Cuiabá, Sábado, 24 de Janeiro de 2026
JOEL MESQUITA
24.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

O alto preço de proteger

No imaginário coletivo, ser policial é algo grandioso, um herói moderno

No imaginário coletivo, ser policial é algo grandioso. Um herói moderno, pronto para enfrentar o mal e proteger quem precisa. É assim que nos veem: firmes, corajosos, quase inabaláveis. Mas essa imagem costuma durar apenas até o fim do turno. Depois que as luzes se apagam e o silêncio pesa, sobra o homem — ou a mulher — que a farda não consegue esconder.

 

Fernando Pessoa escreveu que “o que vemos não é o que vemos, senão o que somos”. Talvez por isso poucos enxerguem o que realmente carregamos. Pouco se fala sobre o que a violência cotidiana faz com a alma de quem a enfrenta todos os dias. O uniforme não nos transforma em máquinas. Somos pessoas. E pessoas sentem, sofrem, adoecem.

 

Convivemos diariamente com o pior do ser humano. Corpos dilacerados, famílias despedaçadas, crianças violentadas, sonhos interrompidos. A cada ocorrência, algo se perde dentro de nós. Um gesto, uma crença, uma parte da humanidade fica pelo caminho. Não por escolha, mas porque sobreviver emocionalmente exige endurecer. Como se fosse preciso criar uma armadura invisível para continuar respirando.

 

Não escrevo para apontar culpados. Escrevo para falar do preço. Há quem tente anestesiar a dor com álcool. Há quem afunde em silêncios profundos chamados depressão. Outros dependem de comprimidos para dormir, acordar ou simplesmente existir. Tudo isso enquanto seguimos aparentando força — porque o mundo espera força.

 

Por trás da farda que vestimos com orgulho, muitas vezes há uma alma em frangalhos. Um coração cansado. Uma mente povoada por imagens que jamais desaparecerão. Alguns não suportam o peso. E morrem. Não pelas mãos do inimigo, mas pela própria dor. O suicídio já nos mata mais do que os confrontos armados. Ainda assim, esse dado segue sendo tratado como estatística, quando deveria ser tratado como urgência.

 

Em 2021, perdi uma amiga. Uma policial. Uma vida. A dor ainda é recente, e o luto é profundo. Mas seguimos. Seguimos trabalhando. Seguimos atendendo ocorrências. Seguimos fingindo que está tudo bem. O mundo não para para a nossa dor — e, de certo modo, aprendemos a não parar também.

 

Quando perguntam por que não desistimos, por que continuamos, não sei responder com precisão. Talvez seja como disse Pessoa, ao afirmar que “viver é ser outro”. Tornamo-nos outros ao longo do caminho. Como um soldado que odeia a guerra, mas já não sabe existir fora dela. A adrenalina, o caos, o sofrimento alheio passam a fazer parte da nossa identidade. E seguimos.

 

Para quem nunca viu a morte de perto, nossa rotina pode parecer simples. Mas só entende o que é ser policial quem já recolheu restos humanos do asfalto ou ouviu, em silêncio, o relato de um crime cometido contra uma criança. Essas imagens não se apagam. Elas nos acompanham para sempre, como sombras fiéis.

 

É preciso olhar para o adoecimento policial com humanidade. Nem tudo é falta de escolha. Muitas vezes, é uma mente ferida. Uma alma exausta. Um pedido de socorro que ninguém quis — ou soube — ouvir.

 

Joel Mesquita é sociólogo e escrivão de Polícia.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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