A crítica feita pelo prefeito Abilio Brunini (PL) aos comerciantes do Centro de Cuiabá por descarte irregular de lixo expôs um problema antigo da região: a ausência de regras claras, estrutura insuficiente e falhas recorrentes na coleta e na limpeza urbana.

Lojistas ouvidos pela reportagem do MidiaNews afirmam que, além de não receberem orientações objetivas sobre onde e como descartar resíduos, enfrentam fiscalizações contraditórias e um sistema que, segundo eles, não funciona.
Em vídeo publicado nas redes sociais no domingo (28), o prefeito mostrou sacos de lixo deixados no chão em frente a estabelecimentos comerciais e responsabilizou os lojistas pelo entupimento das bocas de lobo durante o período chuvoso.
“Da onde que vem o lixo? Dos próprios lojistas. Põe uma cesta aqui, coloca um negócio para guardar o lixo. Olha, aí vem a chuva, leva todo esse lixo pra boca de lobo, e a situação é essa. O problema é a falta de educação”, afirmou. Nas imagens, Abilio também prometeu multar quem descartar lixo no chão do Centro.
Para os comerciantes, no entanto, o discurso ignora a realidade enfrentada por quem trabalha diariamente no Centro e transfere a responsabilidade ao setor privado sem que haja regulamentação, padronização ou estrutura adequada.
Dono da Lanchonete do Chuchu, na Rua Cândido Mariano, Rodenir relatou que a coleta ocorre apenas no período noturno e de forma instável. “O caminhão de lixo passa à noite, depois das sete. Às vezes recolhe tudo, às vezes não. Ali, inclusive, está cheio de água, cheio de larvas dentro do contêiner”, afirmou.
Yasmin Silva/MidiaNews
Rodenir, dono da Lanchonete do Chuchu, no Centro de Cuiabá
Segundo ele, apesar de o caminhão passar diariamente, o problema apenas diminuiu, sem ser resolvido. “Todo dia à noite. Agora, nessa nova gestão. Porque no ano passado ficava um carniço sempre aqui”, disse. Ainda assim, Rodenir avaliou que a medida é insuficiente.
“Deu uma amenizada. Eu acho que deveria tirar esse contêiner. Está em cima da praça. É um odor muito forte”.
O comerciante afirmou que o modelo adotado atualmente cria um foco permanente de sujeira e mau cheiro, agravado pela ação de moradores em situação de rua. “Tem muito morador de rua. O morador de rua rasga o lixo”, relatou.
“Aquele chorume que escorre do lixo fica tudo empossado embaixo. E aí vem o cheiro aqui para nós. Vem o cheiro para todos aqui. Tem dia que está insuportável aqui”.
Rodenir afirmou ainda que a própria dinâmica da coleta contribui para o descarte irregular. Segundo ele, o peso do lixo dentro dos contêineres dificulta o trabalho dos coletores. “Acontece, acontece”, disse ao confirmar que, em alguns casos, os lixeiros pedem para que os sacos sejam deixados fora.

Para ele, a Prefeitura criou um problema e depois passou a punir os comerciantes. “Eu acho que remover isso aí e deixar como era antigamente. De tardezinha cada lojista colocava seu lixinho na porta, caminhavam e levavam”.
Ao comentar a crítica feita pelo prefeito, Rodenir rechaça a generalização. “Quando chove o lixo realmente desce. Só que eu acho que o prefeito tem que ver isso aí também. Tem que ter uma pessoa para tirar. A partir das seis o pessoal tem que estar tirando. Então, não é certo, né? Não é certo culpar os comerciantes”, afirmou.
Outros comerciantes ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato por receio de represálias, afirmaram que a Prefeitura cobra o cumprimento de regras que não existem formalmente. O proprietário de outra lanchonete na região disse que já foi multado, na gestão passada, por manter uma lixeira na calçada para os clientes, mesmo sem haver lei clara sobre o tema.
Segundo ele, na atual gestão, a orientação foi completamente diferente. “O fiscal trouxe a lixeira e mandou colocar na calçada”, relatou. Para ele, a falta de padronização expõe os lojistas à arbitrariedade. “Cada um fala uma coisa, e no fim quem paga somos nós”.
Outro comerciante, dono de um comércio geral no Centro, afirmou que os lojistas são orientados a levar o lixo até um contêiner localizado em frente à loja Riachuelo, mas que a estrutura é insuficiente para atender a demanda da região.
Yasmin Silva/MidiaNews
Interior do contêiner disponibilizado pela Limpurb para o descarte do lixo
Segundo ele, o equipamento fica constantemente sobrecarregado, com sacos acumulados do lado de fora, e também criticou a precariedade dos serviços básicos.
“O caminhão de lixo não passa sempre. A varrição também não é diária”, disse, acrescentando que o lixo frequentemente permanece por dias nas proximidades dos estabelecimentos.
Natural do Rio Grande do Sul, o comerciante comparou a situação de Cuiabá com o modelo adotado em seu estado de origem, onde há regras claras e fiscalização padronizada.
Segundo ele, a legislação local de lá obriga os comerciantes a manterem lixeiras fechadas com tranca. “No horário certo o comerciante tem que ir lá e abrir. Se não abrir, toma multa”, afirmou.
Para ele, a principal diferença está na existência de normas objetivas. “Aqui não tem um fim. A gente não sabe o que tem que fazer. O tempo todo tem lixo na rua”, disse.
O comerciante também criticou diretamente a postura do prefeito. “O prefeito reclama de uma coisa que ele nem sabe como funciona e também não determina lei nenhuma”, afirmou.
Enquanto a Prefeitura atribui aos comerciantes a responsabilidade pelo descarte irregular, lojistas do Centro apontam falhas estruturais na coleta e cobram regras objetivas para o funcionamento do sistema.
A reportagem entrou em contato com a Limpurb (Empresa Cuiabana de Limpeza Urbana), mas não houve resposta até o fechamento da reportagem.
Veja o vídeo:
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1 Comentário(s).
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| Jandira Maria Pedrollo 05.01.26 13h52 | ||||
| Outro problema que vejo é a ausência de Plano Municipal de Saneamento que contemple OBRIGATORIAMENTE a separação dos resíduos reciclaveis e sua destinação. Outro dia observei em imagens de TV a quantidade de papelão amontoado com o lixo. Quem sabe não seria oportuna a implantação de Plano Metropolitano de Saneamento? O Rio Cuiabá está aceitando tudo o que "jogamos" nele. | ||||
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