O secretário municipal de Cultura de Cuiabá, Johnny Everson, afirmou que, embora o setor cultural conviva com "oportunistas e irresponsáveis" no manejo de recursos públicos, a grande maioria das instituições e produtores culturais realiza um trabalho social que "salva vidas".

Em entrevista exclusiva ao MidiaNews, o gestor comentou a recente operação policial que afastou o vereador Chico 2000 (sem partido) por suposto desvio de emendas parlamentares. A instituição suspeita de receber a emenda e devolver parte do dinheiro ao vereador atua na área cultural.
Everson ressaltou que, apesar de o caso atual envolver institutos com viés principalmente esportivo, o estigma acaba atingindo a Cultura.
"Dentro deste universo tem muitos oportunistas? Tem. Tem muitos irresponsáveis? Tem. Mas a grande maioria salva a vida de idosos, de crianças e de dependentes químicos abandonados. Eles levam acesso à cultura e geram muito emprego", defendeu o secretário.
Na entrevista, Johnny também foi questionado sobre a sua relação com a classe artística — historicamente ligada a pautas progressistas e de esquerda — sendo que ele compõe a gestão do prefeito Abilio Brunini (PL), que é de direita.
Apesar de reconhecer suas origens humildes e as causas sociais, o secretário afirmou que optou por caminhar politicamente com a direita por discordar de pautas como a liberação de drogas e o aborto.
"A esquerda está insuportável para mim, está exagerando demais. As pessoas não querem cumprir seus deveres, mas querem exigir todos os seus direitos. Eu optei em de fato caminhar com a direita, mas no campo da amizade, sou amigo de todos os produtores e artistas", pontuou.
Na entrevista, Everson falou ainda sobre as metas da Pasta para 2026, os planos de trazer um artista nacional do samba e do sertanejo para o aniversário de Cuiabá, as mudanças na Secretária, que agora tem a Educação como ordenadora de despesas, entre outros assuntos.
Confira os principais trechos:
MidiaNews - Em janeiro houve uma operação por suposto uso indevido de emendas parlamentares destinado ao setor cultural e o vereador Chico 2000 acabou afastado. Como o senhor vê isso? Mancha o setor?
Johnny Everson - Bom, primeiro que o instituto em questão não é do setor cultural; ele atua nas áreas esportiva, cultural, social e educacional. E me parece que a denúncia trata de ações esportivas.
Victor Ostetti/MidiaNews
Johnny Everson: "Eu respeito as causas da esquerda, admiro e reconheço"
Ainda que, nesse caso recente, não tenha havido nada relacionado à cultura, pode vir a haver, sim, porque é natural que instituições culturais recebam verbas provenientes de emendas parlamentares.
Dentro desse universo há muitos oportunistas? Há. Há muitos irresponsáveis? Há. Mas também há muitos — a grande maioria dos institutos que recebem emendas — que salvam a vida de idosos com o seu serviço no terceiro setor, que salvam a vida de crianças, que resgatam dependentes químicos abandonados nas ruas, que levam acesso à cultura, que empregam e geram muitos empregos.
MidiaNews - A gestão do prefeito Abilio é uma gestão de direita e sabemos que grande parte do setor cultural é mais alinhada à esquerda. Como tem sido o diálogo da Pasta com o setor? O senhor ouve muitas críticas?
Johnny Everson - Tenho muitos amigos na esquerda. Eu mesmo fui do PDT, quando, naquela época, não havia essa divisão entre esquerda e direita tão arraigada, tão agressiva.
Respeito as causas da esquerda, admiro e reconheço. Sou negro, venho de uma origem familiar muito pobre e tive que estudar muito, trabalhar muito para estar construindo uma vida melhor — no gerúndio mesmo, porque é um processo que só termina quando a gente parte para outro mundo. Então reconheço essas causas.
Infelizmente, essas causas foram usurpadas por alguns discursos que manobram massas — e aqui falo tanto da esquerda quanto da direita. Em algum momento, tive que optar entre as pautas da esquerda e as da direita. A esquerda, para mim, tornou-se insuportável, está exagerando demais. Sou contra o aborto, contra a liberação de drogas, contra o desrespeito aos direitos do próximo e contra o não reconhecimento dos próprios deveres.
As pessoas não querem cumprir seus deveres, mas querem exigir todos os seus direitos. Isso tem sido usado de maneira equivocada. Optei por caminhar com a direita na política, mas, no campo da amizade, sou amigo de todos os produtores culturais e artistas de Cuiabá.
Talvez alguns não gostem de mim, especialmente agora que estou em uma gestão de direita e que, declaradamente, transito mais por esse campo, porque me sinto melhor. Mas, infelizmente, não posso fazer nada quanto a isso.
MidiaNews - O senhor acabou de completar um ano à frente da Secretaria de Cultura. Quais foram as principais dificuldades que encontrou na Pasta?
Johnny Everson - Já havia uma dificuldade identificada no início, durante a transição, nos documentos prévios que solicitamos formalmente e recebemos da gestão anterior.
Ao sentar na cadeira nos primeiros dias já deparamos com algumas incongruências. Os papéis normalmente não mostram a realidade pragmática da gestão pública e aí o que parecia ser R$ 1,5 milhão de restos a pagar de dívidas se transformou, da noite para o dia, em quase R$ 5 milhões. Só na Cultura.
Desses R$ 5 milhões, tinham dívidas de cinco a seis anos anteriores que vêm se arrastando, mas a dívida recente era algo em torno de R$ 3 a 4 milhões.
Pior do que não ter orçamento suficiente, que é uma realidade da Cultura, é você ter um orçamento insuficiente e, com base nele, contrair despesas e aí não ter o financeiro para honrar essas despesas.
Foi formada uma comissão para tratar especificamente dos restos a pagar, um alto volume foi detectado em todas as pastas e até hoje não conseguimos vencer este primeiro desafio, que é colocar em dias os restos a pagar da nossa gestão. Na Cultura não é diferente, alguma coisa ou outra conseguimos resolver, mas a maioria ainda está em aberto.
MidiaNews - Na Cultura também foi encontrada alguma irregularidade? Foi feita alguma auditoria?
Johnny Everson - Irregularidade eu não diria, talvez diria ineficiência e desorganização administrativa. Isso nós encontramos.
Encontramos muitas prestações de contas em aberto, de projetos anteriores que não estavam de fato aprovadas e homologadas, que não estavam com a análise da maneira minuciosa como precisa ser feita. Nós herdamos isso, mas agora já colocamos um pouco de ordem na casa.
O meu time levou uns seis meses para se entender, sincronizar, mas graças a Deus agora está sincronizado. Então, os maiores desafios conseguimos vencer. Agora, com um orçamento um pouco melhorado para este ano na Cultura, vamos conseguir trabalhar e entregar mais para a sociedade.
MidiaNews - No Réveillon da Família, onde as atrações eram da música gospel, a Prefeitura se empenhou bastante para realização e divulgação do evento, embora também tenha sido realizado via emendas parlamentares. Como vê as críticas de que a gestão tem focado apenas em eventos para o segmento evangélico e deixado de lado outros ritmos e segmentos culturais? Elas têm fundamento?
Johnny Everson - Claro que tem. Fundamento ideológico, adverso e imaturo de quem criticou.
Porque o primeiro evento que nós fizemos pela Prefeitura foi o Festival do Lambadão e, pela primeira vez na história de Cuiabá, teve lambadão no palco principal da Expoagro.
Eu não vi a crítica dos outros segmentos, não vi a crítica do pessoal do rock ou do pessoal das igrejas sobre ter prestigiado apenas o lambadão.
O Réveillon em momento nenhum foi anunciado como um evento gospel, é um evento cristão e Cristo está em várias religiões aqui no Brasil. Nós temos a família como base de nossas decisões, então a gente investiu no que a gente acredita.
E aí muitos criticaram por criticar, por questões ideológicas e partidárias. Eu não entro nessa discussão.
MidiaNews - Sobre o aniversário da cidade em abril, o prefeito Abilio disse estar em tratativas com atrações a nível nacional. Já há uma programação sendo montada?
Johnny Everson - Bom, a gente está em processo de contratação, mas preciso captar emendas parlamentares para conseguirmos suprir as despesas desse evento. Eu já percebo de início que não vai ser muito fácil conseguir a totalidade dos recursos.
Os artistas precisam reservar suas datas e esses shows nacionais perderam um pouco de controle nos valores. Mas nós temos compromisso em trazer shows nacionais durante o aniversário de Cuiabá, que vão intercalar com shows regionais também.
O show sertanejo vai ser uma dupla, não posso falar ainda porque não está contratado, e também já temos 90% decidido quem será o cantor de samba, samba de raiz, [é alguém] de muito peso e muita respeitabilidade no mercado do samba e na música brasileira.
Se não captarmos a tempo as emendas e isso por em risco a perda da data do artista, vou ser obrigado a contratar com recursos da nossa fonte 100 (fonte 500) para suprir a despesa inicialmente.
MidiaNews - Após uma espécie de fusão no último ano, a Sercretaria de Cultura agora não tem mais autonomia e tem a Secretaria de Educação como ordenadora de despesas. Isso tem limitado as atividades da Secretaria?
Johnny Everson - Estávamos num momento muito difícil, não tínhamos orçamento suficiente nem para nossa folha de pagamento ano passado. Não sou uma Secretaria que está de portas abertas apenas para gerar empregabilidade para servidores públicos, preciso prestar serviço para a sociedade e os serviços públicos tem custo, precisa ter orçamento para isso.

Nesse convite que o Abílio nos fez, deu a oportunidade de fazer pelo nosso setor e pela sociedade. Ele disse: 'Não pretendemos que isso vá por muito tempo, só se fizer muito sucesso e der muito certo para todo mundo, o que pode ser um fato também, mas em princípio é uma medida emergencial, provisória para a gente conseguir te dar condições de trabalho'.
'Você vai continuar tendo seu orçamento para as atividades culturais, vai continuar tendo sua autonomia e independência para o desenvolvimento, planejamento das suas políticas públicas de cultura e implementação dessas políticas, sua liberdade, inclusive de gestão financeira. Só que, ao invés de você mandar para o Marcelo Bussiki, secretário de Economia, efetivar os pagamentos, você vai mandar para o Amauri Monge, que vai ser agora o ordenador de despesa'.
'A autonomia da cultura é sua, de esporte é do Jefferson [Neves], de educação é do Amauri', ele disse.
MidiaNews - Então não se sentiu com sua autonomia retirada?
Johnny Everson - Não, porque houve esse pacto, tanto que por lei, ainda que tenhamos nos tornado uma grande secretaria, não me tornei adjunto e nem o Jefferson adjunto.
Até seria natural que isso acontecesse, mas não me tornei adjunto, continuo sendo secretário de Cultura. Se eu me tornasse um adjunto e tivesse as minhas liberdades administrativas tolidas, aí eu agradeceria oportunidade para o prefeito e procuraria voltar para as minhas atividades empresariais e artísticas.
MidiaNews - Como é a sua relação com o prefeito Abilio?
Johnny Everson - O prefeito Abilio é uma pessoa muito inteligente, tem uma vontade muito grande de não errar nesta oportunidade em que está. E por ele ter essa energia concentrada para não permitir que o erro aconteça, às vezes as nossas reuniões são bastante duras.
A minha declaração ano passado de que eu correria atrás de recurso externo para poder realizar o carnaval, ele me disse 'Johnny, mas para a sociedade que não tem tanto conhecimento técnico sobre gestão de verba pública, podem entender que a gente está usando o dinheiro do município para ajudar no carnaval e eu estou lá com dificuldade para cortar o mato da escola'.
'Então vamos seguir concentrando toda a energia no que é foco emergencial e vital', ele disse. Eu discordava disso naquele momento, mas depois, passado tempo, entendi. O olhar de quem está lá no sétimo andar, é um pouco privilegiado, consegue ver todos os setores.
Onde existe hierarquia, precisamos respeitar a voz de comando. A minha voz de comando chama-se Abilio Brunini.
Se chegar em um ponto que eu percebo que está muito na contramão do que acredito, aí agradeço a oportunidade e falo 'pode colocar outro', o que não é o caso. Todos os pontos basilares que o prefeito segue são os meus também, e foi por isso que votei nele, e foi por isso que aceitei o convite: família, cristão, produtividade, um estado célebre moderno e descentralizado.
Todos os princípios da gestão pública que ele acredita são os que acredito também. Então, tem muita facilidade para a gente se entender. E onde tem discussão, onde tem troca de ideias, tem crescimento e isso tem acontecido bastante.
MidiaNews - E quais as suas principais metas na Pasta agora em 2026?
Johnny Everson - Primeiro, conseguir minimamente realizar de maneira direta, ainda que com emendas parlamentares, mas com todas as diretrizes da Cultura, os eventos basilares do nosso calendário oficial.
Esses eventos são imprescindíveis, mas ao lado deles temos que gerir com responsabilidade a PNAB [Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura], que já estamos com o recurso em conta, R$ 4,21 milhões, e em breve começaremos a construção do edital.
MidiaNews - Esse recurso é do Governo Federal?
Johnny Everson - Do Governo Federal. É um recurso que ele é parametrado pela população do município. E vamos construir os editais para poder permitir socializar para que a classe artística e a banda possa desenvolver seus projetos.
Então, as prioridades são: gerir com responsabilidade os recursos da PNAB, conseguir apoiar com recursos as principais atividades culturais da cidade e a implementação de um projeto de educação musical em todas as escolas municipais.
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