Ao preparar e ministrar a aula de “Introdução à Ética no Agronegócio” para meus estudantes de Zootecnia na UFMT, retomei uma convicção que já me acompanha, reforçada pela minha vivência internacional: o futuro do agro não será decidido apenas pela produtividade, mas pelas decisões éticas, individuais e coletivas, tomadas quando ninguém está olhando.
O agronegócio brasileiro acostumou-se a competir com base em eficiência: produzir mais, melhor e, muitas vezes, mais barato. Esse foi e continua sendo um dos pilares da nossa competitividade global.
Mas há uma mudança silenciosa em curso. E ela não está da porteira para dentro. O mundo já não compra apenas produtividade. Compra confiança.
Grande parte do que sustenta o agro moderno é invisível. O consumidor não vê como o animal foi tratado, não acompanha o manejo no campo, não conhece os detalhes do processo produtivo. Ainda assim, ele consome. Ele confia, ou melhor, precisa confiar. E essa confiança é o verdadeiro ativo que sustenta, cada vez mais, as cadeias agroalimentares globais.
O problema é que confiança não se constrói apenas com conformidade legal. A lei responde à pergunta: “isso é permitido?”. O mercado internacional, cada vez mais, responde a outra: “isso é aceitável?”. E a ética, por sua vez, exige uma terceira reflexão: “isso é correto?”.
É nesse deslocamento do “posso” para o “devo” que o agro brasileiro precisa amadurecer.
Hoje, decisões aparentemente pequenas carregam consequências globais. Por exemplo, reduzir custos à custa do comprometimento do bem-estar animal, ainda que dentro da legalidade, pode parecer irrelevante no curto prazo. Mas, no longo prazo, essas escolhas se acumulam e moldam reputações. E reputação, no cenário internacional, define acesso.
A lógica é simples e implacável: sem ética, não há confiança; sem confiança, não há mercado.
Não se trata de teoria filosófica distante. Trata-se de realidade econômica.
Mercados exigentes, como União Europeia, Ásia e segmentos premium globais, estão cada vez mais atentos a critérios de sustentabilidade, bem-estar animal, emissões e transparência. Certificações, rastreabilidade e padrões ESG deixaram de ser diferenciais. Tornaram-se requisitos mínimos para acesso a esses mercados.
Nesse contexto, a ética deixa de ser um tema abstrato. Ela passa a ser uma variável estratégica de competitividade internacional.
E isso muda tudo.
Porque, diferentemente da tecnologia, a ética não se implementa apenas com investimento. Ela se manifesta em decisões cotidianas, muitas vezes quando ninguém está olhando. É ali, no detalhe invisível, que se constrói ou se compromete a credibilidade de todo um sistema.
O profissional do agro, como em breve serão meus estudantes de zootecnia e agronomia, não forma apenas produção. Forma confiança. Suas decisões impactam a segurança alimentar, o meio ambiente, o bem-estar animal, a economia e, sobretudo, a percepção que o mundo constrói sobre o Brasil.
E essa percepção importa.
Mato Grosso, como protagonista global da produção agropecuária, sente isso de forma ainda mais intensa. Quanto maior a relevância e a exposição, maior a responsabilidade.
Não basta produzir bem. É preciso decidir bem.
A internacionalização do agro brasileiro não será sustentada apenas por volume, escala ou eficiência. Ela será sustentada por credibilidade. E credibilidade, no fim das contas, é ética aplicada de forma consistente ao longo do tempo.
O novo passaporte do agro brasileiro não é apenas sanitário, técnico ou logístico.
É ético.
E ele é carimbado todos os dias, em decisões que, muitas vezes, ninguém vê.
Lucas Oliveira de Sousa é PhD em Ciências Agrícolas (Universität Hohenheim, Alemanha), professor da UFMT.
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