Cuiabá, Terça-Feira, 21 de Maio de 2019
JOSÉ ANTONIO LEMOS
12.02.2019 | 07h33 Tamanho do texto A- A+

Ruínas do Centro Histórico

É a destruição da história de cada um de nós; e um povo sem história, morre

As lágrimas que caem a cada desmoronamento no centro histórico de Cuiabá, mesmo as dos crocodilos, não caem pelo patrimônio que se esvai, caem por nós. O que estamos fazendo com a história de Cuiabá, parte significativa da história do Brasil, faz lembrar John Donne, que conheci numa citação de Hemingway: ”A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

 

A história é antes de tudo a história dos homens que a protagonizam deixando marcas ao longo do tempo em suas diversas manifestações como arquitetura, pintura, música, literatura, tecnologia e outras que passam a ser consideradas a própria história que as gerou, tomando a obra pelo seu criador. Parafraseando Donne, a cada patrimônio perdido diminui cada cuiabano de coração, nato ou não, pois somos parte direta dessa história de Cuiabá. Daí, a dor e as lágrimas dos cuiabanos pela destruição acelerada de seu centro histórico pois é a destruição da história de cada um de nós e de todos nós, e um povo sem história morre, desaparece. Não pergunte, pois, por quem choramos, choramos por nós, pela nossa própria destruição, que acelera a cada eventual patrimônio que desaparece.

 

Foi-se o Palácio Alencastro, depois a Catedral e o sobradão do antigo PSD. Qual será o próximo?

O que seria a história presente se não a construção do futuro com as condições deixadas pelo passado? Ou, a história não seria o futuro chegando rapidinho, tornando-se presente e de imediato virando passado? Passado, presente e futuro são momentos diferentes de um mesmo fluxo, a história. Assim, chorar pela destruição da história é prantear também pelo presente e pelo futuro. Em especial no caso de Cuiabá pois seu maior patrimônio histórico é o futuro.

 

Que outro motivo haveria para as gerações passadas sofrerem tanto isolados neste ermo do mundo, a não ser para legar ao futuro uma localização mágica, que hoje se revela privilegiada e estratégica no exato centro do continente sul-americano e centro de uma das regiões mais ricas do planeta? Daí o atual dinamismo vivido por esta cidade, iluminada pelo futuro que brilha à sua frente. Bem diferente de suas irmãs do ciclo do ouro transformadas em museus, Cuiabá segue viva em função do futuro que lhe foi legado. Falta-lhe compatibilizar o futuro com o passado, como fazem as melhores cidades do mundo. Sabem que cuidar do passado é promover o orgulho local e gerar renda e empregos de qualidade.

 

Outro dia desmoronou a Gráfica Pepe, casarão de refinada arquitetura, queda anunciada e assistida por todos pois já há algum tempo a fachada se inclinava sob o peso do belo e autêntico frontão eclético, uma joia que foi caindo à vista de todos e caiu. Ano trasado foi a Casa de Bem-bem, peça rara da arquitetura colonial brasileira. Antes, a casa de Rolim de Moura, primeiro governador do estado e primeiro Vice-Rei do Brasil. Foram-se também as de Dutra e Murtinho. Foi-se o Palácio Alencastro, depois a Catedral e o sobradão do antigo PSD. Qual será o próximo? Talvez a Casa Orlando do último abastecimento do lendário Coronel Fawcett? O sobradão do Beco Alto? as casas de Generoso Ponce e Deodoro? A de Floriano nem se tem notícia.

 

O mesmo acontece com a Arena Pantanal, moderna, mas não menos histórica, um edifício aclamado no mundo, palco para grandes eventos nacionais e internacionais, porém, criminosamente abandonada. E com ela vai o futuro que prometia, assim como o futuro prometido pela ferrovia, pelo gasoduto e termelétrica, pelo Porto Seco, pela internacionalização do aeroporto, pelos COTs da Copa e tantas outras potencialidades, tudo abandonado. E nós cuiabanos assistindo, quando muito choramos, lágrimas para nós mesmos. Até quando?        

 

JOSÉ ANTONIO LEMOS DOS SANTOS, arquiteto e urbanista, é conselheiro do CAU/MT e professor universitário aposentado.




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Ricardo José Simões de Arruda  13.02.19 10h31
Muito bem lembrado. A melhor maneira de eliminar uma nação e eliminar a sua referência nos ancestrais. A falta de visão e espírito público dos governantes e de boa parte da população se vai aos poucos no nosso país. São muitos anos de abandono e saudosismo sem ação. As famílias ditas "tradicionais" que fizeram nossa história aos poucos vão se apagando, perdendo a identidade, sem esta são fáceis a dominação e o esquecimento. Famílias que os descendentes não tiveram a coragem de fazer os inventários de patrimônios construídos muitas vezes a duras penas. Dado o número enorme de herdeiros deixados, muitas casas são abandonadas, pois ninguém sozinho se dispõe a manter o patrimônio de muitos, abandono total. Não conhecendo o valor dessas construções é difícil a sua manutenção. São construções de tecnologias datadas em mais de 3.000 anos, proveniente dos árabes, gregos, europeus e nós a posteriori. Com os recursos disponíveis no nosso meio e posteriormente com as inovações do período industrial europeu, ficaram essas belas obras arquitetônicas. Como estamos num país que se cultivou por mais de trinta anos as escolas de “bocós”, muito trabalho teremos para reconstruir a nossa identidade perdida. A história é contada por interesses, e essas dependem dos cidadãos que a escrevem ou contam. De nada adiantou o tombamento decretado pelo IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, sem as devidas informações dos valores pertinentes ao caso. Só resta lamentações e nenhuma ação preventiva. Fim da história.
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Chico Tuita  12.02.19 16h55
Prof. Felix, que visão limitada... Se não lhe importa a preservação da cultura e da memória cuiabana, veja pelo lado econômico e social: Centros históricos bem cuidados geram empregos e movimentam a economia em cidades no mundo todo (inclusive no Brasil)... O centro histórico de Cuiabá poderia muito bem estar entre esses....
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Prof Pedro Felix  12.02.19 09h25
Prezado colunista Lamentável esta sua visão de preservação, pois como interlocutor que foste deste tipo de preservação, só se preserva os casarões de ricos e as casas dos pobres não se preserva por que? Preservar o que foi muitas vezes construídos com dinheiro público de uma elite corrupta e acostumada a mamar nas tetas do Estado se locupletando? Quanto ao caso da casa de Bem Bem , por que preservar? Preservar porque uma elite gostava de fazer festa de santo e neste período dava migalhas a pobres que eles mantinham como Mão de obra barata? Este tipo de preservação é uma grande sacanagem, pois quem passa por ali vai lembrar do que? Que uma família rica as custas do Estado tinha um casarão e que viviam melhor que muitos na época?
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