Estátua em homenagem à Mãe Bonifácia
Por décadas, falou-se sobre Mãe Bonifácia com a linguagem das lendas: "consta que", "dizem que". Essa nebulosidade terminou em 2024, quando a historiadora, jornalista e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Neila Barreto, de 71 anos, encontrou sua certidão de óbito em um arquivo digital da Cúria Metropolitana de Cuiabá.

A descoberta separa definitivamente o mito da realidade e revela a identidade documentada da figura que deu nome a um dos principais parques da Capital.
Neila Barreto analisava um CD da Cúria em busca da trajetória de um padre quando um nome saltou aos olhos.
"Eu estava fazendo a leitura desse CD para procurar a história de um padre que eu estava pesquisando. E aí, como você tem que ler um por um dos documentos, eu me deparei com essa certidão de óbito, na hora eu li mais ou menos e eu vi: 'Mãe Bonifácia'. Falei: 'Bonifácia, ah, deve ser a senhora lá do parque, certo?'", relatou a pesquisadora.
Yasmin Silva/MidiaNews
Estátua que representa a Mãe Bonifácia no parque
O documento, de caligrafia difícil, exigiu esforço para ser decifrado. “A princípio, era horrível de ler. Eu imprimi aqui no computador e aí com muito sacrifício eu fui traduzindo porque é horrível a letra”, conta ela.
O esforço, no entanto, foi revelador. "Ele faz uma divisão da vida dela. Porque existe uma vida dela que foi narrada como lenda. Ao passo que você acha o documento, ela passa a ser retratada como uma pessoa real", explicou Neila Barreto.
A certidão atesta que Bonifácia faleceu em 19 de fevereiro de 1867, aos 80 anos, solteira.
"Então, se você faz a conta ela nasceu em 1787", calculou Neila Barreto. O registro é ainda mais específico: indica que ela "nasceu nesta cidade". "Ela nasceu em Cuiabá. Não nasceu em outro lugar, não nasceu em outro país, ela era cuiabana", destacou a historiadora.
O documento cita sua proprietária: Leopoldina da Gama e Silva. A análise histórica sugere que, ao fim da vida, Bonifácia não era uma escravizada comum, mas uma mulher "alforriada".
"Deduz-se que ela era uma escrava alforreada, porque ela era livre, então ela podia fazer os seus trabalhos, que eram as escondidas", explicou Neila Barreto.
A alforria, segundo a pesquisadora, pode ter vindo em uma idade avançada.
"E depois de uma certa idade, talvez ela não servisse mais para fazer os serviços de casa porque quando envelhecemos vai diminuindo as forças, muitas vezes doenças e as pessoas eram descartadas mesmo", ponderou.
A estratégia do silêncio e os caminhos d'Água
Certidão de óbito da Mãe Bonifácia
Livre, ela partiu para uma área de mata distante do centro, estabelecendo-se próximo a um córrego, antigamente chamado Córrego do Caixão, na região que hoje abriga o Parque Mãe Bonifácia.
"Ela se envolveu com algumas pessoas e tornou referência em receber escravos doentes, escravos fugitidos que tinham por ali, porque era uma região estratégica", detalhou Neila.
Enquanto o documento digital dava nome, data e condição, a tradição oral, preservada pelo historiador e escritor Aníbal Alencastro, de 82 anos, dava carne, osso e drama àquela existência. A história de Bonifácia chegou a ele não por arquivos, mas pelas palavras de um homem sentado à porta de um boteco.

“Eu morava na rua Marechal Deodoro, e tinha um senhor, um preto velho, que era chamado Bento Anacreto. Ele sempre estava sentado ali, num boteco que tinha perto da minha casa, ele contava as histórias pra nós”, recordou Alencastro.
Esse homem, segundo o pesquisador, era a conexão viva com o passado escravista. “O saudoso mestre Anacreto Bento de Oliveira, filho de escravos que residiram naquele quilombo, hoje, no bairro do quilombo”. As histórias que ele contava eram memórias familiares. “Ele falava que os avós dele, foram negros escravizados e estiveram lá com a Bonifácia, porque depois eles passaram a chamar ela de Mãe Bonifácia, porque ela era muito caridosa”.
Aníbal Alencastro descreveu o local com precisão: “O casebre dela era justamente onde nascia o córrego ali. E esse córrego nasce lá e vem justamente aqui onde é o parque”.
Era um ponto de passagem para fugitivos. “Quando alguns dos escravos eram, como se diz, presos ou foragidos, porque naquela época os senhores batiam em presos. Eles eram levados lá na Praça da Mandioca, ali que tinha o Pelourinho. Eles iam amarrados lá para apanhar e alguns conseguiam fugir de lá. Conseguia fugir e se vinha na casa de taipa da mãe Bonifácia”.
Victor Ostetti/MidiaNews
A jornalista, historiadora e pesquisadora Neila Barreto
Ele citou como era o método para despistar os capitães-do-mato.
"Ela mandava os escravos caminharem dentro da água, porque os capitães do mato vinham com cachorro e como eles andavam dentro da água, perdia o faro. Então os cachorros não achavam". Esse córrego era uma rota de fuga que levava a um bolsão de mata densa e assim ela protegeu uma porção de escravos", afirmou Alencastro.
Aqueles que conseguiam seguir o caminho d’água encontravam abrigo no bolsão de mata. "Tanto é que nasceu aí um quilombo, no bairro Despraiado tinha um garimpo de ouro nessa época, então eles vinham pra cá. E muitos negros trabalhavam aí, esse quilombo deu origem ao Bairro do Quilombo", explicou o historiador.
Uma marca dessa história é a "Cruz do Chilão", erguida em memória de um negro assassinado em um garimpo local.
Sua atuação era de alto risco. "Se na época ela fosse pega, ela talvez fosse morta, ou talvez fosse presa, chibateada", ponderou Neila Barreto.
Para operar, Bonifácia adotou uma postura que a historiadora define como a inteligência do silêncio. "Ela foi muito inteligente porque ela foi silenciosa. Ela não fez nada com alarde. Ela fez tudo sozinha e proporcionou vidas melhores para outras pessoas que foram ali buscar abrigo e por lá passar. Então a importância dela é de ser, na minha opinião, uma mulher que pensa e uma mulher que foi além do tempo e que participou da política de escravos da época ”.
Curandeira, parteira e benzedeira
Yasmin Silva/MidiaNews
Estátua que representa a Mãe Bonifácia no parque
Além de abrigo, ela oferecia cuidados. Conhecida como curandeira e benzedeira, dominava o conhecimento das ervas.
“Essa senhora, como ela era uma negra, de trabalhos domésticos, mas também ela era muito inteligente, era uma curandeira, sabe? Ela tinha esse poder de curar as pessoas, conhecia a mata todinha, ela conhecia remédio, tudo era por mato inclusive, até parto ela fazia também, naquela época. Não tinha médico, não tinha nada, era a mãe Bonifácia", disse Aníbal Alencastro.
Neila Barreto explicou que essa prática era o coração de seu acolhimento. "Quando as pessoas falam que ela era curandeira, era isso que ela fazia, matava as dores, fazendo chás, como eles falavam, ela é curandeira, benzedeira".
Ela ressaltou, porém, que a atuação de Bonifácia ia além. "Mas ela foi além de curar, de benzer, de fazer os chás, ela travou uma abertura para que os próprios conterrâneos dela pudessem usufruir de uma vida em outro lugar". Para Neila, esse conhecimento era a ferramenta que legitimava sua presença solitária no local e abria as portas para a missão maior de abrigo e fuga.
Homenagem no parque e a estátua simbólica
Nos anos 2000, quando o então governador Dante de Oliveira quis batizar o novo parque urbano naquela área, a história ressurgiu.

"Ele pede para a universidade para fazer a história, mas eles não sabiam fazer. Por acaso, ele me chamou e falou assim: 'você não sabe a história da Mãe Bonifácio?' Eu falei: eu sei", narrou Alencastro, que redigiu o memorial.
Neila Barreto complementou que a associação do nome ao lugar é anterior ao parque. "Já era conhecido, porque quando eu era pequena, eu devia ter uns nove, dez anos de idade, minha mãe falava, 'vamos lá na casa de fulano é ali, no bairro Mãe Bonifácia'".
Yasmin Silva/MidiaNews
O historiador e pesquisador cuiabano Aníbal Alencastro
Ela explicou o contexto do batismo oficial.
"Na verdade, no período de Dante, Cuiabá já precisava de mais vias. E na época, Dante quis expandir o perímetro da cidade. E pra expandir o perímetro da cidade, ele tinha que fazer uma negociação ali com o exército, para poder fazer. Então, essa ideia dele da contribuição ambiental para a cidade, e daí de dar mais comodidade aos cuiabanos com a expansão das vias públicas, e uma homenagem a ela, né?".
A estátua que hoje a representa no parque, esculpida pelo artista plástico Jonas Correa em 2002, é uma interpretação, não um retrato.
A inspiração, segundo Neila Barreto, "não veio de pesquisas históricas ou descrições da época, mas de uma memória afetiva de sua própria infância" no Paraná.
Neila Barreto é categórica ao diferenciar o monumento da pessoa.
"Essa figura que você tem hoje no Parque Mãe Bonifácia, ela não é mãe Bonifácia, ela é uma representatividade que o artista plástico utilizou para fazer dela uma figura conhecida na cidade, para a cultura mato-grossense".
Ela completa, descrevendo o processo criativo: "E aí ele entendeu que ela deveria ser representada assim, daquele jeito gorda, com cajado, né? Pra poder andar. E que seria a representatividade dela pra população, pra sociedade, como contribuição cultural pra cidade e como valor da nossa terra e da nossa gente".
A Mulher que "foi além do tempo"
Para os pesquisadores, a importância de Mãe Bonifácia transcende a figura mítica. Com a descoberta documental, seu legado se consolida como um pilar da identidade e da resistência mato-grossense.

Para Neila Barreto, sua importância reside na ruptura que sua vida representou. "A frente de sua época, uma mulher escrava, ela rompeu, foi alforriada, e falou: 'mas eu ainda tenho valor, eu posso ajudar alguém?' Entendeu?", refletiu.
"E ela partiu pra essa localidade onde ela foi morar, não simplesmente pra morar. Ela ficou ali dando guarida pra eles e foi além de curar, de benzer. Ela travou uma abertura para que os próprios conterrâneos dela pudessem ter uma vida digna. São raras as mulheres naquela época que faziam isso".
E conclui sobre seu novo estatuto: "Ela já deixou de ser lenda, para participar de uma história real. Ela vai ser um personagem histórico da sociedade que existiu como mulher, como escrava e como contribuinte de uma mulher à frente da época, à história, de contribuir para a política escravagista aqui em Cuiabá".
Aníbal Alencastro vê nela uma peça fundamental na formação da identidade mato-grossense.
"A nossa raça aqui é misturada. Nós temos o negro, nós temos o índio e dessa raça que saiu aqui o nosso tipo humano". Para ele, conhecer essa história é essencial. "Você sabe que sem história não se tem um presente".
Sua trajetória, agora comprovada, ganha novos horizontes através de produções como um filme protagonizado por Zezé Motta. As gravações ocorreram em Sorriso em 2025.
"Me sinto muito honrada em poder contar a história de mais uma mulher guerreira, à frente do tempo, e resiliente como foi a Mãe Bonifácia, sinto que contar a história dela faz parte da minha missão", declarou a atriz ao G1.
Dirigido por Salles Fernandes, o filme destaca a resistência e luta pela liberdade da personagem, com lançamento previsto para novembro de 2026.
"Essa história está sendo contada com muito respeito à história de Cuiabá e à figura de Mãe Bonifácia. Só quero que as pessoas enxerguem essa história como, não só de Mato Grosso, mas do Brasil agora", afirmou o diretor. Ao G1.
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