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“Câncer de intestino é 2° mais comum no homem; hábito influencia”

Médico diz que fatores genéticos ocorrem no câncer colorretal, mas que eles representam a minoria dos casos

Victor Ostetti/MidiaNews

O gastroenterologista e endoscopista Roberto Barreto, que falou sobre câncer colorretal

O gastroenterologista e endoscopista Roberto Barreto, que falou sobre câncer colorretal

ANGÉLICA CALLEJAS
DA REDAÇÃO

O gastroenterologista e endoscopista Roberto Barreto, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva de Mato Grosso (Sobed-MT), afirmou que o câncer colorretal já é o segundo mais comum entre homens e mulheres e tem apresentado crescimento preocupante nos últimos anos.

 

A doença ocupa posição de destaque nas estatísticas em Mato Grosso, no Brasil e no mundo. Segundo ele, o crescimento se dá, principalmente, por hábitos de vida e alimentares. 

 

Embora a maior parte dos diagnósticos ainda ocorra em pessoas acima dos 50 anos, o perfil dos pacientes tem mudado. Casos em indivíduos com menos de 40 anos têm se tornado frequentes, cenário que preocupa especialistas e reforça a importância da prevenção e do rastreamento precoce.

 

“O que tem nos assustado é o crescimento significativo do câncer de intestino, inclusive em pessoas mais jovens. Isso está diretamente ligado aos hábitos de vida e alimentares adotados nas últimas décadas, como o consumo excessivo de ultraprocessados, sedentarismo, obesidade, tabagismo e álcool”, disse o especialista.

 

Em entrevista ao MidiaNews, o médico disse que apesar de existirem fatores genéticos associados ao câncer colorretal, eles representam a minoria dos casos. A maior parte está relacionada a fatores modificáveis. Ele citou hábitos alimentares ruins como consumo de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo e a obesidade

 

 

 

Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):

 

MidiaNews - Existe um perfil ou uma faixa etária com maior ocorrência de câncer colo-retal aqui em Mato Grosso? 

 

Roberto Barreto - Em Mato Grosso, no Brasil e no mundo. As pessoas acima de 50 anos são as pessoas que têm maior risco. Claro que tem vários fatores de risco, mas a idade acima de 50 anos é um fator importante. Assim como tem aqueles fatores de risco que a gente diz que são não mensuráveis e fatores de risco mensuráveis. 

 

Os fatores de risco não mensuráveis dependem da genética. A gente não escolhe, nasce com ele. Então, tem algumas síndrome genéticas, tipo síndrome de Lynch, polipose adenomatosa familiar, PTG, que são doenças genéticas que a gente nasce com a carga genética e em algum momento da vida a gente poderá desenvolver o câncer de intestino. 

 

Os fatores de risco não mensuráveis dependem da genética. A gente não escolhe, nasce com ele

Felizmente, esses casos, no contexto geral, são minoria. E, obviamente, que existem os fatores de risco mensuráveis, que tem a ver com hábitos de vida e alimentares. Esses fatores é que tem influenciado muito no crescimento exponencial do câncer de intestino nas últimas duas décadas. 

 

O câncer de intestino hoje é o segundo câncer mais comum em homens e é o segundo câncer mais comum em mulheres também. Obviamente, excluindo aqueles casos de câncer de pele não melanoma, que a gente não contabiliza nesses casos. Mas, o pior, é que existe um crescimento significativo. Crescimento que chega a assustar a gente que está ali no dia a dia mexendo com esses pacientes. Então, tem havido uma procura maior por exames e aumento de casos. 

 

MidiaNews - Como que está esse cenário nos últimos anos? 

 

Roberto Barreto - Felizmente, hoje temos campanhas. A gente tem aí o exemplo clássico, que é o Março Azul, que é o meio de prevenção de câncer de intestino. Então, a Sociedade de Endoscopia, Colonoscopia e a Federação Brasileira de Gastro, com a anuência do Conselho Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira, criaram essa campanha para que chegue essa informação à população em geral, de que é necessário fazer a prevenção do câncer de intestino com o exame adequado, na idade adequada.

 

MidiaNews - E de que forma a colonoscopia pode mudar o desfecho quando a doença é identificada precocemente? 

 

Roberto Barreto - A colonoscopia é um exame capaz de prevenir o câncer de intestino, porque a sequência que a gente chama de adenoma displasia carcinoma, é uma sequência muito bem estabelecida. A gente sabe que na maioria das vezes, na maioria absoluta das vezes, o câncer de intestino vem de lesões precursoras, que a gente chama de pólipos, que são umas verruguinhas que aparecem no intestino.

 

Então, quando é realizada a colonoscopia, identificado esses pólipos e removido durante a própria colonoscopia, a gente vai quebrar essa sequência e a gente vai fazer a prevenção do câncer. A gente sabe que as populações que fazem a colonoscopia no momento adequado consegue diminuir a incidência de câncer de intestino entre 40% e 50%. Em termos populacionais, isso é muito.

 

 

 

MidiaNews - Levando em consideração a questão de hábitos alimentares, e que isso também tem causado um aumento de câncer colorretal, e o fato de que já há tecnologia suficiente para prevenir, por que tem havido aumento de casos? 

 

Não é coincidência que a incidência de câncer de intestino cresceu tanto. A minha geração, na maioria das vezes, tinha tumor de intestino a partir dos 50 anos, porque a exposição a essas coisas acontecia mais tardiamente

Roberto Barreto - Vamos imaginar que sou um senhor quase idoso, vou fazer 60 anos. Na minha geração, nós comíamos muito em casa, arroz, feijão, carnes, vegetais, e de lá pra cá mudou muito. Então, os hábitos alimentares foram muito modificados e, aí, entra o fast food, que é um ultraprocessado.

 

Quais são os verdadeiros fatores de risco do ponto de vista alimentar e de hábitos de vida? Obesidade é considerado risco, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, dieta pobre em fibras e rica em excesso de carnes vermelhas, embutidos, processados e ultraprocessados. Quer dizer, tudo isso que estou falando aqui, foi o que mudou do ponto de vista alimentar com relação às pessoas nas últimas décadas. 

 

Não é coincidência que a incidência de câncer de intestino cresceu tanto. A minha geração, na maioria das vezes, tinha tumor de intestino a partir dos 50 anos, porque a exposição a essas coisas acontecia mais tardiamente. O que tem nos assustado é isso, durante os exames, a gente tem visto pessoas abaixo de 40 anos com câncer de intestino. E por que que está acontecendo isso? Porque elas estão sendo expostas, desde crianças, a esses hábitos alimentares inadequados.

 

Então, tem tudo a ver, sim, com o perfil alimentar especial dos ocidentais, nos últimos 20 anos, e isso tem sido crucial para o aumento dos casos de câncer de intestino. 

 

MidiaNews - E quais são os diferenciais que fazem a colonoscopia o exame mais completo para poder identificar alterações e lesões no intestino grosso? Existem outros, mas por que a colonoscopia é a melhor? 

 

Roberto Barreto - A colonoscopia é considerada padrão ouro, porque é um exame endoscópico e porque a gente tem hoje equipamentos de altíssima definição. A gente consegue não só diagnosticar o tumor de intestino propriamente, que não é o que a gente quer, a gente quer detectar as lesões precoces, são aqueles pólipos, ou lesões ainda que são minúsculas. 

 

Hoje a gente tem equipamentos, que a gente tem tecnologia de além de ter altíssima definição, você tem o que a gente chama de cromoscopia virtual, que filtra o comprimento de onda de luz e a gente consegue identificar melhor essas lesões que a gente não veria facilmente nos aparelhos convencionais.

 

Tem técnica de magnificação, que faz um zoom de 150 vezes na imagem, mais chance de detectar a lesão ali que está começando. A colonoscopia é o padrão ouro, não só porque ela vê a lesão, como ela remove. Se ela remove a lesão, quebra aquela sequência de adenoma displasia carcinoma e vai evitar o tumor de intestino. 

 

 

 

Se você encontra pólipo no intestino, você acaba removendo. E, obviamente, a histologia, ou seja, o resultado da biópsia desse pólipo é que vai determinar se era um pólipo de risco ou não

MidiaNews - É possível que o câncer colorretal se desenvolva sem apresentar nenhum sintoma?

 

Roberto Barreto - Infelizmente, pólipos não apresentam sintomatologia nenhuma. Claro que, eventualmente, um pólipo maior, pode ter um sangramento. E esse sangramento, sempre falo para o paciente que anjo da guarda foi muito bom, porque ele fez com que esse pólipo sangrasse, ele procurasse o médico e o médico pedisse uma colonoscopia. Aí, esse pólipo pôde ser removido enquanto ainda era benigno. 

 

Mas muitos pólipos, a maioria, não sangram e vão se degenerando aos poucos, sem sintomatologia. E quando o indivíduo vai apresentar sintomas, já é uma doença, na maioria das vezes, avançada. A gente vai com perda de peso, anemia, dor abdominal, alteração do ritmo intestinal. Como eu disse, não é isso que a gente quer. A gente precisa fazer o exame precoce para fazer a detecção de lesão precoce. 

 

MidiaNews - Poderia explicar qual é a diferença entre os pólipos benignos e aqueles que têm potencial de malignização? 

 

Roberto Barreto - Existem, do ponto de vista histológico, uma diferença entre os pólipos que, na maioria das vezes, serão benignos, só que, durante o exame, a gente não consegue, só olhando a imagem, se certificar que aquele pólipo é, por exemplo, um pólipo hiperplásico cujo risco de malignização é praticamente zero. Como os outros pólipos que a gente chama de adenomatosas.

 

Esses pólipos adenomatosos, sim, não todos vão virar tumor, mas são esses que têm potencial de se transformar e virar um tumor. Então, na prática, o que a gente faz? Se você encontra pólipo no intestino, você acaba removendo. E, obviamente, a histologia, ou seja, o resultado da biópsia desse pólipo é que vai determinar se era um pólipo de risco ou não.

 

MidiaNews - E a partir de que idade a colonoscopia passa a ser recomendada como exame de rastreamento para a população em geral? 

 

Roberto Barreto - A idade recomendada nos últimos anos é 45 anos. Até cerca de 7, 8 anos atrás, a idade recomendada era 50 anos, mas aumentou tanto o número de casos de câncer entre 40 e 50 que essa recomendação foi modificada. Agora é 45 anos para quem não tem casos de câncer de intestino na família. Quando existem casos de câncer de intestino na família, dependendo do grau do parentesco e do número de casos na família, a gente antecipa 5 anos, 10 anos ou até mais.

 

 

 

MidiaNews - Quais grupos de risco precisam iniciar o acompanhamento mais cedo ou talvez fazer com mais frequência? 

 

Roberto Barreto - É sempre essa história familiar. Se tem casos na família, a gente precisa fazer abaixo dos 45 anos. Grupo de risco, pacientes acima de 50 anos. As síndromes genéticas, a gente faz muito mais precoce. Indivíduos que têm doença inflamatória intestinal.

 

Doença de Crohn ou retocolite serativa, a gente classifica como doença inflamatória intestinal. Esses indivíduos, após 10 anos de doença, é uma doença crônica ou, felizmente, hoje a gente tem controlado melhor com novos medicamentos, que a gente chama de biológico.

 

Mas, a partir do décimo ano de doença, eles começam a ter um risco maior de transformação no intestino. Esses indivíduos são grupo de risco e precisam ser seguidos de uma forma mais individualizada. Então, é um grupo à parte também, esses pacientes com doença inflamatória intestinal.

 

Quanto mais precoce, mais próximo de 100% a cura. Agora, se pega uma lesão avançada, vai depender muito do estadiamento, se tem lesão fora do intestino, se tem lesão ganglionar, se tem metástase à distância, e o prognóstico é individualizado de caso a caso

MidiaNews - E como a remoção de lesões, como os pólipos, impacta na vida do paciente? É uma cirurgia de grande risco ou algo assim? 

 

Roberto Barreto - A maioria dos pólipos são menores do que 2 centímetros. São removidos durante a colonoscopia. Complicação muito baixa. O indivíduo não sente absolutamente nada, nem durante e nem após o exame. Existem lesões que são muito maiores. E são lesões que antigamente esses indivíduos iam para a cirurgia, tinham que ressecar um segmento grande do intestino, mas com as novas técnicas, essas lesões podem ser removidas durante a própria colonoscopia.

 

MidiaNews - Qual é o tempo de recuperação?

 

Roberto Barreto - Pós-colonoscopia, na realidade, quando você tira o pólipo, acorda hoje com esses sedativos que se usa, 15 a 20 minutos, o doente já está em excelente estado. Na maioria das vezes, se usa fentanil com propofol e a recuperação é muito rápida.

 

MidiaNews - Quais são os índices de remissão ou cura do câncer colorretal quando o diagnóstico é feito de forma precoce? 

 

Roberto Barreto - Quando é feito de forma precoce, uma lesão precoce, acima de 95%. Quanto mais precoce, mais próximo de 100% a cura. Agora, se pega uma lesão avançada, vai depender muito do estadiamento, se tem lesão fora do intestino, se tem lesão ganglionar, se tem metástase à distância, e o prognóstico é individualizado de caso a caso. 

 

MidiaNews - Se já fez um exame de colonoscopia, não apresentou alterações, qual é a periodicidade que o paciente tem que voltar a fazer? 

 

Roberto Barreto - Quando o indivíduo faz uma colonoscopia e tem um pólipo, remover um pólipo é um adenoma, são lesões potencialmente malignas.

 

Se não for uma lesão com displasia severa, que é uma lesão que já tem uma transformação para um tumor iminente, pode fazer a cada 2, 3 anos uma nova colonoscopia. Quando remove o pólipo, já tem uma displasia de alto grau ou um carcinoma in situ, um carcinoma inicial, recomenda-se que o primeiro exame seja entre 3 e 6 meses e depois a cada 2, 3 anos, se tiver tudo bem na remoção. Quando o indivíduo não tem pólipo, entre 5 e 10 anos.

 

É seguro a gente fazer entre 5 e 10 anos, porque a gente sabe que entre o pólipo aparecer e ele degenerar, se transformar, quando se transforma, porque a maioria não vai se transformar, em média 10 anos. Esse tempo aí de 5 anos é um tempo seguro.

 

 

A cada ano que a gente passa, vai se quebrando essa barreira, porque as pessoas estão vendo que o benefício de fazer o exame é muito maior do que o risco de uma eventual complicação

MidiaNews - E ainda existe resistência ou medo em relação a colonoscopia? A que o senhor atribui isso? 

 

Roberto Barreto - Existe, mas diminuiu muito nos últimos anos. Existe um tabu quanto ao exame endoscópico. Existe a endoscopia convencional, que é feita pela boca, existe a colonoscopia feita pelo ânus. Então, gera um certo tabu. Existe o medo por ser um exame invasivo.

 

Existe o medo da questão das perfurações de intestino, que o índice é muito baixo de perfuração, porque hoje a maioria das pessoas que fazem endoscopia são muito bem treinadas, os aparelhos são muito flexíveis. Então, diminuiu muito a margem de complicação. Então, existe esse medo.

 

A cada ano que a gente passa, vai se quebrando essa barreira, porque as pessoas estão vendo que o benefício de fazer o exame é muito maior do que o risco de uma eventual complicação. Eu sou endoscopista há quase 30 anos. É um exame que é capaz de salvar a vida das pessoas, e mudar a vida das pessoas. Se você resseca uma lesão, que ia virar um tumor em pouco tempo, você mudou a história daquela pessoa. Então, acho que o benefício do exame é muito maior do que o risco. 

 

MidiaNews - Casos como o da cantora Preta Gil, que morreu em 2025, de complicações do câncer colorretal, tornou público o diagnóstico. Acredita que isso ajuda a ampliar a conscientização da população sobre esses casos, sobre a importância do diagnóstico precoce? 

 

Roberto Barreto - São pessoas públicas, que tem um alcance muito grande, do ponto de vista de mídia. Preta Gil, o próprio Roberto Dinamite, que também teve câncer de intestino, o Pantera Negra [Chadwick Boseman], ator americano, também foi câncer de intestino.

 

Então, são várias personalidades. Como é uma doença, hoje, muito prevalente, sempre a gente está vendo alguém importante, do ponto de vista de repercussão nacional, com câncer de intestino. Então, cada vez que aparece esse diagnóstico, claro que ajuda as pessoas a buscarem prevenção.

 

Isso é essencial, assim como as campanhas programadas. Em março, agora, teremos mais um Março Azul, a gente sempre capitaneia essa campanha aqui do Estado.

 

Entrevistas como essa, certamente, vão alcançar várias pessoas e a gente vai ajudar algumas pessoas a procurarem. Se tiverem mais de 45 anos, ainda não fizeram a sua colonoscopia, certamente vão procurar algum colega, algum gastroenterologista. 

 

Infelizmente, hoje, não é só o gastroenterologista como eu, cirurgião, hoje o geriatra já pede colonoscopia, ginecologista pede colonoscopia, o clínico pede colonoscopia, se tornou um exame que faz parte do arsenal terapêutico de várias especialidades. Isso é excepcional. 

 

Veja a íntegra:

 

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