Cuiabá, Segunda-Feira, 5 de Janeiro de 2026
SAÚDE DA MULHER; VÍDEO
04.01.2026 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

“Não é normal sentir tanta dor”: médica alerta sobre endometriose

Ginecologista Giovana Fortunato explicou os sintomas da doença e as consequências para as mulheres

Victor Ostetti/MidiaNews

Médica ginecologista e docente da Universidade Federal de MT, Giovana Fortunato

Médica ginecologista e docente da Universidade Federal de MT, Giovana Fortunato

ANDRELINA BRAZ
DA REDAÇÃO

Dores intensas próximas ao período menstrual, enjoo, tonturas ou dores durante a relação sexual podem, por vezes, ser vistas como normais por inúmeras mulheres e seus familiares. No entanto, para a ginecologista e professora de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Giovana Fortunato, esses sintomas acendem um alerta para um possível caso de endometriose.

 

Deve ser investigada. A gente não pode normalizar algo que não é normal

“Essa cólica, quando sai do padrão de normalidade, tem que ser investigada. A gente não pode normalizar algo que não é normal. A gente escuta muito: 'Ah, é normal, engravida que passa, casa que passa'. Mas não é normal ter cólica que vem com náusea, com vômito, com desmaio, com sensação de cair, sudorese”, explicou a médica.  

 

A endometriose é caracterizada pelo acúmulo e crescimento de tecido - semelhante ao revestimento uterino - fora da cavidade uterina, provocando uma reação inflamatória que pode atingir órgãos reprodutores em mulheres em idade reprodutiva e causar infertilidade se não tratado.

 

Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode estar associada à autoimunidade, fatores genéticos, hormonais e à possibilidade de menstruação retrógrada — quando o sangue menstrual, em vez de sair do corpo, reflui pelas tubas uterinas em direção à cavidade abdominal. A condição pode causar sintomas variados, a depender do órgão em que o tecido se aloja. 

 

 

“Essas pacientes costumam apresentar sintomas associados, na maioria das vezes, ao local onde os implantes estão. Quando atingem o intestino, podem provocar sangramento, dor durante a evacuação, dor anal, além de obstrução ou suboclusão intestinal. Se acometem a bexiga, há aumento da frequência urinária, possibilidade de sangramento na urina e dor ao urinar. Já quando atingem ligamentos e a região pélvica, podem causar comprometimento durante a atividade sexual”, explicou a médica.

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Giovana Fortunato

 

Com taxa de prevalência estimada entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, a doença tem ganhado visibilidade após relatos públicos de personalidades como a cantora Anitta, a atriz Larissa Manoela, Gisele Bündchen e Demi Lovato, que compartilharam seus diagnósticos de forma aberta.

 

Para Giovana, essas falas ajudam a despertar identificação em outras mulheres e, consequentemente, ajuda profissional.

 

“Por serem pessoas públicas, despertam a curiosidade do público. As pessoas leem as histórias, passam a internalizar essas informações e percebem semelhanças: ‘Nossa, é parecido. Eu também tenho cólica. Tenho sangramento ao evacuar. Tenho queixa urinária’. A partir daí, isso desperta a busca por ajuda profissional". 

 

Impacto na sexualidade e autoestima

 

 

Apesar das dores intensas, Giovana explicou que o desconforto durante a relação sexual é um dos principais motivos que levam pacientes a procurar atendimento médico.

 

“A sexualidade, hoje, é um despertar, independentemente das escolhas de gênero. Assim, quando há penetração, durante o movimento, se a paciente apresenta inflamação e focos na pelve, ela pode sentir muita dor durante a relação sexual. A doença é tão evolutiva que a dor passa a ocorrer em praticamente todas as posições". 

 

ela pensa que ela também não está sendo produtiva em relação à sexualidade do parceiro. Aí deprime

Com o tempo, a recorrência das dores pode afetar o prazer feminino e a autoestima das mulheres sem diagnóstico, impactando as relações afetivas e a saúde emocional das pacientes.

 

“São pessoas jovens, que a sexualidade está brotando. Então, ela vai deixando de compartilhar esse prazer. Ou ela vai fazer, porque ela tem que fazer". 

 

“Há pacientes que suportam a dor em silêncio e relatam: ‘Doutora, eu já não via a hora de a relação terminar’. Muitas não compartilham isso com o parceiro, por medo de perder a relação ou o relacionamento. Com isso, a autoestima fica abalada: existe o desejo, mas a mulher não consegue se entregar plenamente. Ela passa a sentir que não está sendo ‘suficiente’ na sexualidade do parceiro, o que pode levar à depressão e, consequentemente, ao surgimento de problemas de saúde mental". 

 

Nesse contexto, a médica ressaltou a importância do acolhimento familiar e da escuta ativa para que a mulher busque diagnóstico e tratamento adequados.

 

Diagnóstico e tratamento

  

A endometriose possui diagnóstico clínico e, com os avanços da medicina, esse processo tem se tornado mais rápido, possibilitando o tratamento precoce e a redução do risco de complicações.

 

Apesar disso, o diagnóstico pode variar conforme o caso, sendo necessária a solicitação de exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal ou ressonância magnética de pelve com contraste, para identificar a localização e a extensão das lesões e definir a melhor conduta terapêutica.

 

O problema é a complicação da endometriose, é chegar no quadro avançado

Sobre o tratamento, Giovana explicou que ele pode variar de paciente para paciente, desde o controle medicamentoso até procedimentos cirúrgicos, conforme a gravidade da doença. 

 

“Vai devolver a qualidade de vida, mas não elimina a endometriose já existente. Quando o caso é cirúrgico, o protocolo indicado é a cirurgia. Isso ocorre quando a doença está avançada, quando já se esgotou o arsenal de tratamentos clínicos e a paciente não apresenta melhora, passando a viver no hospital, fazendo uso de medicação endovenosa para controle da dor". 

 

Por fim, a médica alertou que o tratamento precoce é fundamental para evitar a progressão da doença, que pode causar infertilidade e complicações gastrointestinais. 

 

“O diagnóstico precoce precisa ser feito. Deve ser feito. Suspeitou? Documenta e inicia o tratamento. Assim, você reduz as chances de complicações para a paciente. O grande problema da endometriose é justamente a evolução para quadros avançados, que, em alguns casos, podem levar até à necessidade de uma bolsa de colostomia”, finalizou. 

 

Entre no grupo do MidiaNews no WhatsApp e receba notícias em tempo real (CLIQUE AQUI).




Clique aqui e faça seu comentário


COMENTÁRIOS
0 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia