Cuiabá, Terça-Feira, 20 de Janeiro de 2026
CLAITON CAVALCANTE
20.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Mané coisa nenhuma

Senegal levantou a taça, tornando-se bicampeão africano de futebol

Eram 53 minutos do segundo tempo, quando a final da Copa Africana de Nações vivenciou uma das maiores bizarrices da história do futebol, praticada pelo árbitro da partida. A marcação de um pênalti pra lá de duvidoso. Minutos antes, o árbitro já havia anulado, de maneira também duvidosa, um gol da seleção visitante.

 

A partir disso pode-se inferir que o torneio de futebol do continente africano não revelou apenas um campeão. Revelou um homem. Senegal superou a anfitriã Marrocos, mas o que transformou aquela decisão em algo maior foi a presença serena, firme e decisiva de Sadio Mané.

 

Mané vem de Bambali, uma pequena vila no interior do Senegal onde a pobreza não era discurso; era rotina. O senegalês cresceu entre dificuldades materiais, ausência de estrutura esportiva e poucas perspectivas. Jogava futebol descalço, em campos improvisados, carregando mais sonhos do que certezas.

 

O sucesso não o afastou das raízes. Ao contrário, ampliou seu compromisso com elas. Já consagrado no futebol europeu e mundial, Mané retornou a Bambali para construir hospitais, escolas, centros comunitários, além de garantir auxílio financeiro mensal a famílias da região. Investiu em educação, saúde e dignidade. Uma de suas frases preferidas é “para mim, é o suficiente ter minhas necessidades básicas. Não preciso de dezenas de relógios de ouro, prefiro que meu povo receba um pouco do que a vida me deu.”

 

Essa grandeza apareceu também no momento mais tenso da final. Após a marcação de um pênalti que gerou revolta, o técnico senegalês cogitou retirar o time de campo. O jogo ameaçava se perder. Foi Mané quem interveio. Chamou os companheiros, pediu equilíbrio, trouxe todos de volta. Liderou sem gritar, sem confrontar, sem inflamar.

 

Após a cobrança de pênalti desperdiçada pela seleção marroquina e quando a bola voltou a rolar, ele fez o que grandes jogadores fazem: decidiu. Na prorrogação, Mané com passe de calcanhar, participou da origem da jogada do gol, iniciando a construção ofensiva com inteligência e leitura de jogo, maestria que culminou no gol de Pape Gueye. Não foi apenas técnica. Foi entendimento do momento, entrega ao coletivo e maturidade competitiva.

 

Não por acaso, essa conquista dialoga com a música Canto para o Senegal, grande sucesso da Banda Reflexus no final dos anos 80. A canção celebra orgulho, identidade e pertencimento, exatamente o que Mané representa para seu povo. Ele é o menino de Bambali que venceu o mundo sem abandonar a própria história. Talvez seja a personificação majestosa dos Baobás.

 

Em tempos em que ídolos muitas vezes se limitam ao talento, Sadio Mané prova que a verdadeira grandeza está em quem se torna referência dentro e fora de campo.

 

Enfim, Senegal levantou a taça, tornando-se bicampeão africano de futebol. E Mané confirmou que não é mané coisa nenhuma, reafirmou algo ainda mais raro: é possível ser estrela mundial e comandar uma seleção sem deixar de ser humano.
 
Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis e do Instituto dos Contadores do Brasil.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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