As próximas eleições no Brasil se anunciam como mais um capítulo de um enredo que vem se repetindo com intensidade crescente: a substituição do debate racional por uma guerra simbólica, emocional e identitária. No entanto, é preciso afirmar com clareza: não é sobre direita ou esquerda, não é sobre Lula ou a família Bolsonaro; é sobre consciência dos problemas reais do Brasil e de cada estado. O que está em jogo não é apenas a escolha de representantes, mas a própria capacidade da sociedade de pensar, discernir e decidir com lucidez.
Desde Aristóteles, a política foi concebida como a arte de deliberar sobre o bem comum. No entanto, quando a deliberação cede lugar à paixão desmedida, a política se transforma em sua própria negação. Hannah Arendt alertava que o maior perigo para a vida pública não é apenas a mentira, mas a incapacidade das pessoas de distinguirem verdade de ficção.
O que vemos hoje é uma política capturada por narrativas simplificadoras: “nós contra eles”, “bem versus mal”. Essa lógica não esclarece, ela obscurece. Não eleva, reduz. E, sobretudo, impede o pensamento crítico. A complexidade dos problemas nacionais é substituída por slogans, como se o Brasil pudesse ser explicado em um meme.
Do ponto de vista psicológico, o cenário é igualmente preocupante. A dinâmica da polarização ativa mecanismos emocionais profundos: medo, raiva, necessidade de pertencimento. A teoria da psicologia das massas de Gustave Le Bon já demonstrava que, em grupo, o indivíduo tende a perder sua capacidade crítica, agindo por impulso e contágio emocional.
Além disso, a dissonância cognitiva, estudada por Leon Festinger, explica por que muitos eleitores rejeitam fatos que contradizem suas crenças políticas. Não se trata mais de analisar a realidade, mas de defendê-la emocionalmente, como se fosse uma extensão da própria identidade.
O resultado é um fenômeno inquietante: as pessoas estão agindo fora de si e da realidade, guiadas mais por paixão e ódio do que por razão. A política deixa de ser um exercício de consciência e se torna uma arena de catarse emocional.
Sob a lente sociológica, o Brasil reflete uma sociedade profundamente fragmentada e doente. As redes sociais, analisadas por Manuel Castells, amplificaram vozes, mas também criaram bolhas de pensamento. Cada grupo vive em sua própria narrativa, reforçada por algoritmos que privilegiam o engajamento e nada engaja mais do que o conflito.
Essa fragmentação gera um ambiente onde o outro não é mais um adversário político, mas um inimigo moral. A divergência deixa de ser legítima e passa a ser intolerável. Assim, a política perde sua função mediadora e se transforma em campo de batalha simbólico.
Do ponto de vista das ciências políticas, a polarização não é apenas um fenômeno espontâneo, ela também é estrategicamente alimentada. A lógica do “nós contra eles” é altamente eficaz do ponto de vista eleitoral. Ela simplifica a mensagem, mobiliza emoções e fideliza bases.
Como já indicava Joseph Schumpeter, a democracia moderna funciona como uma competição por votos. Nesse contexto, transformar o adversário em ameaça existencial pode ser uma estratégia poderosa.
Mas há um custo: ao reduzir o debate a uma dicotomia moral, perde-se a capacidade de discutir políticas públicas concretas. Questões como saúde, educação, infraestrutura, segurança e desenvolvimento regional ficam em segundo plano, eclipsadas por disputas narrativas. A publicidade política baseada na lógica do confronto, do “bem contra o mal”, não apenas simplifica a realidade: ela emburrece o debate público. Ao transformar questões complexas em disputas emocionais, ela impede o amadurecimento político da sociedade.
O eleitor deixa de ser cidadão e passa a ser torcedor. E, como em qualquer torcida, o objetivo não é compreender, mas vencer ainda que isso signifique ignorar a realidade.
As próximas eleições no Brasil exigem mais do que escolhas partidárias; exigem um reencontro com a consciência. É preciso romper com a lógica reducionista que transforma a política em espetáculo e recuperar sua essência como instrumento de transformação social.
Não é sobre direita ou esquerda. Não é sobre Lula, PT ou a família Bolsonaro. É sobre compreender os problemas reais do Brasil e de cada estado, com responsabilidade, lucidez e compromisso com o futuro.
Se a sociedade continuar refém do ódio e da paixão, a democracia sobreviverá apenas na forma, mas não no conteúdo. E uma democracia sem consciência não passa de um rito vazio barulhento, emocional e profundamente desconectado da realidade.
João Edisom de Souza é analista político e professor universitário.
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1 Comentário(s).
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| inácio 13.04.26 13h14 | ||||
| Que texto necessário! | ||||
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