Só uma semana não basta: médico cobra rotina, exercício e check-up
Daniel Diehl relacionou alguns comportamentos e recomendações para uma vida saudável em 2026
Victor Ostetti/MidiaNews
Médico Daniel Diehl sugere ponderação e organizar dias da semana para saúde pessoal no Ano Novo
JONAS DA SILVA
DA REDAÇÃO
No início do ano, muita gente promete mudar hábitos, cuidar melhor da saúde e adotar uma rotina mais equilibrada. Mas, segundo o cardiologista Daniel Diehl, o problema não está na intenção e sim na falta de constância. “A grande falha são os picos. A pessoa se motiva, cumpre tudo por uma semana e depois abandona. A falta de regularidade é o grande vilão”.
A grande falha são os picos. A pessoa se motiva, cumpre tudo por uma semana e depois abandona
Em entrevista ao MidiaNews, o médico falou sobre os erros mais comuns de quem tenta mudar o estilo de vida, explicou por que o sedentarismo deve ser encarado como uma doença e reforçou que prevenção vai muito além de atitudes pontuais. “Não é natural o ser humano não se exercitar. Quando você deixa de se exercitar, aumenta a ocorrência de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e obesidade”, alertou.
Diehl destacou que cuidar do coração exige planejamento, rotina e acompanhamento médico regular. Alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e check-ups periódicos formam a base de uma vida saudável, mas só funcionam quando incorporados de forma contínua. “O grande desafio é transformar essas medidas em hábito, e não em exceção”, afirmou.
Para o cardiologista, a prevenção ainda esbarra na resistência em procurar o médico antes do problema aparecer. “O que a gente não gostaria é que o primeiro diagnóstico da doença cardíaca acontecesse só depois de um infarto, mas isso ainda é muito comum”, lamentou.
A entrevista traz orientações práticas para quem quer, de fato, começar o ano cuidando melhor do coração, sem exageros, sem modismos e com foco na regularidade.
Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):
MidiaNews – Ano novo costuma trazer promessas de mudança. Na prática, quais hábitos realmente fazem diferença para a saúde do coração?
Dr. Daniel Diehl – A saúde do coração está diretamente ligada aos cuidados gerais com o corpo e a mente. Falamos de medidas simples e bem conhecidas: controle da pressão arterial, alimentação equilibrada para evitar a obesidade, sono de qualidade e prática regular de atividade física. O início do ano, especialmente nessa transição de 2025 para 2026, funciona quase como um ritual de recomeço. As promessas ajudam na motivação e são válidas, desde que sirvam para reforçar hábitos que, de fato, previnem doenças cardiovasculares.
Quem não dorme bem não tem vontade de fazer uma atividade física. Quem não faz atividade física ou não dorme bem não tem dieta adequada
MidiaNews – Para quem quer começar o ano cuidando melhor do coração, quais seriam os primeiros passos?
Dr. Daniel Diehl – Para quem não conseguiu cuidar do coração em 2025, o início do ano é uma grande oportunidade de recomeço. É um período naturalmente mais motivador.
O ideal é pensar nos pilares da prevenção: atividade física regular, sono adequado, alimentação equilibrada e momentos de descanso. A convivência familiar e a socialização com amigos também fazem diferença e muitas vezes são negligenciadas.
O grande desafio é a regularidade. O erro mais comum são os “picos” de motivação: a pessoa começa animada, segue tudo à risca por uma semana e depois abandona. A falta de constância é o maior vilão. Outro comportamento que precisa ser evitado é o excesso. Não faz sentido, por exemplo, decidir correr 10 km logo no início do ano sem nenhum preparo prévio. Mudança de estilo de vida precisa ser gradual e segura.
MidiaNews – Entre alimentação, atividade física, controle do estresse e sono, qual é o fator mais decisivo para proteger o coração?
Dr. Daniel Diehl – Todos são importantes e se complementam. Além deles, gosto sempre de destacar hábitos que parecem menores, mas têm grande impacto, como a socialização. Ter relações saudáveis, conviver com a família e amigos, influencia tanto a saúde mental quanto a física. Sobre o estresse, ele costuma ser visto apenas como vilão, mas não deveria. O estresse faz parte da vida e é necessário para que a gente se mantenha ativo e produtivo. O problema não é o estresse em si, mas o excesso, que leva ao esgotamento — o chamado burnout. Por isso, o mais correto é falar em controle do estresse, e não em sua eliminação total.
MidiaNews – É possível melhorar a saúde do coração com mudanças simples no dia a dia, sem grandes restrições ou rotinas rígidas?
Dr. Daniel Diehl – Sim. Existem mudanças simples que ajudam muito, embora nem sempre sejam fáceis de colocar em prática. Um bom exemplo é o sono. Para dormir bem, é preciso se desligar, o que muitas vezes significa abrir mão do celular e reduzir o uso de telas a partir do início da noite. Criar um ambiente adequado para dormir também faz diferença: local silencioso, confortável e, no caso de Mato Grosso, preferencialmente refrigerado. Um sono de qualidade permite melhor recuperação do organismo e facilita a prática de atividade física no dia seguinte. Para muitos pacientes — como hipertensos, diabéticos ou pessoas que já tiveram infarto ou AVC —, costumo orientar que a atividade física seja feita no início do dia, respeitando sempre os limites individuais.
Um dos primeiros compromissos do dia deve ser com você mesmo, fazendo atividade física logo pela manhã. A gente sabe que, ao longo do dia, a rotina de trabalho e as exigências familiares acabam fazendo com que a atividade seja adiada. Quando chega o horário programado — por exemplo, às 18h — sempre surge algum imprevisto e o exercício fica para depois.
Por isso, são pequenos ajustes que fazem diferença. Em relação à alimentação, é importante evitar dietas muito restritivas. Outra estratégia simples é o ambiente: se você não tem alimentos ultraprocessados, biscoitos, doces ou chocolates em casa, você não vai consumi-los todos os dias. Aquilo que não está disponível na geladeira ou na despensa dificilmente vira um hábito diário.
Victor Ostetti/MidiaNews
"O sedentarismo é uma doença que o nosso mundo, não só o Brasil, todo vive"
MidiaNews – Doutor, o sedentarismo ainda é um dos principais vilões cardiovasculares. Que tipo de atividade física já traz benefícios reais para o coração?
Dr. Daniel Diehl – Excelente pergunta. O sedentarismo é uma doença, e precisa ser tratado como tal. Não é algo natural ao ser humano. Quando a pessoa deixa de se exercitar, aumenta a ocorrência de doenças crônicas e degenerativas, principalmente hipertensão, diabetes e obesidade.
A obesidade, por muito tempo, não foi tratada como doença, mas hoje sabemos que ela deve ser encarada dessa forma, por estar diretamente relacionada ao sedentarismo e a outras condições de saúde. Não se trata de falta de força de vontade ou de caráter, mas de uma doença multifatorial.
Qualquer atividade física regular já traz benefícios reais para o coração, desde caminhadas frequentes até exercícios mais estruturados, desde que feitos com orientação e regularidade.
MidiaNews – As pessoas costumam procurar o cardiologista apenas quando sentem algum sintoma. Por que o check-up cardiológico é tão importante e qual a periodicidade ideal?
Dr. Daniel Diehl – O check-up cardiológico é geralmente indicado a partir dos 35 a 40 anos, porque permite identificar doenças silenciosas, como a hipertensão. Se você não mede a pressão, não sabe se é hipertenso. O mesmo vale para a dislipidemia, que é o colesterol alto, e para o diabetes em fase inicial, que muitas vezes não apresenta sintomas.
Além disso, o check-up ajuda a detectar a aterosclerose, que é o envelhecimento e o acúmulo de gordura nos vasos do coração e do cérebro. São doenças que evoluem de forma silenciosa e, quando dão sintomas, muitas vezes já estão avançadas.
Não existe um protocolo único, um “copia e cola”, que sirva para todas as pessoas
Esse acompanhamento é o mínimo esperado para um adulto jovem. Mas vale lembrar que a prevenção começa ainda na infância. O pediatra, desde cedo, pode identificar riscos em crianças com histórico familiar de diabetes, hipertensão, obesidade ou colesterol alto. A prevenção precoce facilita muito a mudança de hábitos.
MidiaNews – Existe uma idade ideal para iniciar o acompanhamento cardiológico?
Dr. Daniel Diehl – Não existe uma idade única ou uma regra fixa. O acompanhamento depende dos fatores de risco individuais. Crianças que apresentam fatores de risco familiares ou alterações já identificadas precisam de acompanhamento mais próximo, que pode ser anual ou a cada dois ou três anos.
O mesmo vale para os adultos. Há pessoas com 35 ou 40 anos que não têm fatores de risco — o que é raro —, não são hipertensas, diabéticas ou obesas, praticam atividade física regularmente, não fumam e não abusam do álcool. Esses pacientes podem ser reavaliados a cada dois ou três anos. Mas esse é um perfil quase ideal e pouco frequente. A maioria das pessoas apresenta algum fator de risco e, por isso, precisa de atenção contínua. O acompanhamento cardiológico deve ser individualizado, sempre considerando o histórico e o estilo de vida de cada paciente.
Não existe um protocolo único, um “copia e cola”, que sirva para todas as pessoas. Toda consulta médica precisa ser individualizada, levando em conta a idade, as doenças já existentes e o histórico familiar do paciente.
MidiaNews – Doutor Daniel, quais sinais não devem ser ignorados e indicam que uma pessoa precisa procurar um cardiologista com urgência?
Dr. Daniel Diehl – Sempre que o paciente apresentar algum desconforto na região do tórax, isso deve ser levado a sério. Quando falamos em tórax, nos referimos a uma área ampla, que vai do pescoço e mandíbula até a região superior do abdômen. Esse desconforto nem sempre é descrito como dor. Algumas pessoas relatam aperto no peito, queimação, peso ou um mal-estar difícil até de explicar.
Sempre que houver esse tipo de sintoma, é necessária uma avaliação inicial. Na maioria das vezes, graças a Deus, não se trata de algo grave. Um jovem de 20 anos, saudável, que comeu em excesso, deitou e teve queimação no peito provavelmente está lidando com refluxo, e não com um problema cardíaco.
Victor Ostetti/MidiaNews
"Sempre que o paciente apresentar algum desconforto na região do tórax, isso deve ser levado a sério"
Por outro lado, um paciente de 60 ou 70 anos, diabético ou hipertenso, que apresenta queimação ou aperto no peito após um esforço físico não habitual, especialmente se o sintoma melhora com o repouso, acende um sinal de alerta importante para infarto.
Portanto, o desconforto na região do tórax, que pode se estender para o pescoço, é um dos principais sinais de alerta. Outro sintoma que nunca deve ser ignorado é a falta de ar. Não é normal sentir o fôlego curto sem explicação. Mesmo em pessoas jovens, esse sintoma precisa ser avaliado por um médico. Dor no peito e falta de ar são, para mim, dois sinais claros que indicam a necessidade de procurar atendimento médico.
MidiaNews – Existe aquela frase popular de que “o coração não dói, ele para de repente”. Isso é verdade ou é um mito?
Dr. Daniel Diehl – Isso é um mito. O coração dói, sim, mas geralmente a dor não aparece exatamente sobre o local onde ele está. Isso acontece por causa da forma como os nervos da região cardíaca estão distribuídos.
O desconforto pode se manifestar no meio do peito, no ombro, no braço esquerdo ou até nos dois braços, no pescoço, na mandíbula e, em muitos casos, como uma dor ou queimação no estômago.
O erro mais comum é esperar uma dor localizada apenas no lado esquerdo do peito. O coração dá sinais, sim, mas muitas vezes de forma indireta. Essa é a principal mensagem: não subestimar os sintomas e procurar ajuda médica ao menor sinal de alerta.
Não é que o coração em si não dói, ele dá sinais através da manifestação na região próxima a ele. O que a gente não pode esperar é que a dor do coração seja apenas sobre a região do tórax do lado esquerdo onde o coração
MidiaNews – Nós, profissionais da imprensa, muitas vezes noticiamos que uma pessoa faleceu em decorrência de um “ataque cardíaco fulminante”. Como isso é caracterizado do ponto de vista médico e o que, de fato, acontece no organismo?
Dr. Daniel Diehl – Esse é um tema sensível e até um pouco polêmico, mas há conceitos técnicos bem definidos. Quando ocorre um falecimento inesperado, em alguém que aparentemente não tinha uma doença capaz de causar a morte imediata, utilizamos o termo morte súbita. Morte súbita não é sinônimo de infarto. O infarto agudo do miocárdio é, sim, uma das principais causas de morte súbita, mas não é a única. Existem outras condições que podem levar a esse desfecho, como o aneurisma cerebral — uma dilatação anormal de uma artéria do cérebro que, ao se romper, pode causar morte súbita —, a embolia pulmonar, que ocorre quando um coágulo se aloja no pulmão, e a dissecção de aorta, caracterizada por uma lesão grave na principal artéria do corpo, que sai do coração e distribui o sangue para todo o organismo.
Por isso, existem várias causas possíveis de morte súbita. No entanto, culturalmente, toda morte inesperada acaba sendo atribuída ao infarto. É comum ouvir: “morreu aos 40 anos, não acordou, foi infarto”. Sem uma investigação adequada, realizada por equipes especializadas, como o Serviço de Verificação de Óbito ou por meio de autópsia, não é possível afirmar com certeza a causa da morte.
Em alguns casos, o contexto clínico ajuda a levantar a suspeita. Se o paciente já tinha histórico de doença cardíaca, havia passado por angioplastia com implante de stent e, antes de falecer, relatou dor no peito, é plausível pensar em morte súbita causada por um infarto agudo do miocárdio. Ainda assim, é importante reforçar: morte súbita não é sinônimo de infarto, embora o infarto seja a causa mais frequente, dependendo do perfil de risco da população.
MidiaNews – É verdade, doutor Daniel, que algumas doenças cardíacas se manifestam de forma silenciosa? Como a cardiologia intervencionista consegue identificar esses casos?
Dr. Daniel Diehl – Sim, muitas doenças cardíacas evoluem de forma silenciosa. A cardiologia intervencionista, assim como a cardiologia de modo geral, evoluiu muito nas últimas décadas justamente para identificar essas doenças em fases mais precoces.
O objetivo do acompanhamento cardiológico e dos check-ups preventivos é detectar a doença ainda nos estágios iniciais. Existem diferentes fases da doença cardíaca, e o que a gente não deseja é que o primeiro diagnóstico aconteça apenas quando ela já se manifestou de forma grave, como no infarto.
Infelizmente, isso ainda é comum. Muitos pacientes nunca passaram por avaliação médica, nunca mediram pressão arterial, glicemia ou colesterol, e acabam descobrindo a doença cardíaca somente após um evento agudo, quando precisam de um cateterismo ou da implantação de um stent.
O ideal é que, por meio das consultas preventivas, a doença seja identificada na fase chamada subclínica, quando ela já existe, mas ainda não provoca sintomas, não causa sofrimento ao paciente e, principalmente, não deixa sequelas no coração. Esse é o grande objetivo da prevenção em cardiologia.
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