Mães - Hospital do Cancer
“Não importa quem está com a razão. O que não pode é os pacientes saírem prejudicados”. O desabafo é da professora Rosinete Celeste Duarte, de 36 anos, mãe da jovem Beatriz Sheievillin Duarte, de 20, que luta há um ano e meio contra um câncer e não consegue fazer a quimioterapia por causa da crise nos hospitais filantrópicos em razão da falta de repasses.
Rosinete e a filha são de Primavera do Leste (240 km de Cuiabá). Elas vêm a Cuiabá uma vez por semana para a filha, que tem Leucemia Linfóide Aguda (ou LLA), fazer a quimioterapia.
A paralisação dos atendimentos nos hospitais filantrópicos da Capital começou no último dia 7 de novembro. E desde então os pacientes do Hospital de Câncer de

Mato Grosso (HCâncer) não estão conseguindo realizar o tratamento adequado contra a doença.
A reportagem do MidiaNews esteve nesta semana no Hospital de Câncer e conversou com algumas mães que estavam no local acompanhando os filhos doentes. Todas relataram um sentimento em comum: desespero.
“Minha filha faz tratamento aqui há um ano e meio e nesse meio tempo a doença já foi e voltou quatro vezes. Os médicos disseram que não têm mais o que fazer. Então ela está fazendo a quimioterapia paliativa, somente para segurar o tempo de vida. E agora a gente se vê nessa situação, que é desesperadora”, relatou a mãe.
“Ela tem que tomar essa ‘quimio’ toda semana. E desde que começou essa paralisação, ela deixou de tomar a dose por duas semanas e já começou a sentir os efeitos da doença. Sabe-se lá quando ela vai tomar de novo. Tudo isso é muito desesperador pra mim porque ela sente muita fraqueza”, lamentou indignada.
A professora disse que só conseguiu que a filha fizesse quimioterapia nesta semana porque o médico viu que ela não estava bem.
Ela ainda pede que o hospital e a o poder público tentem resolver o problema dos repasses sem afetar os pacientes.
“Eu vejo que o prefeito fala uma coisa e o diretor diz outra, mas na nossa condição, não importa quem está com a razão. O que não se pode é as pessoas ficarem nessa situação, sem tratamento e sem atendimento. Não é só minha filha que está sentindo os efeitos da falta de quimioterapia, muitos pacientes estão”, disse.
A dona de casa Jane da Maria da Silva, de 29 anos, assim como Rosinete, relata a situação difícil, de ter que morar em outra cidade e chegar à Capital para não conseguir atendimento para o filho de apenas 11 meses.
Marcus Mesquita/MidiaNews
A dona de casa Jane da Maria da Silva, de 29 anos, com o filho de 11 meses que também faz quimioterapia na Capital
Eles são moradores de Rondonópolis (212 km da Capital) e também vêm a Cuiabá uma vez por semana.
O filho de Jane passou por cirurgia para ressecar um tumor e agora está em tratamento com a quimioterapia. Ele também ficou sem tomar duas doses nos últimos dias.
“Desde quando os médicos paralisaram os atendimentos, ele deixou de tomar duas doses. Mas graças a Deus ele ainda não teve nenhum tipo de reação contrária. Só que eu tenho medo, porque isso prejudica a saúde”.
“Eu fico indignada porque na hora de pagar nossos impostos temos que pagar, mas quando precisamos de dinheiro pra saúde, cadê? A falta desse repasse está prejudicando todo mundo. Já é um custo enorme vir de Rondonópolis e ainda temos que passar por isso?”, desabafou.
Para Leiliane Souza Lopes, de 21 anos, a situação ainda é mais complicada. Com a filha de apenas 1 ano com câncer no fígado e morando em São Pedro da Cipa (148 km ao Sul de Cuiabá), ela vem duas vezes por semana a Cuiabá.
“Ela deixou de receber a quimioterapia por 15 dias e agora está visivelmente abatida. Ela nunca ficou assim, é muito triste ter que ver isso. Eu fico muito constrangida por passar por um momento assim, tão difícil. Eu acho que eles tinham que se colocar no nosso lugar e dos nossos filhos, porque ninguém merece passar por isso que estamos passando”, disse.
“Eu sei que os funcionários não têm culpa, sabemos também que eles têm que receber, que ninguém trabalha de graça, mas e o nosso lado?”, questionou.
"Desespero generalizado"
Marcus Mesquita/MidiaNews
O diretor do HCâncer, Laudemi Moreira Nogueira
Procurado pela reportagem, o diretor do HCâncer, Laudemi Moreira Nogueira, afirmou que nenhum dos pacientes que já estão internados deixou de receber o devido tratamento.
Segundo ele, o que aconteceu foi um “desespero generalizado” das mães por conta dos boatos espalhados nas redes sociais a respeito da paralisação.
“Isso é um equivoco que circulou nas redes sociais. Não é verdade que o hospital suspendeu o atendimento dos pacientes já em tratamento. Nenhuma criança da pediatria teve o tratamento suspenso. O que houve foi um desespero das mães, o que é muito natural”.
Ele explicou ainda que o hospital não está recebendo apenas novos pacientes, justamente para não prejudicar os que já estão internados, já que o atendimento foi reduzido.
“A quimioterapia tem um ciclo de 21 dias. Nós não temos 21 dias parados, como que podem ter ficado sem tratamento? Essas mães que os filhos receberam a medicação no dia 9 [de novembro], com a notícia da paralisação, entraram em desespero. As pessoas que estavam em tratamento continuam sendo atendidas. Nós não vamos matar as pessoas”.
“Nós não podemos receber novos casos, porque aí teríamos que dividir a medicação com aqueles que já estão em tratamento e eu não tenho recurso para repor medicação para atender casos novos”, disse.
Falta de repasse
No início deste mês, a Associação Mato-Grossense de Combate ao Câncer, que administra o hospital, afirmou que há uma dívida por parte da Prefeitura, decorrente de atrasos nos pagamentos dos meses de setembro e outubro, nos valores de R$ 2.973.602,38 e R$ 2.481.482,62, respectivamente.
O prefeito Mauro Mendes (PSB), por sua vez, negou atrasos a unidade e ainda classificou a direção do hospital como “mentirosa” e “desonesta”.
Em uma audiência entre Prefeitura de Cuiabá e Hospital de Câncer, na 1ª Vara Especializada da Infância e Juventude, na sexta-feira (25), a juíza Gleide Bispo Santos entendeu que não existem atrasos de repasses por parte do Município.
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3 Comentário(s).
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| Sônia Gaspar Felix 28.11.16 11h09 | ||||
| Engraçado, e os salários dos medicos estão atrasados? Dúvido, salários essa "nova" direção veio acabar com Hospital de Câncer, a Prefeitura está correta ,Fundo Nacional de saúde repassado ao Hospital está em dia...milhões de doações são feitas para Hospital | ||||
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| Carlos Nunes 27.11.16 17h12 | ||||
| Isso é que dá termos um prefeito que...em vez de aplicar dinheiro na Saúde, principalmente no Hospital do Câncer - Câncer é uma doença onde se o Hospital diz que precisa de 1 Milhão, tem que dar 2...gasta 3 MILHÕES DE REAIS na compra de uma fonte luminosa musical, lá da China. Vai gostar de fonte luminosa musical lá na China mesmo. Pergunta pró Diretor do HCâncer, Laudemi Moreira Nogueira o que ele faria, principalmente pelas crianças com câncer, com 3 MILHÓES DE REAIS. Quantas se salvariam, melhorariam, curariam? Será que sou só eu que acho absurdo comprar fonte luminosa musical, em vez de aplicar o dinheiro na Saúde? Deve ser só eu, e todos que tem algum parente com câncer. Em quase todas as famílias, já teve, tem ou terá alguém com câncer. É uma doença perigosa, se não for tratada no início, mata. | ||||
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| Paulo 27.11.16 14h35 | ||||
| Então, se não há atraso de repasse, porque a paralisação? Enquanto isso, muita gente precisando de começar tratamento morrendo à espera da boa vontade de quem? | ||||
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