Cuiabá, Quinta-Feira, 25 de Abril de 2019
PRECONCEITO
16.02.2019 | 19h40 Tamanho do texto A- A+

"A homossexualidade é sadia; não há cura se não existe doença"

Pesquisadora defende discussão de gênero e aponta risco no avanço da extrema-direita no Brasil

Lislaine dos Anjos/MidiaNews

A ativista Bruna Irineu realiza pesquisas no campo LGBT desde 2004

BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO

Até 1973, a homossexualidade era considerada um transtorno de personalidade. No entanto, ainda hoje, parcelas da sociedade defendem essa ideia. Contrária a esse conceito, a presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH), Bruna Andrade Irineu, explica que a homossexualidade é apenas uma característica da personalidade humana.

 

Em entrevista ao MidiaNews, Bruna, que também é professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), alerta que este tema pode ser cercado por julgamentos e preconceitos, levando até mesmo à defesa da “cura gay”, que é a tentativa da conversão do desejo.

 

“A homossexualidade é uma orientação sexual como é a heterossexualidade, como a bissexualidade. É passível, sadia e legítima no campo do desejo. Não há cura para o que não é doença”, afirma.

 

Aos 33 anos, Bruna acompanha o movimento LGBT como agente político e pesquisadora desde 2004 e afirma que a conversão da orientação sexual é de extrema violência e desrespeito à identidade das pessoas. Essa prática, que, segundo ela, já foi abandonada por vários países europeus deixou marcas drásticas na sociedade.

Qualquer tratamento violento de alteração e transformação de algo que não se transforma é nada mais do que uma carnificina, um não reconhecimento da humanidade do outro

 

“Qualquer terapia de conversão de qualquer coisa é um risco para a vida, para a subjetividade de qualquer pessoa, haja visto o recente retrocesso em relação ao retorno dos manicômios. Qualquer tratamento violento de alteração e transformação de algo que não se transforma é nada mais do que uma carnificina, um não reconhecimento da humanidade do outro”, critica.

 

A professora associa o retorno das terapias de conversão ao avanço da extrema-direita no Brasil.

 

Durante a entrevista, Bruna - que já trabalhou com levantamento de violência, mapeamento de violência na escola e com formação e capacitação de distintos agentes e profissionais das políticas públicas - ainda falou sobre as conquistas do movimento LGBT, a importância da luta pelos direitos do segmento e as experiências com o preconceito em relação à sua homossexualidade. 

 

Leia os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - A senhora acredita que a população LGBT é, hoje, a mais vulnerável ao preconceito?

 

Bruna Irineu - Eu não gosto muito de trabalhar com hierarquias. Eu penso que a população LGBT, assim como as mulheres, como a população negra, a população indígena, os quilombolas, todos sofrem com as mais distintas formas de violência, de não reconhecimento do direito, de discriminação. Muitas vezes nós não somos tocados por uma identidade única e exclusiva. Às vezes você é uma travesti, negra, pobre, da periferia. Às vezes, você é uma mulher, branca, lésbica. Você é conectado por distintas identidades, que a gente chama de marcadores sociais da diferença, que vão constituir a sua identidade. A identidade tem uma pluralidade. Então, pensar hierarquias de violência exige que a gente pense gênero, raça, etnia, classe social, a relação com o corpo, por exemplo, a situação de pessoas com deficiência. Tem uma série de marcadores que vão dizer quão mais vulnerável, quão mais à margem você está do ponto de vista do reconhecimento dos direitos. Sem pensar alteridade, sem pensar empatia, você não consegue pensar o quão dolorido é sofrer o racismo, a homofobia, transfobia, você não ter o direito ao seu território - pensando na população indígena e quilombola.

 

Hoje, mais do que nunca, especialmente pós-governo PT, a gente tem a certeza de que, embora nós tenhamos conquistado algumas coisas e avançado, esses avanços ainda são muito frágeis, já que não são, do ponto de vista jurídico, legais. E mesmo esses avanços que ocorreram na legislação, a conjuntura que a gente vive hoje mostra para nós que os direitos são construídos socialmente e eles têm que ser defendidos constantemente. A Angela Davis, que é uma feminista negra importante, diz para nós que a liberdade é uma luta constante. Não tem direito garantido. Lutar por direitos é lutar constantemente. A conjuntura que a gente vive hoje mostra que, mais do que nunca, nós precisamos estar em aliança. Judith Butler, que também é uma filósofa importante e sofreu uma represália muito grande há dois anos no Brasil, publicou recentemente um livro que vai nos chamar a atenção para a necessidade da aliança. Pensar tudo isso é pensar que a aliança é necessária, porque em tão poucos dias de governo, e mesmo no governo [Michel] Temer, você tem 10 anos de luta para conseguir algo pontual e que é devastado em 100 dias.

 

 

MidiaNews - A senhora acha, então, que o governo Bolsonaro pode representar um retrocesso nas conquistas dos LGBT?

 

Bruna Irineu - Antes de ele ser eleito, ele já é um retrocesso. Este ator político é um opositor dos direitos LGBT, dos direitos das mulheres, dos indígenas, da população negra, quilombola, desde meados dos anos 2000. Ele é um dos grandes lobistas dos anos 2000 contra a votação da criminalização da homofobia no Legislativo e a gente tem que recorrer ao Judiciário - essa semana votando a ação de omissão. A sua eleição só demonstra o quanto essa agenda tem hoje um domínio na sociedade, que coloca para nós um risco iminente e mais duro de retrocesso de uma agenda que avançou, embora timidamente e frágil do ponto de vista jurídico e orçamentário, mas avançou no sentido de colocar esse tema na agenda política. Não significa que há um reconhecimento jurídico disso. E não avança porque esse movimento conservador também fez parte desse momento político dos anos 2000, da agenda PT, na tentativa que o PT desenvolve de conciliação de sujeitos tão antagônicos. Uma tentativa de conciliar, por exemplo, o [ex-senador] Magno Malta com o ativismo LGBT, porque ele fez parte da base do Governo PT. Assim como Jair Bolsonaro fez parte dos dois governos Lula e do primeiro governo Dilma. Bolsonaro votou em todas as pautas do PT durante todo esse tempo.

Sem pensar alteridade, sem pensar empatia, você não consegue pensar o quão dolorido é sofrer o racismo, a homofobia, transfobia, você não ter o direito ao seu território

 

Houve uma tentativa de conciliar as agendas também, que precisa ser avaliada não no sentido de culpabilizar o PT, mas no sentido de avaliar a conciliação como uma estratégia que não é suficiente para fazer as mudanças e as transformações necessárias para a garantia de um debate, de fato, pelos direitos sexuais reprodutivos, pelo reconhecimento dos povos originários e outros temas que nos são muito caros e que, em poucos dias de governo, já demonstram que não é só um risco a mais, é uma realidade, um retrocesso.

 

MidiaNews - Em setembro de 2018, a Lei 13.718 foi sancionada e aumentou a pena para o “estupro corretivo”, aquele com o intuito punitivo, feito para controlar o comportamento social ou sexual da vítima. Qual a importância desse ato?

 

Bruna Irineu - A legislação anda conforme a pressão dos movimentos sociais. A pressão do ativismo faz com que legisladores e o Judiciário tenham que alterar documentos oficiais. Sem dúvida, é importante um reconhecimento dessa violência de forma distinta de outras violências, que são constituídas de outras maneiras e com outras motivações. Mas é preciso a gente pensar que as mudanças têm que ser maiores que a lei. As mudanças precisam ser culturais. As mudanças precisam partir da escola, da relação com a família. E pensar que muitas vezes pais, irmãos, acionam outros homens, como amigos, a cometerem uma violência contra garotas lésbicas para reiterar aquela frase tão violenta de que uma mulher só é lésbica porque ela ainda não conheceu um bom homem. É algo extremamente violento e que a reparação legal é insuficiente se a gente analisar o impacto que isso tem na subjetividade de uma mulher atingida por essa violência.

 

A mudança precisa ser cultural. Não adianta a gente ter só a frente da lei. Nós precisamos que a escola entenda que ela precisa trabalhar no combate ao sexismo e homofobia. Pensar essas questões é pensar que a educação tem um lugar central na mudança da cultura. A lei é uma sanção a posteriori. Não dá para discutir legislação no Brasil sem lembrar que o Brasil é um país que, a cada legislação que aprova, amplia o estado penal. Há um punitivismo racista na forma como o Estado brasileiro se constitui. A depender de quem comete esse crime, paga-se fiança ou cumpre-se um determinado tempo da pena e vai embora, principalmente se forem homens brancos de alto poder aquisitivo. Quando você trata de homens negros, a punição se dá de outra relação porque a relação de aprisionamento, de encarceramento, no Brasil, é uma relação de raça e classe social. A aplicabilidade de uma lei também é bastante questionável. Nós temos que tomar cuidado quando a gente traz uma pauta de punição porque o Brasil tende a punir, com maior ênfase, a população negra, os jovens negros.

 

 

MidiaNews - Recentemente, em Cuiabá, foi noticiado o caso em que uma atendente de restaurante de um shopping foi assediada e humilhada por um cliente, que dizia que a faria “virar mulher”. Há muitos relatos desse tipo de situação? A senhora já passou por isso?

 

Bruna Irineu - O Dossiê do Lesbocídio saiu no ano passado. Um grupo de pesquisadoras lésbicas do Rio de Janeiro coordenou esse dossiê. Ele traz para a gente o quão recorrente essas denúncias e quão a relação de classe social e raça do sujeito que está cometendo a violência vai impactar na forma como se reage a essa violência. Se é uma garota que está em uma relação de trabalho e ela é assediada por um cliente, o impacto é distinto. Depende também de quem é a garota. Se é uma garota de classe média, classe média alta, a reação é diferente. Se é uma garota negra, da periferia, é uma relação diferente. Se é uma servidora pública, é uma reação diferente. O fato é que, independente da classe e da raça, as mulheres são acometidas por essa violência. O desdobrar do fato é que vai tomar caminhos distintos. É muito comum esse tipo de denúncia para a gente que é do ativismo e para a gente que se assume como lésbica nos espaços.

 

Já passei por algumas situações que não foram levadas a um contato físico. Mas alguém que te aciona na rua, abre o vidro, te vê de mãos dadas com a sua namorada e grita: "Eu vou fazer você virar mulher”. Ou então você está sentada em um bar, em um momento de lazer, e você vê um incômodo. Aí, você sai para o banheiro e a pessoa te segue até o banheiro para poder te dizer que você e sua namorada são lindas - que é a relação do fetiche que se tem quando se trata de casais de lésbicas - e fala: “Posso levar vocês duas para casa?”. São situações de extrema violência e que, a depender da faixa etária, da classe social da pessoa, pode imbricar em uma fatalidade, uma violência física, em um estupro corretivo e, mais ainda, na violência letal, em um assassinato.

 

 

MidiaNews - Ainda é grande a resistência das vítimas em registrar casos de preconceito?

 

Bruna Irineu - As denúncias, seja ela um quadro de violência contra a mulher em uma relação heterossexual ou um quadro de violência como o estupro corretivo, nem sempre são acolhidas de uma forma ideal pelos espaços institucionais. Isso mostra que a gente tem muito a melhorar enquanto instituição. A gente tem muito a formar, a capacitar e avançar como humanidade. As pessoas têm dificuldades de acionar essa via institucional oficial e, muitas vezes, elas trazem a denúncia para esse corpo coletivo que é o grupo, que é o coletivo de militância. Essa voz se dissolve ali, sai do campo individual e ganha um corpo coletivo. A pessoa se sente mais protegida.

 

Você é violentado, vai fazer denúncia e volta mais violentado ainda. Por isso a mudança tem que ser cultural

Em grande medida, a gente tem avançado muito no processo de constituir a denúncia. Então os dados da Secretaria de Direitos Humanos, da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos, mostram que, com os anos, a população LGBT também vem entendendo que deve fazer a denúncia, mas ainda é recorrente a dupla violência. Você é violentado, vai fazer denúncia e volta mais violentado ainda. Por isso a mudança tem que ser cultural.

 

MidiaNews - A sociedade tem mais facilidade para aceitar a homossexualidade masculina do que a feminina?

 

Bruna Irineu - O fato das lésbicas serem mulheres coloca elas em uma condição de violência que qualquer mulher também está suscetível. Não dá para dizer que o estupro corretivo acomete mais os gays que as lésbicas. Trata-se de uma violência mais vinculada à trajetória das mulheres, assim como o estupro em si. Mas ao mesmo tempo, os homens gays, especialmente quando têm uma expressão de gênero que escapa esse masculino hegemônico, também são vulneráveis, estão suscetíveis a formas de violências nas ruas tão grandes quanto o estupro corretivo.

 

As violências na rua, quando se trata da população LGBT, têm muita relação com a expressão de gênero. Se eu sou uma lésbica que não “pareço lésbica”, eu tenho uma passibilidade, eu passo com tranquilidade em algumas situações, mas continuo sendo mulher, então continuo correndo risco por ser mulher. Quando sou um gay masculino, que tem certa expressão de gênero que me coloca em uma condição de passibilidade, a violência também vai se dar em uma outra dinâmica. Mas quando eu sou um gay afeminado, que tem uma expressão de gênero contra-hegemônico, eu tenho uma maior chance de sofrer na rua qualquer violência simplesmente porque estou andando. A forma como esse corpo se anuncia nas ruas incomoda a masculinidade estabelecida. Isso é explícito na forma como os gays são assassinados, como os corpos são encontrados. É com destruição da face, decapitação, amputação do órgão genital, mostra um ódio muito grande.

 

Não posso dizer que os gays são mais aceitos ou as lésbicas são mais aceitas. As pessoas transexuais e travestis estão em uma relação de violência muito forte também, mas acho que é irresponsável afirmar que um grupo é mais ou menos. Mas ninguém está protegido, ninguém está imune a essas violências. Hoje os gays têm um espaço na mídia um pouco mais visível do que as lésbicas, se você pensar nas novelas, programas. Embora nós tenhamos muitas cantoras da MPB que tenham "saído do armário", como a Daniela Mercury. Mas isso é muito ínfimo ainda frente às violências cotidianas da população que não tem a classe social das pessoas que estão na TV.

 

 

MidiaNews - Qual a importância da existência do movimento LGBT? Qual o impacto disso na sociedade?

 

Bruna Irineu - Os movimentos sociais surgem pela necessidade de mudança de uma determinada realidade, qualquer que seja esse movimento social, qualquer que seja esse ativismo. O movimento LGBT no Brasil vai surgir de maneira organizada no final da década de 1970, por volta do período de reabertura política no final da ditadura militar. Ele surge pela necessidade de se politizar as sexualidades não hegemônicas. Surge com o nome de movimento homossexual. Com o decorrer da década de 80, início dos anos 90, a identidade homossexual não contemplava mais todos os grupos envolvidos nesse ativismo. Então as travestis e as transexuais vão requerer o conhecimento da sua identidade, assim como as lésbicas não vão mais se reconhecer dentro do termo gay.

 

A forma como esse corpo se anuncia nas ruas incomoda a masculinidade estabelecida. Isso é explícito na forma como os gays são assassinados, como os corpos são encontrados. É com destruição da face, decapitação, amputação do órgão genital, mostra um ódio muito grande

Com o tempo, o movimento vai ganhando outras siglas e tomando outro nome na medida em que as demandas também vão se diversificando. O movimento LGBT tem relevância, especialmente nos avanços que nós temos nos debates dos direitos sexuais e no campo do direito à família, a uma educação laica. São pautas que o movimento LGBT foi, ao longo do tempo, trazendo e discutindo em um enfrentamento com o Estado. A pauta do HIV/Aids nos anos 80 é muito cara para o movimento. Ele ganha força. Apesar de ser uma pauta de dor, de luto, é uma pauta importante para que a gente pudesse, no Brasil, ter o melhor e o mais completo programa de enfrentamento a epidemia do HIV/Aids. Hoje, ameaçado pelo atual governo.

 

MidiaNews - De que forma o movimento trabalha para ter os direitos reconhecidos?

 

Bruna Irineu - Os ativismos, de modo geral, vão conectar frentes diferentes de atuação. Tem grupos que vão trabalhar com lobby, que é ir até os parlamentares, ir até o Judiciário pautar as questões como, por exemplo, a possibilidade de criminalizar a homofobia. Tem uma frente de ativismo que faz esse trabalho, que é fazer a conversa com os parlamentares, com os legisladores, com o Judiciário, para que essas pautas avancem como algo do reconhecimento dos direitos humanos, na ampliação dos direitos humanos, da defesa dos direitos humanos de uma população vulnerável.

 

Há também ativismos que hoje a gente chama de “artevismos”, que são ativismos pela via da arte, pela cultura. São ativismos de grande importância, que dão gás, dão certa relação de onde o lúdico se torna político. Pensar em ações de grafite, música, poesia, hip hop... São ações que a gente chama de “artevismo”. São performances que podem acontecer em espaço aberto ou fechado.

 

Tem também as organizações que vão se colocar em um ativismo investigativo, do campo da pesquisa. Tem o ativismo institucional, que são pessoas nos espaços de gestão das políticas, das universidades, que trazem esse tema como importante na sua trajetória profissional.

 

E você tem o corpo político, que é uma pessoa que não necessariamente está organizada em um grupo, talvez já tenha passado por alguns coletivos ou não, e que o corpo dela, esse corpo contra-hegemônico, essa vida fora da norma, já é suficiente para que aquilo ali transpire uma política no corpo. Em grande medida, como corpos contra-hegemônicos estão constantemente violentados e violados, as pessoas acabam indo para um espaço coletivo para se organizar e resistir a formas de violência e discriminação que a população LGBT sofre antes mesmo de se reconhecer nessa identidade. A violência nas escolas, na própria família é um exemplo disso. Às vezes essas pessoas não se identificam ainda com homossexuais, transexuais, mas a violência já coloca a elas a necessidade de se organizar politicamente.

 

 

MidiaNews - O movimento LGBT é caracterizado por grande diversidade. Isso gera conflitos de interesse dentro do grupo?

 

Bruna Irineu - Às vezes, as agendas não são as mesmas. Uma agenda pode ser exclusiva das lésbicas, como a saúde lésbica, a ausência de preservativos distribuídos com aval do Estado para o sexo lésbico. Esse grupo que vai tensionar para isso. E você tem uma agenda sobre o processo transexualizador que é do grupo trans. Dependendo do coletivo, há uma parceria disso tudo, mas acaba que, em alguma medida, as frentes são distintas em algum momento. Mas existem pautas que congregam, como a criminalização da homofobia. Em qualquer grupo que é feito de sujeitos políticos, há disputas, há tensionamentos, não tem como pensar movimento social sem pensar em conflitos.

 

MidiaNews - Esse conflito de interesses gera preconceito dentro do movimento?

 

Bruna Irineu - É possível que se tenha. Ninguém é imune ao preconceito. O fato de uma pessoa ser lésbica, gay, trans, não vai impedir que ela possa cometer também processos discriminatórios sexistas, racistas. Todos os conjuntos têm uma propensão a ter conflitos desse campo.

 

 

MidiaNews - Alguns setores da sociedade defendem o tratamento psicológico para “curar” a homossexualidade, dizendo que ela é uma doença. Como enxerga essa ideia?

 

Bruna Irineu - A Organização Mundial da Saúde, o Conselho de Medicina Americano, o próprio Conselho Federal de Medicina Brasileiro - antes mesmo do Conselho Federal de Psicologia reconhecer que a homossexualidade não é uma patologia - fizeram esse reconhecimento entre os anos 70 e 80. A homossexualidade é uma orientação sexual como é a heterossexualidade, como a bissexualidade. É passível, sadia e legítima no campo do desejo. Não há cura para o que não é doença. A resolução do Conselho Federal de Psicologia, que hoje corre riscos, mostra o quanto há um mercado desejoso de terapias de conversão. Existem muitos países que hoje deixaram de fazer essas terapias de conversão e os efeitos da existência destas terapias são extremamente drásticos. Qualquer terapia de conversão de qualquer coisa é um risco para a vida, para a subjetividade de qualquer pessoa, haja visto o recente retrocesso em relação ao retorno dos manicômios. Qualquer tratamento violento de alteração e transformação de algo que não se transforma é nada mais que uma carnificina, um não reconhecimento da humanidade do outro. Essas frentes que vêm tentando encampar essa discussão são conservadoras de extrema-direita, extremamente perigosas e desrespeitosas com a vida das pessoas, com as formas de ser e de estar no mundo. É algo muito preocupante porque existem grupos organizados em torno dessa agenda e com discursos extremamente sedutores.

 

As pessoas não fazem escolhas de orientação sexual, eles sentem, elas simplesmente desejam. [...] Não dá para ser a família margarina porque nem sempre tem pão para comer

Quando as famílias descobrem ou quando os filhos fazem o “outing”, que é a saída do armário, elas se desesperam porque a própria relação de poder que a família desenvolve com o sujeito é uma relação que ela pode escolher o que os filhos vão ser. Nós temos construções de poder em todos os espaços da nossa vida que não valorizam a autonomia do sujeito. A família tem o primeiro impacto de não querer entender aquilo, de não achar que aquilo é positivo. Mas ao mesmo tempo, tem exemplos interessantíssimos, como as mães pela diversidade, mães pela igualdade, que também demonstram como é interessante e importante a família compreender a diversidade do seu filho e isso pode ser extremamente acolhedor a ponto dessa pessoa não precisar passar por situações que se passa quando não tem acolhimento e respeito da família. Afinal de contas, ter filhos é ter pessoas que vão se construir também não só a partir de você, pai e mãe, mas como sujeitos que têm desejos, projetos de futuro, querem escolher sua profissão, também querem construir sua individualidade, sua família. Isso é importante de ser assumido como um compromisso da família. As famílias que de fato têm afeto, cuidado, carinho, pelos seus filhos precisam estar junto conosco, com o ativismo LGBT, contra esse projeto que desrespeita algo que é constituinte do sujeito.

 

As pessoas não fazem escolhas de orientação sexual, eles sentem, elas simplesmente desejam. Se fosse fácil e tranquilo se assumir fora da norma, seria uma coisa. Mas se dizer homossexual, se perceber transexual, é algo muito difícil, que envolve dilemas individuais, coletivos. Como instituição que se diz amor, afeto, precisa se pensar como afeto real para qualquer forma de ser, para o jeito que a pessoa é, na forma como ela está e se constrói. A gente também precisa se pensar enquanto família, reconstruir a ideia de família, que é uma ideia muito utilizada pelos conservadores, é uma ideia de uma família que não existe mais. Muitas pessoas têm arranjos familiares que não é o arranjo familiar da propaganda de margarina com pai e uma mãe branca e dois filhinhos, com uma mesa farta. As famílias são construídas por distintos sujeitos, só um pai, só uma mãe, um pai e uma mãe, mas cada uma na sua casa já com outra recomposição, com novas esposas e maridos, um avô e avó que cuidam, todo mundo junto, um irmão mais velho, com dificuldades muito grandes nas relações e especialmente na vida financeira, nem sempre tem comida no prato. Não dá para ser a família margarina porque nem sempre tem pão para comer.


A família é muito mais do que os conservadores pensam, ela é vínculo que não se faz só pela consanguinidade, se faz pelo amor, pelo afeto, pela relação de cuidado, pela partilha, semelhanças, afinidades, mas especialmente pela alteridade, pelo respeito à diferença do outro. 

 

 

MidiaNews - A luta das mulheres lésbicas por visibilidade tem feito conquistas? Como vê o cenário e o atual momento do movimento de mulheres lésbicas em Mato Grosso?

 

 

Bruna Irineu - O movimento de lésbicas, embora tenha um pertencimento ao movimento LGBT, também se constitui em uma relação muito mais íntima com o feminismo. As pautas que atingem as mulheres não lésbicas são pautas que também são sensíveis à população de lésbicas. Os avanços relacionados ao combate, ao enfrentamento do feminicídio, a violência contra a mulher, a importância de pensar direitos sexuais reprodutivos da mulher, são conquistas que não são exclusivamente de mulheres não lésbicas. São conquistas também das lésbicas, porque os grupos feministas são constituídos por mulheres lésbicas também. Com os avanços que a gente tem, a própria construção da política nacional de mulheres, as políticas locais, os órgãos de políticas para mulheres, são conquistas também das lésbicas. Teve um avanço jurídico e no Executivo no início dos anos 2000 até mais ou menos 2012, mas há ainda uma fragilidade nesses avanços. Os avanços precisam se dar também no campo da educação, da cultura.

 

Não adianta nós termos uma super legislação, termos um rol de propagandas da importância da vida das mulheres, se nós não podemos discutir gênero nas escolas, se não podemos pensar a importância de combater o sexismo na escola. Tem-se hoje uma grande perseguição a quem trabalha com esses temas, não só na educação básica, mas também nas universidades. Acredita-se que pensar gênero é destruir a família. Tem-se colocado o termo “ideologia de gênero”, mas para nós é uma falácia porque o que você tem na relação de desigualdade entre homens e mulheres é que é uma ideologia de gênero. O que a gente faz é pensar como combater e enfrentar as violências que decorrem da desigualdade de gênero. Não se faz isso sem tocar na raiz, sem tocar na ferida das desigualdades entre homens e mulheres. Portanto, não se faz isso sem discutir o privilégio masculino. Por isso que incomoda tanto as religiosidades, porque as igrejas, sejam quaisquer que sejam elas, têm uma relação de reverberação de uma masculinidade bélica, uma masculinidade dominadora e uma masculinidade que não tem interesse em compartilhar os processos decisivos. De fato, discutir gênero na escola é discutir posições de poder. É uma falácia dizer que essas discussões vão homossexualizar as crianças, vão torna-las LGBT. A população LGBT foi educada por pessoas heterossexuais.

 

Não adianta nós termos uma super legislação, termos um rol de propagandas da importância da vida das mulheres, se nós não podemos discutir gênero nas escolas, se não podemos pensar a importância de combater o sexismo na escola

O desejo tem uma relação muito diferente do fato de um brinquedo pedagógico ensinar uma orientação sexual. Um brinquedo pedagógico ensina maneiras de ser, costumes, relações de afeto, de cuidado, de importância. O desejo tem um campo muito mais complexo do que uma brincadeira. Meninos são obrigados a brincar com carro e bola e meninas exclusivamente com cozinha e boneca, meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Essa relação que é uma tempestade em um copo d’água para algo que é tão pequeno. Brincar de boneca nada mais é do que ensinar a criança a ter uma relação de cuidado com o outro, que pode ser seu irmão, pode ser seu colega, seu namorado, seu filho. Os homens também vão ter filho, também precisam partilhar dessa responsabilidade do cuidado com a criança, eles também precisam ter a possibilidade de se relacionar afetuosamente com seus pares, com seus amigos, com sua família. Quando você incentiva esse sujeito a uma masculinidade bélica, doentia, pautada na violência, em uma virilidade a qualquer custo, você incentiva formas de violência e dominação desse sujeito em relação ao outro, que é um sujeito construído, no caso as mulheres, para estar em uma condição de cuidado, de afeto, de domesticidade. Ao mesmo tempo em que você domestica um sujeito, o outro você cria para uma condição oposta e isso vai dar uma fórmula extremamente ruim, recheada de violência, hierarquias de poder, extremamente impactantes da subjetividade das mulheres. E também de homens que não cabem nessa lógica e que são distantes desse modelo hegemônico de masculinidade.

 

Gênero é uma coisa, orientação sexual é outra, mas se cria no discurso religioso um medo, um pânico sexual, um pânico moral em cima desse debate, porque tem uma potência muito grande, por isso ele é perigoso. Ele tem potência de transformar mulheres mais autônomas e empoderadas, mulheres mais donas de si, mulheres que acreditam que podem ser presidentes, legisladoras, podem trabalhar no Judiciário, podem ser professoras, podem ser donas da rua também. E você cria homens que podem lidar bem com o fato de ser um bom pai, de estar em casa para cuidar das crianças enquanto a sua companheira está fazendo um processo de qualificação, por exemplo. Esse é o perigo. É o perigo de mudar a lógica violenta que está instituída. Os valores judaico-cristãos são ancorados em uma masculinidade superior e uma feminilidade inferior, há um sexismo explícito nessas lógicas. Isso reforça o lugar da mulher em uma condição de suscetível violência.

 

MidiaNews - Dentro do movimento LGBT, as reivindicações das lésbicas acabam sendo limitadas de alguma forma?

 

Bruna Irineu - As lésbicas se unem com as feministas em muitos momentos. Por exemplo, a pauta do aborto, que não é exclusivamente uma pauta LGBT. Existem muitos grupos do ativismo LGBT que apoiam essa pauta do movimento feminista e as lésbicas estão na construção desta pauta, embora nem sempre se apresentem como lésbicas para fazerem a defesa desse debate. Quando você tem um ativismo que compreende os direitos sexuais reprodutivos de uma forma ampla, você vai ter um grupo que é mais politizado nesse debate. Mas você pode ter grupos que não tocam nesse tema. O movimento LGBT não é uma unidade, não é um único grupo. Ele é constituído por grupos com projetos societários diferentes, frentes político-partidárias diferentes ou suprapartidárias também. Não dá para a gente entender ele de uma maneira homogênea. Têm confrontos, disputas, como qualquer movimento social. 

 

Gênero é uma coisa, orientação sexual é outra, mas se cria no discurso religioso um medo, um pânico sexual, um pânico moral em cima desse debate, porque tem uma potência muito grande, por isso ele é perigoso

MidiaNews - Agosto é considerado o mês da visibilidade lésbica. Qual a importância dessa data para o movimento?

 

Bruna Irineu - Os anos 80 marcaram um entre-lugar do ativismo lésbico. Ao passo que as lésbicas se sentiam parcela homossexual do movimento feminista e no movimento homossexual a parcela feminina, houve a necessidade de construir uma luta autônoma. Nesse sentido, os grupos lésbicos vão se formando. Esse dia de luta surge com o primeiro Seminário Nacional de Lésbicas, que hoje é chamado de Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais. Dentro da agenda lésbica também vai surgir a agenda das mulheres bissexuais, que têm demandas que se congregam, mas também têm suas demandas distintas, reivindicam sua identidade com suas especifidades.

 

A importância dessa data é marcar posição, que há uma distinção entre ser lésbica e ser gay, e marcar essa data como uma data de luta, de agenda política e de defesa da vida dessa população. É uma data que congrega muitas memórias de lésbicas que foram assassinadas, de lésbicas que lutaram e fizeram parte do movimento nos anos 80 e que também já não estão mais conosco.

 

Há uma construção nacional, mas há construção local também. Aqui o Estado tem uma marca de ter coletivos distintos. Então, vai ter coletivos com uma relação mais próxima com os coletivos feministas, que vão construir uma agenda para essa data, que é uma agenda diferente dos grupos que têm uma relação maior com o movimento LGBT. Essas frentes são extremamente importantes e mostram também a distinção, as posições, as disputas de projetos, as compreensões distintas dentro de um mesmo segmento. Isso, para quem reflete sobre os movimentos sociais, é algo inerente ao movimento social e que pode ser extremamente interessante, mas que também demonstra que nós precisamos tentar congregar uma unidade na diversidade, que é um grande desafio para qualquer movimento social. Quando se trata de congregar e da necessidade da unidade desses diversos, você está falando do quanto a agenda anti-LGBT, protagonizada por conservadores, vem avançando no Brasil a ponto de eleger um presidente.

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marcos  22.02.19 16h22
Bom para ela a homossexualidade não necessita de cura. Acho que ela não leu o livro em inglês que fala da cura de gays, como exemplo: Cures: A Gay Man's Odyssey, Tenth Anniversary Edition.
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sediclaur  22.02.19 13h26
Boa Edson Sena! Parabéns! Sábia conclusão. Simples,lógica e objetiva.
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EDSON SENA  22.02.19 09h45
se não é mais doença, logo o SUS e planos de saúde não poderão mais realizar cirurgia para mudança de sexo. Quem quiser que façam por meios próprios, que os parlamentares façam algo nesse sentido.
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Nascimento  20.02.19 07h46
Para João Mendes: há uma grande possibilidade sim de inúmeros casos de abusos sexuais na infância, quando não tratado, possa gerar na criança efeitos psicológicos desde a raiva de homossexuais até a tendência de práticas homossexuais, mesmo não sendo homossexual. E devido a confusão mental, o menino acha que é homossexual,enquanto na realidade não é. Só que isto não é abordado pelos "especialistas" porque pode gerar muitos conflito$. Existem casos e casos, por isto é um assunto muito delicado, mas se for analisar a infância de muitos, estes passaram por traumas, o que acabou gerando isto sim.
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JOÃO MENDES  18.02.19 17h58
Bruna, me responda uma pergunta. Conheço uma pessoa que sofreu abuso quando criança e hoje é homossexual. Neste caso podemos dizer que o fato da pessoa ter sido abusada fez com que se tornasse homossexual???? Apenas nesse caso em específico???
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