Cuiabá, Terça-Feira, 6 de Janeiro de 2026
LIXO NO CENTRO
05.01.2026 | 07h00 Tamanho do texto A- A+

Comerciantes reclamam de regras confusas e falhas na coleta

O prefeito Abilio Brunini gravou um vídeo criticando os comerciantes pelo descarte irregular

Yasmin Silva/MidiaNews

Acúmulo de sacos de lixo nas calçadas do Centro provoca mau cheiro e compromete o visual da região

Acúmulo de sacos de lixo nas calçadas do Centro provoca mau cheiro e compromete o visual da região

ANGÉLICA CALLEJAS
DA REDAÇÃO

A crítica feita pelo prefeito Abilio Brunini (PL) aos comerciantes do Centro de Cuiabá por descarte irregular de lixo expôs um problema antigo da região: a ausência de regras claras, estrutura insuficiente e falhas recorrentes na coleta e na limpeza urbana. 

 

O caminhão de lixo passa à noite, né? Depois das sete. Às vezes recolhe tudo, às vezes não. Ali, inclusive, está cheio de água, cheio de larvas dentro do contêiner

Lojistas ouvidos pela reportagem do MidiaNews afirmam que, além de não receberem orientações objetivas sobre onde e como descartar resíduos, enfrentam fiscalizações contraditórias e um sistema que, segundo eles, não funciona.

 

Em vídeo publicado nas redes sociais no domingo (28), o prefeito mostrou sacos de lixo deixados no chão em frente a estabelecimentos comerciais e responsabilizou os lojistas pelo entupimento das bocas de lobo durante o período chuvoso. 

 

“Da onde que vem o lixo? Dos próprios lojistas. Põe uma cesta aqui, coloca um negócio para guardar o lixo. Olha, aí vem a chuva, leva todo esse lixo pra boca de lobo, e a situação é essa. O problema é a falta de educação”, afirmou. Nas imagens, Abilio também prometeu multar quem descartar lixo no chão do Centro.

 

Para os comerciantes, no entanto, o discurso ignora a realidade enfrentada por quem trabalha diariamente no Centro e transfere a responsabilidade ao setor privado sem que haja regulamentação, padronização ou estrutura adequada.

 

Dono da Lanchonete do Chuchu, na Rua Cândido Mariano, Rodenir relatou que a coleta ocorre apenas no período noturno e de forma instável. “O caminhão de lixo passa à noite, depois das sete. Às vezes recolhe tudo, às vezes não. Ali, inclusive, está cheio de água, cheio de larvas dentro do contêiner”, afirmou.

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Odenir, dono da Lanchonete do Chuchu

Rodenir, dono da Lanchonete do Chuchu, no Centro de Cuiabá

Segundo ele, apesar de o caminhão passar diariamente, o problema apenas diminuiu, sem ser resolvido. “Todo dia à noite. Agora, nessa nova gestão. Porque no ano passado ficava um carniço sempre aqui”, disse. Ainda assim, Rodenir avaliou que a medida é insuficiente.

 

“Deu uma amenizada. Eu acho que deveria tirar esse contêiner. Está em cima da praça. É um odor muito forte”.

 

O comerciante afirmou que o modelo adotado atualmente cria um foco permanente de sujeira e mau cheiro, agravado pela ação de moradores em situação de rua. “Tem muito morador de rua. O morador de rua rasga o lixo”, relatou. 

 

“Aquele chorume que escorre do lixo fica tudo empossado embaixo. E aí vem o cheiro aqui para nós. Vem o cheiro para todos aqui. Tem dia que está insuportável aqui”.

 

Rodenir afirmou ainda que a própria dinâmica da coleta contribui para o descarte irregular. Segundo ele, o peso do lixo dentro dos contêineres dificulta o trabalho dos coletores. “Acontece, acontece”, disse ao confirmar que, em alguns casos, os lixeiros pedem para que os sacos sejam deixados fora.

 

Tem que ter uma pessoa para tirar. A partir das seis o pessoal tem que estar tirando. Então, não é certo, né? Não é certo culpar os comerciantes

Para ele, a Prefeitura criou um problema e depois passou a punir os comerciantes. “Eu acho que remover isso aí e deixar como era antigamente. De tardezinha cada lojista colocava seu lixinho na porta, caminhavam e levavam”.

 

Ao comentar a crítica feita pelo prefeito, Rodenir rechaça a generalização. “Quando chove o lixo realmente desce. Só que eu acho que o prefeito tem que ver isso aí também. Tem que ter uma pessoa para tirar. A partir das seis o pessoal tem que estar tirando. Então, não é certo, né? Não é certo culpar os comerciantes”, afirmou.

 

Outros comerciantes ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato por receio de represálias, afirmaram que a Prefeitura cobra o cumprimento de regras que não existem formalmente. O proprietário de outra lanchonete na região disse que já foi multado, na gestão passada, por manter uma lixeira na calçada para os clientes, mesmo sem haver lei clara sobre o tema.

 

Segundo ele, na atual gestão, a orientação foi completamente diferente. “O fiscal trouxe a lixeira e mandou colocar na calçada”, relatou. Para ele, a falta de padronização expõe os lojistas à arbitrariedade. “Cada um fala uma coisa, e no fim quem paga somos nós”.

 

Outro comerciante, dono de um comércio geral no Centro, afirmou que os lojistas são orientados a levar o lixo até um contêiner localizado em frente à loja Riachuelo, mas que a estrutura é insuficiente para atender a demanda da região. 

 

Yasmin Silva/MidiaNews

Lixo acumulado nas calçadas do centro de Cuiabá

Interior do contêiner disponibilizado pela Limpurb para o descarte do lixo

Segundo ele, o equipamento fica constantemente sobrecarregado, com sacos acumulados do lado de fora, e também criticou a precariedade dos serviços básicos.

 

“O caminhão de lixo não passa sempre. A varrição também não é diária”, disse, acrescentando que o lixo frequentemente permanece por dias nas proximidades dos estabelecimentos.

 

Natural do Rio Grande do Sul, o comerciante comparou a situação de Cuiabá com o modelo adotado em seu estado de origem, onde há regras claras e fiscalização padronizada. 

 

Segundo ele, a legislação local de lá obriga os comerciantes a manterem lixeiras fechadas com tranca. “No horário certo o comerciante tem que ir lá e abrir. Se não abrir, toma multa”, afirmou.

 

Para ele, a principal diferença está na existência de normas objetivas. “Aqui não tem um fim. A gente não sabe o que tem que fazer. O tempo todo tem lixo na rua”, disse.

 

O comerciante também criticou diretamente a postura do prefeito. “O prefeito reclama de uma coisa que ele nem sabe como funciona e também não determina lei nenhuma”, afirmou.

 

Enquanto a Prefeitura atribui aos comerciantes a responsabilidade pelo descarte irregular, lojistas do Centro apontam falhas estruturais na coleta e cobram regras objetivas para o funcionamento do sistema.

 

A reportagem entrou em contato com a Limpurb (Empresa Cuiabana de Limpeza Urbana), mas não houve resposta até o fechamento da reportagem.

 

Veja o vídeo:

 

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Jandira Maria Pedrollo  05.01.26 13h52
Outro problema que vejo é a ausência de Plano Municipal de Saneamento que contemple OBRIGATORIAMENTE a separação dos resíduos reciclaveis e sua destinação. Outro dia observei em imagens de TV a quantidade de papelão amontoado com o lixo. Quem sabe não seria oportuna a implantação de Plano Metropolitano de Saneamento? O Rio Cuiabá está aceitando tudo o que "jogamos" nele.
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