Cuiabá, Quinta-Feira, 26 de Março de 2026
MARCELO PORTOCARRERO
05.06.2025 | 05h30 Tamanho do texto A- A+

A imortalidade implícita

Disputa pela Academia deixou de levar em conta apenas o conjunto da obra

Uma das formas de alcançar a imortalidade está implícita no ato de escrever. Para tanto, basta estar focado em dar valor intelectual, educacional e histórico ao que se propõe produzir. Essas exigências naturais levam a considerar que uma eventual imortalidade acadêmica também deveria estar baseada na opinião dos leitores e não apenas na de eleitores de voto restrito (não subjetivo) de imortais vivos, posto que, embora aplicada desde o início e, portanto, consagrada, na atual conjuntura pode pressupor certo tipo de ativismo.

 

É o que o mato-grossense Manuel de Barros – Acadêmico Honorário da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras – e tantos outros ilustres escritores parecem entender ao não se habilitarem ao honorável título.

 

A disputa pela honraria deixou de ser apenas e tão somente pelo conjunto da obra, para se tornar uma concorrência que também contempla o poder da influência político-ideológica junto aos membros da elite intelectual dominante na Academia. Os imortalizados de antes e, para ser justo, muitos dos de agora e daqueles que se candidatam foram e são fiéis à liturgia literária em tudo. É quando perdem para concorrentes beneficiados pelo contexto adicional anteriormente citado. Assim, a cada nova abertura de vaga, observa-se uma “situação” como a que recentemente ocorreu na Academia Brasileira de Letras.

 

O autor, no caso o postulante, precisa ter muito de si na obra, não deve perder a espontaneidade no que gostaria de mostrar

Um evento notório, em que a pessoa imortalizada, no caso, Miriam Leitão, esteve em concurso com outros doze ilustres autores finalistas, entre eles: o ex-ministro da educação, professor Cristovam Buarque, Tom Farias, Ruy da Penha Lôbo, Antônio Hélio da Silva, Rodrigo Cabrera Gonzales, Daniel Henrique Pereira, Angelos D’Arachosia, José Gildo Pereira Borges, Tamara Ribeiro de Oliveira, Martinho Ramalho de Melo, Chislene de Carvalho e Edir Meirelles, todos com enorme cabedal intelectual e/ou acervo literário.

 

Para não alongar ainda mais o desgastante assunto, cito apenas o acervo literário de Cristovam Buarque: 33 livros publicados sobre economia, história, sociologia e educação.

 

“Situação”, que pode inibir futuras candidaturas, restringindo a importante instituição a um grupo de imortais que parece aceitar como novo membro somente quem com ele tem afinidade. Se não é assim, essa é a impressão que transmite.

 

O autor, no caso o postulante, precisa ter muito de si na obra, não deve perder a espontaneidade no que gostaria de mostrar e na forma de dizer o que pensa e, o mais importante, não pode ficar preso a normas tipo stricto sensu.

 

É importante salientar que o mérito literário reside na originalidade do escritor, fruto inquestionável do cunho emocional, histórico e até ficcional, desenvolvido por sua capacidade de criar, contar contos, narrar casos, historiar o passado e poetizar.

 

O que confere imortalidade é o conjunto, a originalidade e a qualidade da obra, o que, convenhamos, nela já estão implícitos.

 

Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil.

 

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. 

 

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