Cuiabá, Sábado, 28 de Fevereiro de 2026
GUERRA NO ORIENTE
28.02.2026 | 08h45 Tamanho do texto A- A+

EUA ignoram negociações nucleares e atacam o Irã com Israel

Ação de Trump e Netanyahu ocorre após nova rodada para discutir programa nuclear da teocracia

Reprodução

Após ataque dos EUA e de Israel, fumaça é vista após explosão em Teerã, capital do Irã

Após ataque dos EUA e de Israel, fumaça é vista após explosão em Teerã, capital do Irã

IGOR GIELOW, GUILHERME BOTACINI E ISABELLA MENON
FOLHA DE SP

Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã de surpresa na manhã deste sábado (28), em uma ação mirando a cúpula do governo e das Forças Armadas do país persa chamada Operação Fúria Épica. O futuro do regime islâmico instalado em 1979 e das relações de poder no Oriente Médio agora está em suspenso.

 

O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do regime iranianos

Em retaliação, os iranianos lançaram barragens de mísseis e drones contra Israel e ao menos quatro bases americanas na região, levando a guerra a aliados árabes de Washington: Qatar, Kuwait, Barhain e Emirados, onde ao menos uma pessoa morreu, foram atingidos.

 

Imagens e relatos que conseguiram furar o bloqueio da internet no Irã indicam que o alvo principal na capital foi a região que concentra o palácio presidencial e a residência do líder supremo, Ali Khamenei. Colunas de fumaça e explosões eram visíveis também no aeroporto Mehrabad.

 

Tanto Khamenei quanto o presidente Masoud Pezeshkian foram declarados vivos pelas agências de notícias estatais, mas ainda não há imagens dos dois. As Forças Armadas de Israel falaram em ataques em todo o país, e a agência Irna disse que ao menos 40 pessoas morreram quando uma escola foi atingida em Minab (sul).

 

A ação ocorreu mesmo depois de ter sido marcada uma quarta rodada de negociações entre americanos e iranianos acerca do programa nuclear de Teerã, que o presidente Donald Trump disse querer ver desmantelado completamente.

 

Em um vídeo divulgado na sua rede Truth Social, Trump sugeriu a derrubada do regime, instando os moradores a tomar os prédios governamentais. Em janeiro, ele havia prometido ajudar manifestantes reprimidos brutalmente por Teerã, mas recuou e passou a focar a questão nuclear.

 

"Há pouco, os militares dos EUA iniciaram grandes operações de combate no Irã. O nosso objetivo é defender o povo americano eliminando ameaças do regime iranianos. Um grupo vicioso de pessoas terríveis", disse o republicano. "Entreguem suas armas ou enfrentem a morte certa."

 

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, disse que a ação "criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome seu destino em suas próprias mãos". "Chegou a hora de todos os setores do povo no Irã se livrarem do jugo da tirania e trazerem um Irã livre e amante da paz", afirmou.

 

Já o Ministério das Relações Exteriores iraniano disse que os ataques contra o país tiveram como alvo uma série de instalações militares e civis em várias cidades, e que eles acontecem "no meio de um processo diplomático". Ainda não há detalhes claros do escopo da ação. Se Khamenei estiver morto, se tornará o primeiro chefe de Estado no poder assassinado por Washington na história. O iraniano de 86 anos liderava seu país desde 1989, quando morreu o fundador da República Islâmica, aiatolá Ruhollah Khomeini.

 

As negociações ocorridas na quinta-feira (26) na casa do embaixador omani em Genebra eram consideradas cruciais. Ao fim delas, os mediadores e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, anunciaram progresso e nova rodada em Viena na semana que vem.

 

Na terça-feira (24), Trump havia reiterado que preferia uma solução diplomática para a crise, mas que estava pronto para agir e impedir que o Irã obtivesse a bomba atômica.Em junho do ano passado, Trump havia atacado três centrais nucleares do país no âmbito da guerra de 12 dias que o Irã travava com Israel, principal aliado dos EUA na região. O republicano se gabava de ter acabado com o programa iraniano —algo discutível, em especial à luz da nova ação.

 

O que se sabe, por meio da Agência Internacional de Energia Atômica, é que os iranianos haviam mantido 440 kg de urânio enriquecido a 60%, perto dos 80%-90% necessários para uma bomba nuclear completa, mas suficientes para talvez 15 artefatos limitados.

 

Em janeiro, o presidente dos EUA havia ameaçado atacar sob o pretexto de evitar morte de manifestantes que participavam dos maiores protestos contra a teocracia desde sua criação, iniciados pela crise econômica aguda do país, mas ampliados pela insatisfação generalizada.

 

Trump chegou a dizer que "a ajuda estava a caminho", só que, sem forças mobilizadas para uma ação maior, voltou atrás. Israel também pediu "mais tempo" para se preparar para o conflito.Houve pressão adicional de aliados árabes do golfo Pérsico, preocupados com o espraiamento do conflito para o estreito de Hormuz, onde o Irã prometia retaliar contra 20% do tráfego de petróleo e gás liquefeito do mundo em caso de ataque.

 

Ao mesmo tempo, os EUA reabriram as negociações, que ao fim não deram em nada porque Trump exigia o fim do programa nuclear e a limitação das capacidades balísticas iranianas, uma cortesia a Israel. Os iranianos prometeram apenas reduzir o grau de enriquecimento de seu urânio e renunciar à bomba em troca do fim de sanções, em termos semelhantes ao do acordo de 2015 abandonado pelo americano em 2018.

 

Outros líderes hostis a Washington morreram após ações ocidentais na história recente, mas nunca diretamente. O ditador iraquiano Saddam Hussein, por exemplo, foi capturado por americanos em 2003, após a invasão de seu país, mas acabou enforcado após julgamento em uma corte local três anos depois.

 

Já o ditador líbio Muammar Gaddafi, que sobrevivera a um bombardeio americano em 1986, foi morto por rivais numa sarjeta em 2011 após ser destituído na esteira de uma ação ocidental autorizada pela ONU com participação dos EUA.Sob Trump, se havia regra limitando ações diretas, isso mudou. Em 3 de janeiro, o americano havia capturado o ditador Nicolás Maduro e sua mulher num ataque à Venezuela, de resto uma aliada do Irã, da Rússia e da China.

 

Se a teocracia foi decapitada, o que acontece agora é incerto e depende do escopo e da duração da operação americana, que pode visar a destruição da cadeia de comando da Guarda Revolucionária, o principal ente militar da pais.

 

Do ponto de vista sucessório, no caso da ausência do líder é prevista a criação de uma junta formada pelo presidente do país, Masoud Pezeshkian, o chefe do Judiciário e um membro do Conselho dos Guardiões, órgão com 6 clérigos e 6 juristas.

 

O grupo governa até a reunião dos 88 membros da Assembleia de Peritos, clérigos eleitos mas que precisam do aval do Conselho, que definirá o nome do sucessor de Khamenei. Com a suspeita morte em acidente aéreo do presidente radical Ebrahim Raisi, em 2024, o favorito era um dos filhos de Khamenei, Mojtaba, 56.

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