isso. Talvez o termo exato nem seja "pessimista", apenas "racional" ou mesmo "realista".

Sofrer por antecipação nos faz perder o presente por medo do futuro. "Somos, no mais das vezes, mais vítimas do nosso terror do que dos perigos reais, e sofremos mais com a idéia que fazemos das coisas do que com as próprias coisas". Não sejamos infelizes antes da hora, porque os perigos que tememos talvez nunca cheguem.

O filósofo Sêneca era um homem que sabia das coisas. Escreveu mais de vinte livros inspirado no que acontecia ao seu redor, o que nos permite supor que a vida não era fácil naquela época. Em 49 d.C., só para citar um exemplo, o filósofo recebeu a ingrata tarefa de educar um menino rebelde, metido a dono do mundo, que mais tarde se tornaria o temível imperador Nero e o condenaria ao suicídio induzido.

Portanto, quando alguma coisa tirar você do sério, pense em tudo que Sêneca aprendeu e que ainda hoje nos serve de lição. E, quando alguém quiser lhe consolar dizendo que "vai ficar tudo bem", não se iluda. Considere apenas que, se não ficar tudo mal, já será um ótimo resultado.

KHARINA NOGUEIRA é colunista social e relações públicas em Cuiabá.
http://www.sobremesacomkharinanogueira.blogspot.com

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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COMENTÁRIOS
4 Comentário(s).

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carlos frederick  01.12.10 02h29
Muito inteligente o artigo e me foi muito útil. Obrigado.
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amanda sanches  01.12.10 01h03
Kharina, sou sua leitora, adorei o seu novo Blog, muitas pessoas serão ajudadas, tenha certeza. Coragem nunca lhe faltou, disso todos sabem. Que pena, que muitos te subestimem, porque após sua experiência tão pré-matura sua bagagem interior é mais sensacional do que a embalagem. Só sinto, porque vc foi mais uma em que a Justiça não prevaleceu e você saiu sem nada, quando antes tinha estabidade. Siga em frente, você é vencedora de tudo que cometeram contra vc e mesmo assim continua uma pessoa cheia de amor no coração. O mundo é redondo. Amanda
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Carlos Sampaio  30.11.10 18h34
alem de linda é inteligente...parabens
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Renato Migueis Olavarria Filho  30.11.10 17h38
Muito bom minha amiguinha do face. Concordo com tudo. Passei por isso agora antes de ler seu texto. Um beijo. Renato
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