Cuiabá, Domingo, 30 de Novembro de 2025
ROMPENDO O CICLO DA VIOLÊNCIA; VÍDEO
30.11.2025 | 08h00 Tamanho do texto A- A+

Programa devolve autoestima a mulheres: “A Josenice renasceu”

SER Família Mulher oferece capacitação e auxilio moradia a mulheres vítimas de violência doméstica

Yasmin Silva/MidiaNews

Josenice Militão, de 46 anos, que foi beneficiária do programa Ser Família Mulher

Josenice Militão, de 46 anos, que foi beneficiária do programa Ser Família Mulher

ANDRELINA BRAZ E LIZ BRUNETTO
DA REDAÇÃO

O peso do botão do pânico nas mãos fez a autônoma Josenice Rodrigues Militão, de 46 anos, entender o que até então negava: era vítima de violência doméstica e vivia um relacionamento abusivo.

 

Foi muito importante pra mim, porque ele me fez ver o meu potencial, me fez despertar de toda a situação que eu estava vivendo

“Eu me dei conta quando prestei queixa. Não imaginava de maneira alguma e, no final, saí com o botão do pânico”, contou ao MidiaNews

 

Por dez anos nessa relação, ela relembrou, emocionada, ter tido a autoestima minada e atribui sua permanência ao longo dos anos à falta de conhecimento. “Não sabia que estava vivendo num relacionamento tão abusivo e que isso é muito grave. Ele atingiu muito o meu psicológico e isso é o pior de tudo”, afirmou.

 

A dependência financeira foi outro fator decisivo. À época, como dona de casa e mãe de cinco filhos, Josenice se via presa à relação, muito também pela pressão da religião para se manter no casamento. “Tinha que me manter casada. Orar, jejuar, consagrar”, relembrou.

 

Foi na delegacia que a “venda” lhe caiu dos olhos, e ela pôde enxergar as portas se abrindo para um recomeço.

 

“Quando fiz o boletim de ocorrência, eles me deram muitos papéis, me instruíram, mas eu não entendi direito. Falaram para eu ir na Setasc [Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania] e lá eu fui surpreendida com o programa Ser Família Mulher”, contou.

 

A iniciativa oferece apoio a vítimas de violência doméstica por meio de auxílio-moradia e assistência psicossocial. Ganhando R$ 600 por mês durante um ano e recebendo todo o apoio do programa, Josenice redescobriu o seu potencial.

 

 

 

“Não só sair [da relação abusiva] como não retornar. Porque, muitas vezes, o ‘sair’, você sai, mas se vê numa dificuldade financeira e é quase que obrigada a voltar. E, através do auxílio, eu tive força para não retornar”, afirmou.

 

Além do benefício, que usou para se manter logo após o término, ela fez um curso de inteligência artificial e hoje se recolocou no mercado de trabalho, participando de feiras com a venda de cuscuz. Josenice diz ser hoje outra mulher, que sonha em se graduar, ter a própria empresa e conhecer o mundo: “viver a vida e ser realmente feliz”, disse.

 

“Foi maravilhoso [ser beneficiária do programa]. Eu fui muito bem acolhida. Foi muito importante pra mim, porque ele me fez ver o meu potencial, me fez despertar de toda a situação que eu estava vivendo. Que, apesar da minha idade hoje, ainda assim, há tempo e não é tarde. E eu posso avançar o quanto eu quiser. Então ele me deu oportunidade, que é o mais preciso”.

 

Victor Ostetti/MidiaNews

Judá Maali Marcondes

Judá Maali Marcondes, delegada da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM)

Josenice alertou ainda para o perigo de “aguentar mais um pouco” na relação. “Não faça isso, não. Vá na delegacia e faça um boletim de ocorrência, e você vai sair de lá perplexa. Horrorizada em ver o quanto você se permitiu ser machucada". 

 

Realidade de muitas 

 

A história de Josenice é uma entre tantas que chegam às delegacias do Estado todos os dias. Segundo a delegada Judá Maali Pinheiro Marcondes, da Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM), o número de mulheres que buscam a unidade tem aumentado nos últimos anos, evidenciando tanto o fortalecimento da rede de proteção quanto o crescimento da violência baseada na desigualdade de gênero.

 

Programas de assistência social, como o Ser Família Mulher, contribuem para a segurança financeira das vítimas e, assim, garantir condições econômicas para o rompimento do ciclo de violência.

 

De acordo com a delegada,  a violência econômica é um dos fatores centrais para a continuidade do ciclo doméstico, tendo em vista que muitas mulheres são impedidas de conquistar autonomia financeira e, consequentemente, não conseguem garantir meios de sobrevivência para si e para os filhos longe do ambiente abusivo.

 

“Em diversos atendimentos, constatamos que o agressor controla o acesso da mulher ao dinheiro, retém cartões bancários, documentos pessoais e, muitas vezes, impede, ou manipula situações para dificultar, que ela exerça atividade laboral”.

MidiaNews

Anuário 2025

Fonte: Anuário 2025 -  Análise dos atendimentos na DEDM em 2024

 

“Também são comuns práticas de desvio ou ocultação de bens para evitar a partilha patrimonial. Essa modalidade de violência compromete diretamente a autonomia da vítima e reforça o controle coercitivo”, afirmou a delegada.

 

Judá ressaltou que a violência econômica e patrimonial é apenas uma das formas de abuso, e costuma vir acompanhada de outras agressões, que podem se intensificar até atingir o estágio mais grave da violência doméstica: o feminicídio.

 

Dados de violência contra a mulher registrados no estado, divulgados pelo Anuário da Mulher referente ao ano de 2024, apontam que 17.910 medidas protetivas de urgência foram emitidas em Mato Grosso, dentre elas, 3.171 medidas foram descumpridas por agressores.

 

Quanto ao número de casos de feminicídio e homicídio, o estado registrou 99 mortes de mulheres em 2024. Dessas, 52 ocorreram dentro da residência das vítimas, evidenciando o risco elevado dentro do próprio ambiente familiar.

 

Outros crimes de violência contra a mulher também apresentaram números alarmantes ao longo de 2024: foram registrados 19.018 boletins de ocorrência por ameaça e 9.287 por lesão corporal.

 

Segundo a delegada Judá, apesar da violência afetar mulheres de diferentes contextos sociais, ela se intensifica entre mulheres negras e em situação de vulnerabilidade econômica.

 

“Há maior incidência entre aquelas em situação de vulnerabilidade socioeconômica e entre mulheres negras e pardas. A dependência financeira, a baixa escolaridade e a restrição de acesso a serviços públicos contribuem para ampliar o risco e dificultar a ruptura com o agressor”, relatou.

 

Preencher lacuna

 

A primeira-dama de Mato Grosso, Virginia Mendes, idealizadora do projeto Ser Família Mulher, explicou que a iniciativa foi desenvolvida para oferecer suporte institucional às mulheres que desejam romper o ciclo da violência, funcionando como uma rede de apoio.

 

“O programa veio preencher essa lacuna, oferecendo segurança, acolhimento e um auxílio-moradia que garante estabilidade no momento mais difícil. Ele fortalece a rede de proteção e amplia a atuação do Estado na prevenção e no enfrentamento ao feminicídio em Mato Grosso”.

 

Divulgação/Secom

Virginia Mendes

A primeira-dama de Mato Grosso, Virginia Mendes, idealizadora do projeto Ser Família Mulher

Com o intuito de acolher, capacitar e oferecer às mulheres mato-grossenses em situação de vulnerabilidade um espaço seguro e a possibilidade de retomarem sua autoestima, a primeira-dama destacou um caso emblemático atendido pela equipe.

 

“Um dos casos que mais me marcou foi o de uma mulher que, após 14 anos de agressões, conseguiu deixar o agressor graças ao programa. Ela disse que, pela primeira vez, se sentiu segura para recomeçar ao lado dos filhos”. 

 

A preocupação com os filhos é um dos fatores que mais exigem atenção no enfrentamento à violência doméstica. Dados levantados pela Setasc apontam que, desde sua criação, em agosto de 2023, 1.367 mulheres já passaram pelo programa, sendo 807 ainda acompanhadas.

 

Desse total, 98,5% têm filhos. Entre elas, 38,5% possuem dois filhos e 35,9% têm três filhos.

 

Segundo o secretário da Setasc, Klebson Gomes Haagsma, os filhos também recebem suporte por meio da estrutura do Estado, incluindo auxílio para crianças de até 12 anos destinado à compra de vestuário e materiais escolares, quando necessário.

 

“Tendo filhos que se enquadrem no Ser Família Criança, por exemplo, eles são inseridos no programa. Há todo esse atendimento e suporte da equipe em todas as cidades do Estado”.

MidiaNews

Dados Ser Família Mulher

Fonte: Setasc - Dados sobre o Programa SER Família Mulher

 

Além do auxílio-moradia e do acompanhamento às mulheres e, quando necessário, aos seus filhos, o Ser Família Mulher oferece oportunidades de capacitação profissional, permitindo que as beneficiárias retomem o controle de suas vidas e trilhem seus próprios caminhos.

 

Levantamento do programa mostra que, entre as mulheres atendidas, 42% têm ensino médio completo, 22% possuem ensino fundamental incompleto, 12,2% têm ensino médio incompleto, 2% não possuem escolaridade e 2% têm ensino superior completo.

 

Quanto à situação de trabalho, apenas 19,5% têm emprego formal com registro em carteira. Outras 19,5% são autônomas, 19,5% trabalham de forma informal e 41,5% estão desempregadas.

 

“O impacto mais profundo é a devolução da autonomia, da segurança e da esperança. O auxílio-moradia permite que a mulher saia do ambiente de violência e recomece com dignidade, enquanto o atendimento psicossocial fortalece emocionalmente e ajuda na reconstrução de sua vida”, afirmou Virginia Mendes.

 

O levantamento mostra ainda que, durante o acompanhamento, 87,8% das mulheres apresentaram evolução em relação à situação inicial. Entre os principais avanços observados estão o aumento da autonomia financeira (80,6%), o fortalecimento emocional (69,4%) e o incentivo para recomeçar (63,9%).

 

Esse também é o caso de Josenice, que, por meio de uma capacitação oferecida pelo programa, conseguiu adaptar sua rotina e trabalhar de casa, garantindo estabilidade econômica.

 

“Fiz um curso de inteligência artificial disponibilizado pelo programa. Foi algo incrível, porque não só ganhamos conhecimento, mas também adquirimos ferramentas para trabalhar de casa”, disse. 

 

Segundo a delegada Judá, programas de assistência como o Ser Família Mulher têm apresentado resultados significativos no enfrentamento à violência doméstica, contribuindo para que mais vítimas recorram às medidas protetivas.

 

“Esse tipo de política pública reduz significativamente a dependência econômica da mulher e melhora a adesão às medidas protetivas. A experiência da DEDM mostra que mulheres que recebem apoio material, como o auxílio-moradia, têm maior capacidade de manter a separação do agressor e prosseguir com o processo criminal, evitando recaídas no ciclo de violência”.

 

O secretário Klebson Haagsma ressaltou que, ao atingir o período máximo de 12 meses de benefício, a equipe da Setasc realiza uma avaliação. Caso seja constatada a necessidade, o atendimento pode ser prorrogado.

 

“A mulher pode receber o benefício durante 12 meses. Após esse período, ele pode ser renovado, depois de uma avaliação da equipe técnica, caso ela continue se enquadrando nos requisitos para ser atendida pelo Governo do Estado”.

 

Entre esses requisitos estão a comprovação da situação de violência doméstica, mediante a comprovação da emissão da medida protetiva de urgência e a vulnerabilidade socioeconômica, comprovada por renda inferior a um terço do salário mínimo per capita.

 

Jana Pessôa/Secom

secretário Klebson Haagsma

O secretário da Setasc, Klebson Gomes Haagsma, falou sobre funcionamento do programa

A beneficiária do programa Ser Família Mulher tem prioridade no Ser Família Habitação Faixa 0, modalidade em que as casas são construídas e entregues sem qualquer custo para as famílias beneficiadas. 

 

“Um dos critérios do Ser Família Habitação Faixa 0 é se a mulher é atendida pelo Ser Família Mulher e recebe esse benefício, na fase do sorteio e da disponibilização ela tem prioridade”, explicou Klebson. 

 

Segundo o secretário de Segurança, Rogério Roveri, a complexidade e a abrangência das iniciativas que incluem desde auxílio-moradia, capacitação, apoio psicossocial à possibilidade de acesso ao Ser Família Habitação, que oferece moradias subsidiadas pelo Estado, consolidam o programa como uma das maiores ações de proteção à mulher no país.

 

“Eu avalio que o Ser Família Mulher hoje é um dos maiores programas do Brasil de acolhimento à mulher. Não é apenas um auxílio financeiro para pagar aluguel; é também treinamento, assistência social, acompanhamento psicológico, tudo em parceria com as polícias e com as forças de segurança. Hoje, é um dos maiores programas de acolhimento à mulher vítima de violência do país, e acontece aqui em Mato Grosso”, afirmou Roveri.

 

 

O Governo de Mato Grosso criou, na última quinta-feira (27), o Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres. A medida, segundo o governo, busca endurecer o combate à violência contra a mulher e fortalecer a rede de proteção às vítimas no Estado.

 

Entre as ações adotadas estão a implantação, na grade curricular, do combate à violência doméstica de forma interdisciplinar no Ensino Médio das escolas estaduais, e também o aumento do auxílio do programa SER Família Mulher, de R$ 600 para R$ 800 por mês.

 

“Corrói a autoestima”

 

Para além do suporte econômico e material, equipes de assistência social e psicológica oferecem apoio às vítimas, visando a melhora da saúde mental e a recuperação da autoestima.

 

Tendo em vista que, segundo a psicóloga Natália Félix, a violência doméstica distorce a percepção que a vítima tem de si mesma e contribuem para a continuidade da violência.

 

“A violência, seja ela física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral, corrói progressivamente a autoestima da vítima e ela começa a ter uma percepção distorcida de si. Ela passa a sentir uma hipervigilância, a ansiedade e a insegurança dela aumentam. Isso não significa que ela tenha uma personalidade fraca; é a situação de violência que causa essa percepção na vítima”, afirmou.

 

Arquivo pessoal

Natália Félix, psicóloga

A psicóloga Natália Félix, que falou sobre impactos da violência doméstica na vítima

Segundo a especialista, o temor pela própria segurança e pela dos filhos, o isolamento social como estratégia do agressor para gerar dependência emocional e financeira, e a vergonha costumam estar entre as principais razões de permanência da vítima na relação.

 

“Muitas vezes, o agressor coloca a vítima em uma situação de isolamento social e ela ‘não tem para onde recorrer’. Ela já não tem mais uma rede, não tem mais a família por perto, não tem mais amigos, trabalho. Ela perde força, cria uma dependência não só emocional como financeira, o que torna mais difícil que consiga sair dessa situação”.

 

Para a psicóloga, é especialmente nesse cenário de isolamento e dependência que as políticas públicas se fazem essenciais.

 

“Por isso, esses programas de acolhimento são tão importantes. Ele é o primeiro suporte para que a vítima consiga sair dessa situação. O Ser Família, por exemplo, atua exatamente no que a mulher precisa de imediato para conseguir sair”, afirmou.

 

A assistência econômica e social foi essencial para que Josenice saísse da violência e transformasse a percepção de si. Após anos no relacionamento abusivo, ela agora se vê como uma mulher: mais forte, confiante, determinada e renascida.


“Josenice é uma mulher, hoje, forte, determinada, amorosa, companheira, ajudadora. A Josenice, hoje, se vê uma mulher incrível. Ela renasceu através de todas as dificuldades que eu passei”, finalizou Josenice.

 

Se uma mulher estiver em situação de emergência, ela pode ligar para o 190, da Polícia Militar, ou para o 193, do Corpo de Bombeiros. Uma vítima de violência doméstica também pode entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher, pelo 180, que funciona 24 horas e oferece orientação sobre a rede de proteção.

 

A vítima pode ainda procurar apoio psicossocial nos CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) do seu bairro.

 

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