Bertha Lutz
A trajetória das mulheres na política brasileira é, antes de tudo, uma história de resistência. Antes de ocupar cargos públicos, liderar parlamentos ou disputar eleições, mulheres precisaram lutar pelo direito básico de participar da vida democrática através do voto.

Essa conquista, que hoje parece natural, foi resultado de décadas de mobilização, enfrentamentos e questionamentos a uma estrutura política construída exclusivamente por homens. No Brasil, o direito ao voto feminino foi reconhecido apenas em fevereiro de 1932 e, ainda assim, de forma limitada. A igualdade plena no voto só viria anos depois.
No Dia Internacional da Mulher, comemorado neste domingo (8), esse debate se reacende e reforça a importância de discutir a participação feminina nos espaços de poder e decisão.
Para a cientista política e doutora em Sociologia, Christiany Fonseca, lembrar essa trajetória é essencial para compreender por que, quase um século depois, a presença feminina na política ainda é menor do que a masculina.
“Em 1932 as mulheres passaram a ter direito ao voto. Mas que voto? Um voto facultativo. À época só podiam votar mulheres que fossem casadas e que tivessem autorização de seus maridos ou mulheres que comprovassem renda. Somente em 1946 que as mulheres alcançaram o direito ao voto universal. Ou seja, equiparado voto de homens e mulheres”, afirmou em entrevista ao MidiaNews.
Segundo ela, a conquista foi resultado de uma mobilização iniciada ainda no começo do século XX e perdurou por décadas até, finalmente, resultar na inclusão das mulheres no processo democrático.
“Há algumas pessoas que imaginam que o voto foi algo que as mulheres ganharam. Mas eu ratifico, essa conquista do direito ao voto foi luta, foi resistência, foi enfrentamento. Desde 1910 mulheres já ocupavam o Congresso, já ocupavam as ruas, mulheres discursavam, escreviam artigos de opinião se posicionando acerca da importância do voto e da participação das mulheres na política”, disse.
Entre as figuras que simbolizaram essa luta está a bióloga e diplomata Bertha Lutz, uma das principais lideranças do movimento sufragista, que foi a mobilização de mulheres que lutaram pelo direito ao voto e pela igualdade de participação política.
“Ela foi ridicularizada. Ela era motivo de deboche por pedir essa igualdade, essa isonomia entre homens e mulheres”, lembrou a cientista política.
Outra figura nacional conhecida foi a professora e ativista Leolinda de Figueiredo Daltro, que ficou conhecida como “mulher do diabo” por desafiar a Igreja Católica na luta pela conquista dos direitos das mulheres.
Em 1910, Leolinda foi pioneira ao fundar o primeiro partido político feminino do país, chamado Partido Republicano Feminino, que também tinha como objetivo conseguir o direito ao voto das mulheres.
“Homens votam no Brasil já há 200 anos. E mulheres? 94 anos. Mas se a gente pensar no voto do ponto de vista universal, paritário, isso só acontece em 1946. Ou seja, 80 anos em que as mulheres passam a realmente ter igualdade no direito ao voto para a escolha da representação política”, afirmou Christiany.
Arquivo / Agência O Globo
Fila de espera para votação na seção eleitoral feminina do Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro, nas eleições de 1933
Uma presença ainda minoritária
Quase cem anos depois, a luta das mulheres não é mais pelo direito de votar, mas por algo igualmente essencial: ocupar, de fato, os espaços de decisão política. Dados recentes, segundo a cientista política mostram que as mulheres seguem sub-representadas nos espaços de decisão.
“Quando nós olhamos para o Congresso Nacional acredito que na Câmara dos Deputados a representação feminina está em torno de 18%. No Senado, a representação feminina é de 19,7”, apontou Christiany.
Para ela, essa desigualdade está diretamente ligada a fatores históricos e estruturais. A cientista política explicou que, por ainda existir muita influência masculina nos partidos, em cargos estratégicos, consequentemente, as candidaturas dos homens são priorizadas.
Além da baixa presença nos cargos de direção partidária, outro obstáculo é a desigualdade no financiamento de campanhas.
“Como mulheres normalmente não ocupam os espaços de maior protagonismo e decisão dentro da estrutura partidária, elas acabam não tendo direito também de se posicionar de como deveria ser essa distribuição para financiamento das campanhas”, disse.
Outro fator determinante, segundo a cientista política, é a ocorrência de casos de violência política de gênero, que afasta mulheres da disputa eleitoral e transforma o meio político em um campo hostil para lideranças femininas.
A violência política de gênero acontece quando uma mulher é atacada, humilhada ou impedida de exercer seu trabalho na política apenas por ser mulher, usando estereótipos de gênero para sugerir que ela não pertence àquele espaço ou não tem capacidade para liderar.
“Mulheres, muitas vezes, para serem aceitas nos espaços de poder, elas precisam sustentar pautas que são de homens dentro dessa estrutura. E aí muitas vezes elas acabam desistindo”, explicou.
Realidade em Mato Grosso

No cenário mato-grossense, a baixa representatividade feminina se torna ainda mais evidente. Atualmente, entre os 24 parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado, apenas uma é mulher: a deputada Janaina Riva (MDB).
Para ela, essa realidade revela um atraso na inclusão feminina na política regional que ainda não foi superada pelos anos de luta feminista.
“Mato Grosso é um estado forte economicamente, com protagonismo nacional em várias áreas, mas quando olhamos para a política vemos um cenário que ainda reflete estruturas muito antigas”, afirmou a deputada.
Ela destacou que as mulheres já são maioria na população, dentre os eleitores e têm cada vez mais protagonismo em diversas áreas, assumindo papel de liderança, encabeçando grandes projetos e ideias, mas isso ainda não se refletiu nas urnas.
Entre os principais obstáculos para a entrada de mulheres na política, Janaina citou fatores culturais, partidários e também a violência política.
“Durante muito tempo a política foi vista como um espaço masculino e isso ainda cria barreiras. Outro ponto é a falta de incentivo dentro dos próprios partidos, que muitas vezes colocam mulheres apenas para cumprir a legislação eleitoral, mas não dão estrutura real de campanha”, reforçou a deputada.
Mesmo sendo uma figura consolidada na política mato-grossense e presidente do MDB no Estado, ela relatou que, como muitas mulheres em posições de liderança, já precisou provar sua capacidade diversas vezes.
ALMT
Janaina Riva é a única deputada estadual na Assembleia Legislativa e presidente do MDB em Mato Grosso
“Muitas vezes precisamos trabalhar dobrado para provar algo que, para os homens, raramente é questionado. Já ouvi comentários que tentavam diminuir minha atuação pelo fato de eu ser mulher. Mas com o tempo fui mostrando, com trabalho, preparo e posicionamento firme, que lugar de mulher é onde ela quiser estar, inclusive na política”, afirmou.
Lacuna no Legislativo
A deputada afirmou ainda que a baixa presença feminina na Assembleia Legislativa tem afetado diretamente as políticas públicas voltadas às mulheres.
“Prova disso é que Mato Grosso há pelo menos três anos lidera o ranking de feminicídios no país. Quando temos poucas mulheres nos espaços de decisão, naturalmente muitos temas que impactam diretamente a vida delas acabam não recebendo a mesma atenção”, explicou.
Mesmo diante desse cenário, Janaina disse acreditar que a presença feminina tende a crescer no futuro e se mostrou otimista com a possibilidade de Mato Grosso um dia ter, finalmente, uma governadora eleita.
“A sociedade está mudando e as mulheres estão cada vez mais presentes na vida pública. Tenho convicção de que é apenas uma questão de tempo para vermos uma mulher governando o nosso Estado”, afirmou.
Avanços na Capital
Se no nível estadual a presença feminina ainda é tímida, no cenário municipal já há sinais mais claros de avanço. Em Cuiabá, a Câmara Municipal vive um momento histórico com a primeira Mesa Diretora totalmente feminina.

A presidente da Casa, vereadora Paula Calil (PL), considerou que esse marco simbolizou uma mudança importante na política local.
“Em Cuiabá, as mulheres representam cerca de 30% do Parlamento e mais da metade do eleitorado do Estado. Isso mostra o quanto avançamos ao longo dos anos”, disse à reportagem.
“Para mim, é uma honra muito grande presidir a primeira Mesa Diretora 100% feminina do Brasil. É um momento histórico e que me enche de orgulho, porque mostra que as mulheres estão cada vez mais ocupando espaços de decisão”, acrescentou.
No entanto, assim como Janaina, Paula também enxerga um desafio a mais ao se colocar como uma liderança feminina na política. Ela admitiu acreditar que seu maior desafio, assim como de outras vereadoras, é vencer o preconceito.
“Em alguns momentos, a gente percebe que o olhar sobre uma mulher na liderança pode ser diferente, seja na condução das sessões ou na administração da Casa”.
“Talvez o maior desafio ainda seja quebrar alguns preconceitos que existem há muito tempo. E a melhor forma de fazer isso é com trabalho, seriedade e resultados”, disse.
Donato Aquino
A vereadora por Cuiabá, Paula Calil, que preside a primeira Mesa Diretora composta apenas por mulheres na Câmara
Lugar da mulher
Apesar das conquistas, especialistas e lideranças concordam que a igualdade de participação ainda é um objetivo em construção.
A própria existência de cotas de candidaturas femininas, atualmente de 30%, é um reflexo das desigualdades históricas. Mesmo assim, a expectativa é de avanço gradual nas próximas décadas.
“Se você me perguntar do ponto de vista se Mato Grosso vai avançar diante disso, eu diria que é algo que nós almejamos. Mas, considerando a nossa estrutura ainda patriarcal no Estado, talvez a gente não tenha, a curto prazo, esse avanço do propagandismo feminino na política”, afirmou Christiany.
“Estamos avançando, mas ainda há muito o que se avançar”, completou.
Para a deputada Janaina Riva, o futuro da política brasileira passa necessariamente por uma maior participação feminina nos cargos eletivos.
“A política precisa de mais mulheres. Precisamos ocupar esse espaço porque as decisões que são tomadas ali impactam diretamente a nossa vida, nossas famílias e toda a sociedade”, disse.
A luta iniciada pelas sufragistas brasileiras continua ecoando nas urnas, nas câmaras legislativas e nos movimentos sociais. Mais do que um direito, a participação política das mulheres tornou-se uma condição essencial para uma democracia verdadeiramente representativa.
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