Cuiabá, Domingo, 11 de Janeiro de 2026
LUIZ HENRIQUE LIMA
10.01.2026 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

Sonho de trem

Torna-se imperativo que os candidatos estejam informados, atentos e comprometidos

O cinema nos convida a viajar, sonhar e refletir. Com o filme “Sonhos de Trem” em cartaz nas plataformas de streaming, e a justa celebração do brasileiro Adolpho Veloso, que conquistou o prêmio de Melhor Fotografia no prestigiado Critics Choice Awards, somos lembrados da beleza estética e do poder narrativo dos trilhos.

 

A ferrovia evoca o fascínio da jornada, seja na decifração de mistérios a bordo do lendário Expresso do Oriente ou na aventura mística do caminho para Machu Picchu. No Brasil, a minha memória afetiva remete à viagem que fiz quando universitário no antigo trem que singrava o Pantanal até Corumbá, cuja lenta cadência permitia contemplar belíssimas paisagens, que guardo como tesouro e me inspiram desde então a lutar pela preservação ambiental. Em escala global, ferrovias como a Transiberiana ou a Transcanadense não apenas transportaram cargas e pessoas; elas moldaram culturas e definiram a espinha dorsal de nações de dimensões continentais.

 

O trem é vetor de desenvolvimento, elo de soberania e, sobretudo, sonho de eficiência logística que há décadas teima em não se concretizar em regiões cruciais do país. Assim é com uma perspectiva de estratégia e planejamento que o debate ferroviário deve ser abordado em nosso país, especialmente em Mato Grosso. Em 2013, neste mesmo espaço democrático, publiquei o artigo “Salve a Ferrovia”, seguido por diversos outros abordando o tema.

 

Mato Grosso, uma das principais regiões produtoras de alimento do mundo e um dos sustentáculos da balança comercial brasileira, enfrenta o paradoxo de produzir muito mais do que consegue escoar com eficiência.  Nossa infraestrutura tem grandes limitações, com hidrovias subaproveitadas e rodovias impraticáveis nos períodos chuvosos ou sobrecarregadas no auge das safras.

 

Felizmente, essa realidade começou a mudar com a inauguração do terminal logístico intermodal de Rondonópolis e o início da construção da Ferrovia Estadual Senador Vicente Emílio Vuolo, unindo Rondonópolis a Cuiabá e Lucas do Rio Verde, totalizando 743 km, um feito de extraordinária importância, como destaquei em “A Ferrovia é nossa” (2021). Ademais, o governo federal conduz a construção de 383 km da Ferrovia de Integração Centro-Oeste, unindo Mara Rosa e Água Boa, com previsão para futura extensão até Lucas do Rio Verde.

 

Esse conjunto de obras permitirá a integração com a Ferrovia Norte-Sul e a possibilidade de escoamento por trilhos da produção mato-grossense para os portos de Santos e Itaqui.

 

As ferrovias nos trarão múltiplos benefícios.

 

Do ponto de vista econômico, a substituição do modal rodoviário pelo ferroviário reduzirá o custo do frete, com maior competitividade para os grãos no mercado internacional e menores preços para o consumidor final. Ademais, os terminais intermodais são polos que atraem armazéns, esmagadoras, frigoríficos e indústrias de processamento, gerando empregos qualificados e a interiorização da indústria.

 

O ganho ambiental é igualmente expressivo. O transporte de grãos em caminhões é responsável por emissões quatro vezes maior de gases do efeito estufa em relação ao modal ferroviário (gCO2/Tku). A ferrovia representa uma gigantesca redução de emissões de CO2, gerando impacto ambiental positivo para o país e o planeta.

 

Além disso, as milhões de toneladas de grãos que deixarão de circular nas rodovias significam a eliminação de dezenas de milhares de viagens de carretas pesadas. Isso resultará na melhoria do trânsito, na redução do desgaste da pavimentação e custos de conservação e, o mais importante, na redução do número de acidentes fatais, poupando vidas e os custos sociais com internações e reabilitação.

 

Em 2026, teremos eleições nacional e estadual. Torna-se imperativo que os candidatos a cargos executivos e legislativos, de todas as tendências, estejam informados, atentos e comprometidos para o sucesso desses projetos estratégicos, que exigem responsabilidade econômica e transparência na gestão pública, de modo a converter os antigos sonhos ferroviários em desenvolvimento sustentável.

 

Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado.

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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