O secretário de Segurança Pública de Mato Grosso, coronel César Roveri, defendeu a mudança proposta na Lei Antifacção que tramita no Congresso e que prevê dar às facções criminosas o mesmo tratamento aplicado a terroristas.

“Concordo que teria que haver essa mudança. No Brasil, não consideramos as facções criminosas como terroristas. O que seria um terrorista? Quem causa terror. Por exemplo, o que acontece no Rio de Janeiro, nas favelas: eles causam terror à comunidade. Já aconteceu aqui em Mato Grosso algumas ações que causaram terror a cidades do interior”, afirmou em entrevista ao MidiaNews.
“Acho que teríamos que ter essa evolução na legislação e classificar, sim, alguns casos como terrorismo, majorando essa pena para que esses criminosos fiquem mais tempo fora do convívio social”, completou.
Ainda na entrevista, o secretário falou também sobre pontos sensíveis à segurança pública, como o aumento no número de feminicídios mesmo antes de o ano acabar.
“Foram 47 em 2024, 46 em 2023 e, em 2021, se eu não me engano, tivemos 62 casos de feminicídio. Este ano, infelizmente, chegamos em 51 feminicídios. Este ano já emitimos mais de 14 mil medidas protetivas para mulheres que procuraram a rede de acolhimento, que não é feita somente pela Polícia Civil ou Militar”, disse.
O secretário falou também sobre a atuação na defesa das fronteiras internacionais, na coibição da ação de criminosos dentro das cadeias do Estado e muito mais.
Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):
MidiaNews - Um debate importante está ocorrendo no Congresso: a Lei Antifacção. Uma das grandes polêmicas é tratar as facções criminosas como agentes terroristas. Concorda com essa ideia e por quê?
César Roveri - Concordo que teria que haver essa mudança. No Brasil, não consideramos as facções criminosas como terroristas. O que seria um terrorista? Quem causa terror. Por exemplo, o que acontece no Rio de Janeiro, nas favelas: eles causam terror à comunidade. Já aconteceu aqui em Mato Grosso algumas ações que causaram terror a cidades do interior. E sim, acho que teríamos que ter essa evolução na legislação e classificar, sim, alguns casos como terrorismo, majorando essa pena para que esses criminosos fiquem mais tempo fora do convívio social.
Se você perguntar para mim: “Ah, ele foi classificado como terrorista e ficou 30, 40 anos preso. Isso resolveu?” Em 40 anos, ele não vai cometer mais nenhum crime. Ele não vai matar mais um pai de família, não vai assassinar mais uma mãe de família, não vai matar o filho de ninguém, o irmão de ninguém. Então, sim, com certeza, uma pena majorada — nós temos a convicção — vai tirar esse criminoso do seio social por três, quatro décadas para que ele não cometa mais um crime.
MidiaNews - MT é o 7º Estado mais violento do Brasil, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. O Programa Tolerância Zero completou um ano. Há, de fato, o que comemorar? O programa conseguiu frear os índices de violência?
César Roveri - Faremos uma coletiva, junto ao governador Mauro Mendes, em breve, trazendo dados que vão desde o lançamento do Programa Tolerância Zero contra as facções criminosas. O Anuário de Segurança Pública, o Fórum de Segurança Pública, faz publicações sobre os dados de anos anteriores. Temos um Observatório de Segurança com dados mais atualizados, que mostram essa melhora na segurança do Estado, principalmente com a implantação do programa.
Temos o Programa Tolerância Zero às invasões de terra, lançado em 2023, em que temos 100% de eficiência. De lá para cá, foram 61 invasões: no primeiro ano, 29; no outro ano, 17; e as outras, em 2025. Nenhuma delas prosperou, nenhuma atingiu as primeiras 24 horas. O Estado foi lá e fez a defesa, a garantia da propriedade do pequeno, médio e grande produtor.
Temos outro grande programa lançado em 2023, em que a primeira cidade do Estado a ter o Vigia Mais Mato Grosso foi Vila Bela da Santíssima Trindade, a primeira capital do Estado. De lá para cá, esse programa tem crescido muito. Já estamos em 129 dos 142 municípios. Em parceria com a Secretaria de Educação (Seduc), temos câmeras nas escolas estaduais em todo o Estado, atingindo mais de 18 mil já instaladas. É um programa que vem dando bastante certo. Muitos crimes foram desvendados de forma técnica, através da Polícia Judiciária e Civil, com perícia da Polícia Científica, a Politec, para que possamos entregar à Justiça. O Vigia vem não somente na prevenção e solução de crimes, mas em uma série de outras aplicações.
MidiaNews - Poderia citar algum crime marcante que tenha sido solucionado com o auxílio do Programa Vigia Mais MT?
César Roveri - Tem vários. Um que teve muita repercussão foi aquele assassinato no Shopping Popular, conhecido como Shopping dos Camelôs, aqui em Cuiabá. O criminoso foi contratado para assassinar uma pessoa; ele atirou nessa pessoa, transfixou e matou um inocente que estava atrás. As nossas câmeras pegaram o rosto do assassino. Para vocês terem uma ideia da complexidade desse crime, quem encomendou o crime era de Campo Grande, o criminoso era do interior de Minas e a vítima, aqui de Cuiabá. Uma pessoa que já estava há duas décadas no mundo do crime e não tinha sequer multa de trânsito, não tinha uma passagem. Foi um crime bem complexo e as câmeras do Vigia Mais, com certeza, colaboraram para a identificação e prisão desse criminoso.
MidiaNews - O Governo irá chamar profissionais concursados para reforçar a segurança pública?
César Roveri - Em 2019, quando o governador Mauro Mendes assumiu o Estado, tínhamos viaturas que não rodavam por falta de combustível, salários atrasados, décimo terceiro não pago, fornecedores há seis, sete meses sem receber. Tinha municípios em que o repasse obrigatório da Saúde batia de 10 a 11 meses de atraso. Olha a força que teve que ser feita pelo Governo, pelo Executivo, com o apoio da Assembleia Legislativa; muitos parceiros ajudaram. O Governo fez esse esforço, recuperou o Estado e aí começaram as contratações. De lá para cá, já contratamos 3 mil servidores da Segurança Pública, isso de todas as instituições. Para executar as políticas de segurança, precisamos de material humano e há uma previsão para o ano que vem de haver um chamamento; isso será apresentado em janeiro para o governador.
MidiaNews - Mas qual a sua avaliação atual sobre o efetivo? É suficiente para combater o crime organizado e outros crimes no Estado?
César Roveri - Essa pergunta sempre nos é feita, e se você pegar qualquer Estado do Brasil, não existe nenhum com efetivo suficiente. Tem que ver a capacidade que o Estado tem para pagar e fazer essas contratações. Nós temos um estudo em andamento para que possamos fazer chamamentos no início de 2026.
MidiaNews - Que tipo de ação efetiva o Estado tem feito para interromper o tráfico de drogas, o contrabando de armas e de veículos na fronteira do Brasil com a Bolívia?
César Roveri - Nós temos uma ação integrada muito grande. Obviamente, isso é liderado pelo Gefron, que é o nosso grupo especial de fronteiras. Este ano, o Gefron já atingiu mais de 19 toneladas de apreensão de pasta-base de cocaína e cocaína. Saímos de pouco mais de 3 toneladas em 2014 e 2015 para 19, e isso apenas do Gefron.
Se nós formos pegar a apreensão de drogas em todo Mato Grosso, já passamos da casa de 41 mil quilos em 2025. Ano passado, também passamos da casa de 41 mil quilos. Ainda faltam 40 dias para terminar o ano. Devemos bater o ano passado e ainda avançar mais nesse número de apreensões. Isso é feito em parceria com a Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, com as nossas forças de segurança, nos comandos regionais. É uma integração forte do Gefron com as forças estaduais e federais e um trabalho importantíssimo na fronteira, onde inclusive o Vigia Mais Mato Grosso é muito utilizado, com inteligência artificial, com as câmeras de segurança, para que possamos traçar rotas de entrada, saída e desvios de rotas.
Só no Gefron, o Governo investe por ano mais de R$ 20 milhões para cuidar da fronteira. Essa obrigação das fronteiras internacionais é do Governo Federal, não dos Estados. Porém, aqui em Mato Grosso, não ficamos de braços cruzados. O governador Mauro Mendes nos determina que cuidemos das nossas fronteiras, porque essa passagem do narcotráfico internacional traz muitas mazelas junto. Estamos fazendo a defesa da fronteira de Mato Grosso e, obviamente, com isso defendendo a fronteira do Brasil também.
MidiaNews - Mato Grosso é, pelo segundo ano seguido, o Estado com maior ocorrência de casos de feminicídios. Foram 51 casos este ano e 47 no ano passado, segundo dados oficiais. O que estaria por trás dessa trágica estatística?
César Roveri - Foram 47 em 2024, 46 em 2023 e, em 2021, se eu não me engano, tivemos 62 casos de feminicídio. Este ano, infelizmente, chegamos em 51 feminicídios. Este ano já emitimos mais de 14 mil medidas protetivas para mulheres que procuraram a rede de acolhimento, que não é feita somente pela Polícia Civil ou Militar. É uma rede de acolhimento, onde a Setasc (Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania) faz parte, com vários programas — o Ser Família Mulher, o Ser Família Capacita, para dar condição dessa mulher fazer um curso e sair do ciclo de violência.
Temos o aluguel pago para essa mulher ter um auxílio e poder sair do ciclo de violência. Dessas mais de 14 mil medidas protetivas em 2025, apenas 5 mulheres [dos casos de feminicídio] tinham protetivas. Isso demonstra o quanto a nossa rede de acolhimento, do Poder Executivo e Forças de Segurança, estão trabalhando, porque mais de 14 mil mulheres foram protegidas. Mato Grosso é o oitavo Estado do País que mais emite medidas protetivas.
Não tem um motivo específico. Isso vem desde a educação familiar e escolar. Mais de 80% dos feminicídios acontecem dentro das residências, como no caso que vimos do covarde em Guarantã do Norte: ele assassinou a mulher e depois tirou a própria vida. São crimes que acontecem, em sua grande maioria, infelizmente, dentro do ambiente residencial. Cerca de 10% acontecem dentro de veículos. Estamos falando de praticamente 90% que não acontecem em vias públicas, em ambientes em que qualquer outra pessoa possa intervir ou acionar as Forças de Segurança. É também uma questão social, não apenas de segurança pública. É um trabalho do qual a própria sociedade tem que fazer parte.
MidiaNews - E o senhor acredita que existe alguma deficiência no trabalho que tem sido feito? O que pode ser feito para tentar reduzir esses índices?
César Roveri - Pode ser um trabalho conjunto com a própria sociedade. Por exemplo, se você ouvir um vizinho, um familiar, perceber que aquela mulher está sendo vítima de violência — porque é um ciclo, não inicia do zero e passa para o feminicídio; tem início com certos tipos de agressões e vai evoluindo até chegar ao feminicídio, quando o homem decide fazer essa ação covarde e criminosa. Acho que a sociedade pode participar denunciando, informando, levando uma filha, uma irmã, uma mãe até as Forças de Segurança para que possamos emitir a protetiva.
Com essa protetiva emitida, temos as visitas da Patrulha Maria da Penha, o acompanhamento da Polícia Judiciária Civil, o acompanhamento dessa grande rede de proteção e acolhimento que citamos. Então, busque ajuda, denuncie, para que o Estado possa fazer a proteção dessa mulher. É um chamamento que fazemos. Ano passado, tivemos 17.910 medidas protetivas emitidas e poucas mulheres dessas 47 foram vítimas de feminicídio; protegemos quase 18 mil mulheres.

MidiaNews - O senhor falou de uma estrutura organizada. Acredita que esse trabalho precisa ser feito lá na “ponta” das delegacias e da rede de proteção?
César Roveri - Esse trabalho tem que ser feito, e já está sendo feito, nas escolas; tem que ser feito também na família, na criação. Porque, quando o menino não agride ou não xinga uma coleguinha, quando a coleguinha não aceita que o amiguinho a xingue ou a agrida, parte desde o início, para que não tenhamos adultos que se agridam, quebrando esse ciclo de violência.
É claro, uma legislação forte ajuda. A senadora Margareth Buzetti passou para 40 anos a pena de feminicídio. Acho que alguns desses covardes ainda não entenderam isso. Porque 100% dos criminosos que cometeram feminicídio foram identificados e presos em Mato Grosso. Isso mostra que, se você matar uma mulher, se cometer um feminicídio, vai ser preso e levado para julgamento.
MidiaNews - O senhor concorda que a Segurança Pública é o principal problema e desafio hoje do Governo do Estado?
César Roveri - Não acho que seja o principal problema. O governo Mauro Mendes vem trabalhando muito forte na Segurança. Estamos falando de mais de 15 mil pistolas Glock; cada policial hoje tem uma arma individual. Temos fuzis entregues em todos os municípios e distritos, nos locais mais distantes do Estado. Coletes balísticos, viaturas, reformas e construção de unidades novas, seja da Polícia Civil, da Militar, do Corpo de Bombeiros.
Com o Corpo de Bombeiros estamos fazendo uma expansão como nunca vista antes no Estado. Vamos inaugurar 12 unidades em cidades que não tinham esse serviço. Nós temos um avanço muito grande da segurança em várias áreas. Temos unidades da Politec inauguradas em municípios do interior que antes não tinham esse serviço. Sobre a questão das viaturas que não rodavam porque não tinham combustível, pela incompetência do governo que deixou o Estado quebrar, tínhamos cerca de 600 viaturas rodando em todo o Estado. Hoje, temos cerca de 2,9 mil viaturas rodando e não falta combustível. Aumentamos essa camada de proteção da sociedade em todo o Estado, e não somente na Baixada Cuiabana.
MidiaNews - Mas é um desafio.
César Roveri - A segurança é, sim, um desafio para qualquer Estado. As facções criminosas são um desafio para qualquer Estado no Brasil. As facções nascem nos grandes centros, dentro dos presídios, das unidades penitenciárias e vão se alastrando por todo o país. Não tem um Estado hoje que não tenha. Nós assistimos no final de semana que há uma facção criminosa da Venezuela adentrando o Brasil, vindo para cá. Agora estamos importando criminosos, com as fronteiras abertas. Como disse, a fronteira internacional é uma obrigação do Governo Federal. Mas, aqui em Mato Grosso, fazemos a defesa com o Gefron. E nem todos os Estados conseguem fazer isso ao mesmo tempo. A Segurança Pública é um desafio e acho que vai ser uma grande temática das eleições de 2026, para todos os governos — tanto para o Governo Federal quanto para os estaduais.
Acho a segurança pública uma pauta importantíssima, porque sem ela não há investimento, não há crescimento de cidades. Aqui em Mato Grosso não existe um local em que as forças de segurança não entrem e não façam a proteção do cidadão.
MidiaNews - Os homicídios em Mato Grosso caíram 17% no primeiro semestre deste ano (de 393 casos para 327), segundo a própria Secretaria de Segurança, em relação ao primeiro semestre, quando o governador assumiu em 2019. Isso pode ser reduzido ainda mais? O que é necessário para avançar?
César Roveri - Este ano, com o programa Tolerância Zero, dado até o final de novembro, em relação ao mesmo período do ano passado, reduzimos em 25% o número de homicídios no Estado. É uma redução bem significativa desde o lançamento. Tivemos a criação da Sejus (Secretaria de Estado de Justiça), uma equipe, um secretário, um corpo técnico, especialmente para cuidar do sistema penitenciário e socioeducativo dos menores infratores. Do lado de cá, na Segurança Pública, fazemos muitas operações integradas.
A Polícia Civil, no ano passado, desenvolveu cerca de 190 operações específicas contra facções criminosas. Este ano, já passamos de 260 operações específicas contra as facções. Há uma semana foi recuperado R$ 5 milhões de golpes de sites falsos. Em Sinop, esta semana, tivemos uma grande operação contra faccionados praticando crimes por telefone. Tivemos prisões, recuperações de ativos. Isso mostra que o programa vem no caminho certo. Aliado a isso, tivemos operações integradas com a Polícia Militar. Em São José do Rio Claro, tivemos uma mancha vermelha (área de crimes) e já colocamos lá a Rotam, a Cavalaria, a Força Tática para fazer o policiamento e ocupar aquela cidade. Em qualquer local do Estado que tenhamos identificado alguma alteração, empregamos uma força policial para retornar a normalidade ao convívio dos cidadãos.
MidiaNews - O Governo costuma dizer que precisa de leis mais rígidas, mas que tipo de políticas públicas o Estado deixou de implementar e precisa ampliar imediatamente?
César Roveri - Mato Grosso tem feito o seu dever de casa. Nós falamos de vários programas que lançamos e que não existiam em governos passados, até porque não tinha condição de ter; as viaturas nem rodavam, o Estado estava quebrado, falido, e houve essa recuperação fiscal. Acho que a gente não pode ter uma memória seletiva. Tem que lembrar das coisas que realmente aconteceram. E temos feito vários programas, ações, ocupando as cidades, fazendo policiamento, fazendo intervenções. Mas concordo com o governador: temos que ter algumas alterações na legislação. Por exemplo, tivemos na região da fronteira um traficante preso com mais de 300 kg de droga que foi solto na audiência de custódia. Então, é complicado.
Tem que ter uma legislação mais rígida para que o juiz e o Judiciário tenham condições de aplicar a lei e fazer o enfrentamento junto com as forças de segurança, porque o sistema de justiça é um todo. Não é só a força policial, não é só a Justiça ou o Ministério Público sozinho. São todas as engrenagens funcionando juntas. Com certeza, uma legislação mais rígida vai dar mais capacidade para a força de segurança acabar com esse conhecido “prende e solta”. A culpa não é da Justiça, ela tem suas limitações com a legislação frágil na hora da aplicação da lei penal.
MidiaNews - Como acabar com isso?
César Roveri - Podemos quebrar a cadeia criminosa de roubo e furto pegando a pena do receptador e jogando para 40, 50 anos. Se não tenho para quem vender, vou roubar e furtar para vender para quem? Eu quebro a cadeia do crime. Isso é apenas um dos exemplos.
Tem uma série de reformas que devemos fazer e claro que isso passa por legislação federal, não é o Governo do Estado que trata disso. A legislação tem que ser mudada lá no Congresso, tem que ser mudada na Câmara Federal, no Senado Federal, para que a gente possa ajudar os Estados. O Estado vai até onde as suas forças permitem e tenho certeza de que uma grande reforma do Código Penal e do Código de Processo Penal pode ajudar as forças de segurança estaduais a desempenharem a proteção de todos os Estados do Brasil.
MidiaNews - As comunidades mais vulneráveis são terreno fértil para o recrutamento de facções. Acredita que o Estado deve priorizar mais investimentos em prevenção social, educação e reestruturação para evitar esse recrutamento?
César Roveri - Segurança pública e políticas públicas não são só Polícia. É lógico que, tendo uma educação melhor, mais empregos, e uma série de acessos a serviços públicos — e aí não é só questão de Mato Grosso, são todos os Estados —, você aumenta a capacidade da sociedade de ter uma convivência melhor. Quando a gente fala de segurança pública, é uma condição social como um todo também. Não é apenas serviço de polícia. E é claro que o serviço de polícia é muito importante, porque é aquele momento em que o cidadão precisa, é o momento da emergência, quando deu um problema. A primeira coisa que o cidadão vai lembrar: 190, 193, 197, os canais de comunicação com a segurança para ajudá-lo no momento de socorro. Mas é claro que, tendo uma sociedade com uma condição social melhor, tende a diminuir a cooptação de crianças, adolescentes e jovens para o mundo do crime.

MidiaNews - Há muitas críticas de que Mato Grosso investe muito em repressão, mas pouco em prevenção. Reconhece que essa estratégia está esgotada?
César Roveri - Nós investimos muito em prevenção. O que a Polícia Militar faz todos os dias é policiamento ostensivo preventivo. Todos os dias, em todos os municípios de Mato Grosso, temos a Polícia Militar fazendo a prevenção ao crime. O programa Vigia Mais Mato Grosso ajuda na prevenção ao crime. Então, temos diversos programas e instituições fazendo a prevenção.
Agora é óbvio que tem que ter a repressão, não tem como você trabalhar, no momento em que há o cometimento de um crime, sem repressão. Já passou a fase da prevenção, vai ter a repressão. Isso é feito não somente aqui em Mato Grosso, mas em todo o mundo: você tem o trabalho preventivo e o repressivo.
MidiaNews - Que políticas o Governo pode desenvolver para evitar a atuação das facções criminosas de dentro das cadeias do Estado?
César Roveri - Nós adotamos uma nova secretaria, a Sejus, e tivemos muitas operações tirando celulares de dentro dos presídios e praticamente acabando com o “home office do crime” — aquele escritório do crime dentro dos presídios. É algo que precisa ser enfrentado de frente e temos operações que impedem não somente celulares, mas qualquer outro tipo de ilícito que entra, às vezes até mesmo entorpecente, entrando nas unidades para servir de comércio. Nós temos uma política pública bem estabelecida, temos uma secretaria que cuida dessa parte e que está fazendo o trabalho de forma eficiente. Essa é uma equação que está sendo resolvida.
MidiaNews - A estratégia de mirar a descapitalização das organizações criminosas é a melhor política pública de prevenção na segurança pública e combate a essas organizações? Isso tem dado certo?
César Roveri - Quando a gente fala em 19 toneladas de cocaína apreendida, estamos falando de mais de meio bilhão de reais que foram descapitalizados do crime. Olha o quanto esse dinheiro poderia ter sido empregado pelas facções criminosas. E isso estou falando apenas das 19 toneladas apreendidas pelo Gefron.
Essa é uma das estratégias. Ela não é só prevenção; também é repressão, porque você vai lá, descapitaliza o crime e quebra essa cadeia criminosa. Essa é uma das estratégias, aliada a todas as outras que falamos aqui até agora, que têm sido implementadas em Mato Grosso. Estamos vendo que outros Estados também têm adotado essa estratégia de combate às facções.
MidiaNews - Na última semana, a Justiça concedeu a progressão ao regime semiaberto a Renildo Rios, um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso. O juiz Geraldo Fidelis disse que o Estado não conseguiu comprovar que ele continua atuante na facção. A Secretaria de Segurança discorda da avaliação do juiz de que não há provas da atuação de Renildo Rios?
César Roveri - Eu não vou comentar a decisão judicial, porque não conheço o processo. O que conheço é que temos, sim, lideranças de facções criminosas aqui em Mato Grosso e que toda vez que o Estado identificar qualquer tipo de cometimento de crime, vamos lá e vamos agir.
Se foi falta de provas, foi de prova testemunhal? De prova técnica? Do que estamos falando? O fato é que esse faccionado, se vier a cometer qualquer crime aqui fora novamente, com certeza as forças de segurança vão agir.
MidiaNews - Nessa questão do "prende e solta" que o senhor mecionou, o que precisa melhorar para que esse ciclo se encerre?
César Roveri - Temos, sim, vários faccionados presos no nosso sistema penitenciário. Uma dessas lideranças está presa praticamente há 30 anos [Sandro Louco] — esse sim foi um dos fundadores dessa facção criminosa aqui em Mato Grosso — e continua preso. Então, temos processos, procedimentos e informações que são feitas através dos inquéritos policiais que mantêm esses faccionados presos.
Acho que há uma parceria muito grande da Justiça com a Segurança Pública e, em um ou outro caso concreto, obviamente tem que conhecer um pouco mais a fundo para poder fazer uma observação mais aprofundada.
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