A capital mato-grossense celebra nesta terça-feira (8) 306 anos de história. Conhecida por sua forte identidade cultural, calor intenso e papel central na formação do estado de Mato Grosso, a cidade vive um momento de diversas dificuldades estruturais e de dúvidas quanto ao seu espaço no cenário político estadual.

Pensando nisso, neste 8 de abril, o MidiaNews conversou com políticos e analistas, que de alguma forma fazem parte e conhecem a história da Capital, sobre a visão deles de quais os maiores desafios da cidade, a perda do protagonismo com a ascensão do agronegócio no interior e sobre a relevância cultural da cidade, que nos três séculos de existência produziu o que hoje é visto como o jeito cuiabano de ser.
Planejamento, segurança e arborização
Esses foram os três grandes desafios citados. Uma cidade antiga que cresceu sem planejamento, que enfrenta problemas de segurança tal qual as grandes capitais brasileiras e a perda do título simbólico de ‘Cidade Verde’ com a diminuição de árvores nas vias públicas incomodam o cuiabano.
MidiaNews
O analista político, Onofre Ribeiro, que falou sobre a relevância de Cuiabá nos seus 306 anos
Segundo o analista político e jornalista Onofre Ribeiro, o maior desafio de Cuiabá é o planejamento. Ele relembrou dois momentos que a cidade teve um grande ‘boom’ populacional, que não conseguiu se preparar.
“Cuiabá é uma cidade que cresceu sem planejamento e isso vai persegui-la a vida inteira. Daqui a 100 anos, vamos estar tentando retirar aquele monte de fio de eletricidade que tem lá no Centro, recuperar os casarões para dar à cidade uma cara que ela teve e que perdeu”, disse.
“Ela foi construída sem planejamento como toda cidade colonial e garimpeira da história do Brasil. E segundo, sofreu duas invasões diferentes de pessoas. A primeira após a guerra do Paraguai e a segunda na década de 1970”, explicou.
Por outro lado, Onofre destaca a modernidade da cidade nos dias atuais.

“Ela é uma cidade extremamente moderna, pois é a capital de um dos estados mais agressivos da economia brasileira. Administrar Cuiabá é lidar com a alma de uma cidade que nasceu numa época que não existe mais e que também está sendo Capital numa época extremamente moderna, desafiadora”, afirmou.
A opinião é parecida com a do deputado estadual Eduardo Botelho (União), nascido na Baixada cuiabana. Ele incluiu, também, a mobilidade urbana como grande falha na Cuiabá atual, além da falta de árvores, que por muito tempo eram presença numerosa nas ruas e avenidas.
“Os desafios mais urgentes de Cuiabá hoje são sem dúvida a mobilidade urbana, a expansão desordenada e a falta de arborização e espaços verdes. Temos que melhorar o transporte público, planejar o crescimento e investir mais em áreas verdes para resgatarmos o título de ‘Cuiabá Cidade Verde’”, disse o deputado.
Victor Ostetti/MidiaNews
O analista político Alfredo da Mota Menezes, que falou sobre os desafios de Cuiabá nos próximos anos
Já o professor e analista Alfredo da Mota Menezes, citou a segurança pública como sendo o gargalo que preocupa os cuiabanos, desafio também enfrentado por grande parte das capitais brasileiras.
“Por muito tempo se falava só em educação e saúde [como desafios], mas hoje é a Segurança Pública. É uma questão preocupante, no momento é uma grande preocupação de toda grande cidade no Brasil”, disse.
Relevância no estado
O avanço econômico do agronegócio nas regiões do interior, especialmente das cidades produtoras no Nortão, causou uma alteração de forças políticas e econômicas.

Apesar de ainda ter o maior PIB do estado, Cuiabá fica bem atrás quando o assunto é o PIB per capita, ou seja, na distribuição de suas riquezas entre a população.
A Capital fica atrás de cidades como Sapezal, Lucas do Rio Verde e Sorriso, de acordo com o IBGE.
Essas cidades, assim como Rondonópolis, Sinop e Primavera do Leste, ganharam destaque não apenas na produção agrícola, mas também como bases eleitorais importantes. O crescimento dessas localidades, associado ao aumento da população e do poder econômico, tem remodelado o tabuleiro político estadual.
Para Botelho, a cidade continua sendo “a cara” do estado, mas admite que o interior ganhou mais espaço no cenário político.
“Cuiabá continua sendo a Capital e o centro político-administrativo de Mato Grosso, é um título sedimentado e com grande relevância no Estado, ou seja, desempenha um papel fundamental. Mas tenho que admitir que o interior ganhou espaço, destaque econômico e político nessas últimas décadas”.
Para o professor Alfredo, a cidade não perde relevância, mas precisa se reinventar com o novo cenário.
“Cuiabá não perdeu relevância. Ela só tem que se adaptar a essa nova realidade. Por exemplo, ela deve ter, se ainda não tem, uma agroindústria forte, gerar emprego com isso e se beneficiar do que está acontecendo no campo”, afirmou.
“A cidade tem que se adaptar a essa realidade e não ‘sumir’ e deixar o agro engolir. Tem é que se beneficiar do agronegócio”, completou.
Victor Ostetti/MidiaNews
O novo prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, que falou sobre o aniversário da Capital
Já para Onofre, a cidade não perde relevância devido a seu peso político e também por concentrar serviços que os moradores do interior buscam, como atendimento médico-hospitalar.
“A cidade perdeu apenas a relevância eleitoral, porque aqui é a capital política. Existem duas ‘Cuiabás’, uma é a cidade onde nós moramos e a outra é a cidade política, onde mora o Estado”.
“Ela vai ganhar cada vez mais na medida em que o interior crescer e vier requisitar serviços públicos. O interior tem cidades que tem poder econômico e só, não tem poder de decisão sobre o Estado. É aqui que eles buscam as melhores universidades, os melhores hospitais, o serviço público, então Cuiabá jamais perderá poder”, avaliou Onofre.
Alfredo e Onofre rechaçam a possibilidade de uma nova separação do Estado. Segundo eles, hoje não há clima para isso e nem condições que se justifiquem uma divisão.
"Matriz cultural do Centro-Oeste"
Conhecida pelo linguajar típico, culinária rica e diversa, danças e músicas tradicionais e um jeito único do modo de vida, em seus três séculos Cuiabá acumulou diversas manifestações culturais que enriquecem a cena cultural e logo tornaram a ‘cuiabania’ a “cara” não só da cidade, mas de Mato Grosso.

O prefeito Abilio Brunini (PL) destacou que a cidade, rica culturalmente, não pode ser resumida ao cenário político conturbado que enfrentou nos últimos anos, causado pelos seus ex-gestores. Segundo ele, há muito mais que comemorar.
“Cuiabá não se resume a história recente dela, os seus políticos e tudo mais. Cuiabá é a terra de Liu Arruda, é a terra de grandes jogadores do Mixto, Dom Bosco, de Dante de Oliveira e outros nomes que passaram pela nossa história. Então, temos muito a comemorar nesses 306 anos”, disse.
“O nosso povo, a nossa gastronomia, nossa cultura, a nossa música, tudo isso não se resume a história recente da nossa política”, encerrou.
Já Onofre Ribeiro, vê a cidade como “matriz cultural” não só do estado, mas da região Centro-Oeste, por ser mais velha que as capitais dos estados da região e que a própria capital Federal.
“Cuiabá é a matriz cultural do Centro-Oeste, ela é uma das cidades mais antigas. Enquanto as outras eram pequenas, o conteúdo cultural mais forte era o de Cuiabá, por conta da sua origem e da sua data de criação”.
“Não é Goiânia, não é Campo Grande, não é Corumbá, não é Palmas, que já existe agora, porque são apenas cidades grandes e não tem essa riqueza de conteúdo que Cuiabá tem. Nós somos a matriz cultural da região”, adicionou.
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