Dores intensas próximas ao período menstrual, enjoo, tonturas ou dores durante a relação sexual podem, por vezes, ser vistas como normais por inúmeras mulheres e seus familiares. No entanto, para a ginecologista e professora de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Giovana Fortunato, esses sintomas acendem um alerta para um possível caso de endometriose.

“Essa cólica, quando sai do padrão de normalidade, tem que ser investigada. A gente não pode normalizar algo que não é normal. A gente escuta muito: 'Ah, é normal, engravida que passa, casa que passa'. Mas não é normal ter cólica que vem com náusea, com vômito, com desmaio, com sensação de cair, sudorese”, explicou a médica.
A endometriose é caracterizada pelo acúmulo e crescimento de tecido - semelhante ao revestimento uterino - fora da cavidade uterina, provocando uma reação inflamatória que pode atingir órgãos reprodutores em mulheres em idade reprodutiva e causar infertilidade se não tratado.
Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode estar associada à autoimunidade, fatores genéticos, hormonais e à possibilidade de menstruação retrógrada — quando o sangue menstrual, em vez de sair do corpo, reflui pelas tubas uterinas em direção à cavidade abdominal. A condição pode causar sintomas variados, a depender do órgão em que o tecido se aloja.
“Essas pacientes costumam apresentar sintomas associados, na maioria das vezes, ao local onde os implantes estão. Quando atingem o intestino, podem provocar sangramento, dor durante a evacuação, dor anal, além de obstrução ou suboclusão intestinal. Se acometem a bexiga, há aumento da frequência urinária, possibilidade de sangramento na urina e dor ao urinar. Já quando atingem ligamentos e a região pélvica, podem causar comprometimento durante a atividade sexual”, explicou a médica.
Victor Ostetti/MidiaNews
Com taxa de prevalência estimada entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, a doença tem ganhado visibilidade após relatos públicos de personalidades como a cantora Anitta, a atriz Larissa Manoela, Gisele Bündchen e Demi Lovato, que compartilharam seus diagnósticos de forma aberta.
Para Giovana, essas falas ajudam a despertar identificação em outras mulheres e, consequentemente, ajuda profissional.
“Por serem pessoas públicas, despertam a curiosidade do público. As pessoas leem as histórias, passam a internalizar essas informações e percebem semelhanças: ‘Nossa, é parecido. Eu também tenho cólica. Tenho sangramento ao evacuar. Tenho queixa urinária’. A partir daí, isso desperta a busca por ajuda profissional".
Impacto na sexualidade e autoestima
Apesar das dores intensas, Giovana explicou que o desconforto durante a relação sexual é um dos principais motivos que levam pacientes a procurar atendimento médico.
“A sexualidade, hoje, é um despertar, independentemente das escolhas de gênero. Assim, quando há penetração, durante o movimento, se a paciente apresenta inflamação e focos na pelve, ela pode sentir muita dor durante a relação sexual. A doença é tão evolutiva que a dor passa a ocorrer em praticamente todas as posições".

Com o tempo, a recorrência das dores pode afetar o prazer feminino e a autoestima das mulheres sem diagnóstico, impactando as relações afetivas e a saúde emocional das pacientes.
“São pessoas jovens, que a sexualidade está brotando. Então, ela vai deixando de compartilhar esse prazer. Ou ela vai fazer, porque ela tem que fazer".
“Há pacientes que suportam a dor em silêncio e relatam: ‘Doutora, eu já não via a hora de a relação terminar’. Muitas não compartilham isso com o parceiro, por medo de perder a relação ou o relacionamento. Com isso, a autoestima fica abalada: existe o desejo, mas a mulher não consegue se entregar plenamente. Ela passa a sentir que não está sendo ‘suficiente’ na sexualidade do parceiro, o que pode levar à depressão e, consequentemente, ao surgimento de problemas de saúde mental".
Nesse contexto, a médica ressaltou a importância do acolhimento familiar e da escuta ativa para que a mulher busque diagnóstico e tratamento adequados.
Diagnóstico e tratamento
A endometriose possui diagnóstico clínico e, com os avanços da medicina, esse processo tem se tornado mais rápido, possibilitando o tratamento precoce e a redução do risco de complicações.
Apesar disso, o diagnóstico pode variar conforme o caso, sendo necessária a solicitação de exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal ou ressonância magnética de pelve com contraste, para identificar a localização e a extensão das lesões e definir a melhor conduta terapêutica.

Sobre o tratamento, Giovana explicou que ele pode variar de paciente para paciente, desde o controle medicamentoso até procedimentos cirúrgicos, conforme a gravidade da doença.
“Vai devolver a qualidade de vida, mas não elimina a endometriose já existente. Quando o caso é cirúrgico, o protocolo indicado é a cirurgia. Isso ocorre quando a doença está avançada, quando já se esgotou o arsenal de tratamentos clínicos e a paciente não apresenta melhora, passando a viver no hospital, fazendo uso de medicação endovenosa para controle da dor".
Por fim, a médica alertou que o tratamento precoce é fundamental para evitar a progressão da doença, que pode causar infertilidade e complicações gastrointestinais.
“O diagnóstico precoce precisa ser feito. Deve ser feito. Suspeitou? Documenta e inicia o tratamento. Assim, você reduz as chances de complicações para a paciente. O grande problema da endometriose é justamente a evolução para quadros avançados, que, em alguns casos, podem levar até à necessidade de uma bolsa de colostomia”, finalizou.
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